Dois filmes: Bolívia e El Bonaerense

Entre os filmes da nova safra do cinema argentino, os mais significativos que chegaram até nós são, sem dúvida, Bolívia e El Bonaerense. A importância atribuída a esses filmes dentro do panorama do cinema argentino contemporâneo não se deve apenas a suas inegáveis qualidades, mas também por eles se aproximarem de uma realidade tangível e denunciarem através dela uma particular forma de violência que na maioria das vezes é camuflada.

A violência social e política, por ser mais sutil e menos explícita que a violência física, quase sempre é imperceptível e é justamente essa singular forma de agressão que atinge o cotidiano de Zapa e de Freddy. Ao contemplarmos a trajetória de Zapa (El Bonaerense) desde o momento em que ele é apenas um humilde serralheiro até quando ele chega ao posto de cabo da policia, temos a nítida impressão de que a sua participação no mundo equivale a um barco à deriva no meio de um oceano. A sua ação é apenas ser deixado levar pela maré. Os acontecimentos se sucedem e ele é apenas conduzido, empurrado por uma força superior. O seu patrão o chama para participar de um roubo, ele aceita. Essa primeira decisão tomada por zapa vai ser o detonador de um processo, de uma cadeia de acontecimentos que mudará a sua vida. Não importa se a sua decisão foi convicta ou se ela foi apenas um fruto de sua apatia ou de sua incapacidade de negar o pedido de um superior. Zapa é um subordinado não por sua condição social mas sim porque ele se vê como tal. A sua obediência é canina e é justamente esse fator que nos dará a impressão que ele somente é levado pela corrente e pelo fluxo dos acontecimentos. Na verdade, o personagem está sempre tomando decisões, a sua aceitação é uma decisão. Zapa ao ser liberado da prisão pelo tio aceita a alternativa de ir para Buenos Aires e tentar o contato com um conhecido deste, influente na policia. Ao progredir como policial, o seu superior, um comissário desonesto o convida para participar de seus negócios escusos, ele aceita.

A passividade de Zapa é a expressão de sua incapacidade de se rebelar contra a violência a que é submetido. A violência praticada pelo aparato burocrático (meses sem receber salário), a violência praticada por seus superiores, a violência diluída em sua vida. O Freddy de Bolívia também experimenta essa condição e também exerce o papel de agente histórico passivo. Ele está imerso em uma realidade que o engole, em uma realidade que o supera.

A primeira seqüência de Bolívia nos mostra em detalhe o local, o espaço onde se desenrolará a ação. Em paralelo à apresentação minuciosa do espaço do restaurante, escutamos em off o dialogo entre o empregador e o futuro empregado. Enquanto sabemos as miseráveis condições e o parco salário que este receberá de seu novo trabalho vemos a exposição de um espaço que terá grande importância no decorrer do filme.

O restaurante é o espaço em que Freddy viverá o seu drama. É dentro dele que ele passará a maior parte de seus dias nessa Buenos Aires opressora que não o quer. É nele que ele será constantemente humilhado, sendo chamado pelos clientes bêbados de "negro" por ter traços indígenas. É ocupando a vaga de "parrillero", é exercendo essa função que as circunstâncias lhe impuseram que ele experimentará o preconceito e a intolerância. Zapa também foi vitima das circunstancias ao se tornar policial. Ocupar tal função nunca passou pela sua cabeça quando era um serralheiro em sua cidade natal.

Nos dois filmes vemos como a realidade é incrivelmente maior que os anseios individuais. Vemos como o exercício de determinada função (no caso, determinada pelo mundo) pode transformar a vida e o modo de pensar do individuo. Diferentemente de Freddy, Zapa obteve contato com o poder. Descobriu que o simples ato de colocar a farda lhe dava vantagens, lhe dava uma importância que antes não possuía. Quando ele começou a subir na carreira, a obter uma posição destacada devido a sua ligação com o comissário, quando experimentou pela primeira vez o gosto do poder, o sabor prazeroso que a sua posição poderia lhe proporcionar, resolveu utiliza-lo também na sua vida pessoal. Zapa passou a querer mandar na amante e no filho dela. Quando ela não quis abrir a porta de sua casa, a sua habitual apatia transformou-se em revolta. Essa talvez tenha sido a primeira atitude espontânea, a primeira explosão de Zapa, já que conter as suas ações era um traço marcante de sua personalidade. Obediente e contido, o personagem demonstrava desde o inicio a sua total inabilidade para o cargo de policial. Tanto nos treinamentos quando era aspirante quanto um ano depois quando já possuía o distintivo, nos tiroteios e nas perseguições que teve que enfrentar, constatamos que Zapa estava no lugar errado. Zapa era um peixe fora d’água, um sujeito comum que por ironia do destino tinha se tornado policial.

O trabalho transforma o homem, o trabalho e o local onde ele é realizado. Notamos nos dois filmes a ênfase nessa idéia através da importância da função dramática do espaço do trabalho representado pelas fachadas. A fachada do restaurante em Bolívia possui grande peso na narrativa, assim como a fachada da delegacia em El Bonaerense. Os planos gerais que enquadram os dois locais não são apenas planos de pausa ou respiro entre uma seqüência e outra e sim um comentário do que se passa dentro e do que se passa fora desses espaços.

Em Bolívia, os planos da fachada do restaurante possuem uma característica a mais: eles são em câmera lenta. O tempo de dentro do restaurante é distinto do tempo do lado de fora. É como se Freddy, a garçonete paraguaia e o proprietário estivessem presos, encarcerados, diferentemente dos clientes que entram e saem na hora que querem. Freddy está preso em um outro tempo, no tempo de seu trabalho. Um trabalho que consome as suas energias e que o fará envelhecer mais cedo. Um trabalho que sugará o seu tempo de vida, um trabalho que o matará lentamente.

Em El Bonaerense a fachada da delegacia nos é apresentada através do olhar de Zapa. Ele chega levado pelo amigo do tio e não imagina o que terá de enfrentar do lado de dentro. Sempre com a câmera posicionada do outro lado da calçada vemos juntamente com a fachada da Bonaerense o fluxo dos carros, o movimento do lado de fora. Essa não-diferença de fluxo entre os dois lados, o de dentro e o de fora, se deve ao fato de Zapa não estar preso ao espaço da delegacia, já que grande parte de sua carga horária é consumida nas ruas. A fachada da Bonaerense apresenta a função de sinalizar a força da instituição e a sua presença no cotidiano da cidade.

Outro elemento dramático presente nos dois filmes e utilizado habilmente é a musica que acompanha os personagens como um símbolo cultural. Zapa é argentino mas como Freddy não é de Buenos Aires. Ele vem de uma outra realidade, a do norte do país, que apresenta códigos e costumes diferentes da grande metrópole. A música do norte da Argentina só aparece no filme duas vezes. A primeira é quando Zapa entra no ônibus que o levará de sua cidade. A outra, no final do filme, surge quando ele retorna ao norte para visitar a família. Notamos que essa música só existe nas seqüências ocorridas no interior. Zapa não carrega a sua bagagem cultural para Buenos Aires. Lá, ela é inaudível.

O inverso ocorre com Freddy. A primeira vez que escutamos a musica andina como sinalizador da origem do protagonista é exatamente na abertura quando vemos uma partida de futebol, Argentina X Bolívia. Zapa pode esconder de onde veio, pode perfeitamente se disfarçar de portenho, apesar de seus traços, mas Freddy não. Freddy não pode negar que é estrangeiro, que é de fora, que é o outro, por isso a música do altiplano sempre o segue. A musica é ele, a musica está nele. Ela é o indicador que ele está contra a Argentina, ou melhor, que a Argentina está contra ele. A sua função é apenas se defender contra o ataque. Quem será o vencedor desse jogo?

O resultado dessa partida já era mais ou menos previsível para os nossos personagens. A tentativa de estabelecer um pacto com a grande cidade para ambos se resultou infrutífera. Zapa, ao menos adquiriu uma profissão, conseguiu ascender ao posto de cabo efetivando uma troca não muito feliz: ficou aleijado para o resto da vida. A violência da cidade o deixou incapaz, violou o seu corpo de maneira irreversível. A cidade também violou Freddy, tirando-lhe a vida. A única mudança trazida por sua morte foi o fato do dono do restaurante ter que colocar novamente um anúncio no vidro da fachada escrito "precisa-se de 'parrillero'". Freddy passou por ali e ninguém ficou sabendo, os que ficaram nem se lembrarão, surgirão outros e mais outros que ocuparão o seu lugar.

Estevão Garcia