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Na estrada, pegar o desvio ou
Todd Haynes e o cinema desviante


Longe do Paraíso: o casal exemplar antes
de revelar a condição de desviante
É inegável
a importância que Todd Haynes ocupa no cenário do cinema
mundial e no dito independente americano dos anos 90 e deste começo
de século. Não por ter colocado a questão gay (Haynes
é confessamente homossexual) em um plano que a fez sair do gueto
do "cinema gay" (o tratamento da homossexualidade, embora possa ser acusado
de ideológico e constantemente aproximado do cinema institucional,
nunca é feito sem
brilhantismo cinematográfico), chegando a receber premiações
importantes em festivais nos quais a questão da sexualidade não
era central, participar de eventos como o Festival de Cannes e conquistando
indicações a Oscars e Globos de Ouro. Também nem
tão apenas pela inegável posição de desbravador
do próprio ambiente cinematográfico americano para o cinema
independente (sobretudo através da pesquisa de linguagem), movimento
iniciado no final dos anos 80, com a cooperativa Aparatus, formada por
ele, pela produtora Chistine Vachon (até hoje produtora de seus
filmes) e pelo fotógrafo e produtor Barry Ellsworth, todos colegas
de faculdade, e da qual fazia parte também o roteirista James Schamus,
que se tornaria uma figura chave do cenário do cinema independente
e seria apreendido pelo cinema dos grandes estúdios. Da Aparatus
saíram nomes como o montador James Lyons e o cearense Karim Aïnouz,
que teve sua primeira experiência cinematográfica no primeiro
longa-metragem de Haynes, Veneno (1991). A importância de
Haynes está principalmente no vigor que seu cinema americano trouxe
para o cenário cinematográfico mundial atual, uma abordagem
da poética cinematográfica (seus filmes constantemente remetem
ao debate sobre o cinema poético de Pasolini) e da forma como o
cinema pode não ter limites.
Dois elementos articulados
são centrais na obra de Haynes. O primeiro deles é a obsessão
por fazer um retrato, por vezes uma genealogia, do desviante. Os personagens
de Haynes são sempre exemplos de desvio e mesmo ícones comportamentais
do anormal, em uma demarcação essencialmente disciplinar.
Quer seja ao narrar a história da cantora Karen Carpenter em Superstar
(1987-88), o média-metragem inaugural de sua cinematografia (embora
seu primeiro filme tenha sido o curta documental/experimental Assassins:
a film concerning Rimbaud, é mesmo Superstar que marca
o nascimento do estilo Haynes), quer seja na anti-biografia estabelecida
em Velvet Goldmine (1998) para os personagens reais da saga da
banda Velvet Underground e do movimento glam, eles são sempre exemplos
de uma abordagem do mundo que escapa (ou que foi forçada a sair
ou que eximiu) do padrão da normalidade. E essa deslocalização
geralmente se dá pela intermediação da homossexualidade
e com um olhar crítico que ultrapassa o tradicional discurso de
que a sociedade é hipócrita (embora ele seja usado), mas
promovendo um verdadeiro sistema de observação da relação
entre desviante e ordem social.
Mas há um detalhe
particular. Haynes poderia ser apenas um cineasta interessado (até
por motivos ideológicos) no desviante. No entanto, parece que o
seu desejo é o de fazer desviante também seu cinema. O uso
de animação com bonecas Barbie de Superstar é
uma demonstração de um desejo de não usar a medida
visual e narrativa clássica, promovendo uma leitura do cinema através
mais de linhas de atração e repulsão do que propriamente
através narrativas simplesmente. Observados de perto, seus filmes
são histórias bastante simples, preenchidas quase episodicamente,
mas com dois detalhes marcantes: de um lado, pujança e inventividade
visual que o colocam como um criativo produtor estético da imagem
(mesmo quando filma com simplicidade absoluta, como em Safe [1995]);
do outro lado, o desejo de perseguir sempre o simbólico, o que
faz de seus filmes exercícios de transformação de
questões filosóficas em cinema. Tudo em um filme de Haynes
remete o tempo todo para um tema, uma questão, um problema. E mais,
sempre recorrendo a um erudito painel de citações que soma
poetas ingleses, filósofos gregos, cultura pop e outros elementos.
Em Veneno, vemos três histórias, narradas de uma maneira
bastante ousada em termos narrativos, a começar com o fato de que
são três histórias radicalmente independentes, mas
apresentadas intercaladamente, uma cena de uma, outra de outra, como se
fossem núcleos de uma mesma grande história. Mas a colagem
das três parece não querer permitir a unidade, por conta
da opção por tratamentos visuais e narrativos radicalmente
díspares em cada uma. Entre as três histórias, apenas
a inspiração em textos de Jean Genet e a temática
do desviante. A primeira a ser iniciada é a de um cientista que
isola em laboratório o instinto sexual, acaba bebendo a fórmula
por acidente e se adquirindo uma estranha doença degenerativa que
lhe torna a pele uma mucosa em decomposição e faz dele um
monstro. Isso é filmado segundo o cânone do 'filme b' dos
anos 50, claramente inspirado em A mosca da cabeça branca
(1958), de Kurt Newman. A segunda história é uma espécie
de documentário em super-8, em que se conta a história de
um menino que desapareceu depois de dar um tiro no pai, que espancava
a mãe. Entrevistas com vizinhos, com a mãe e com colegas
tentaram determinar se é verdadeira a história segundo a
qual, depois de matar o pai, ele saiu voando pela janela. Trata-se, obviamente,
de um falso documentário. Mas não fosse o tema gritantemente
inverossímil, poderia passar por um verdadeiro. A última
história é a do reencontro na prisão entre dois homens,
que haviam se conhecido e tido uma relação amorosa no reformatório,
e depois. É um filme de narrativa clássica, em 35mm. Este
primeiro longa deu a Haynes o prêmio principal no Festival de Sundance
de 1991. Ficava claro o interesse por um cineasta que não só
fazia um filme claramente crítico ao preconceito contra o desviante
em um momento em que a epidemia de Aids se tornava um problema não
só nos EUA, mas em escala mundial, mas também que se mostrava
um grande conhecedor de filmes. Haynes
dirige como quem viu muitos filmes, como quem domina várias diferentes
estéticas e que faz delas uso nada maneirista. Essa riqueza de
conhecimento cinematográfico volta à tona em todos os trabalhos
de Haynes.
Basta citar dois
momentos emblemáticos. O primeiro é Velvet Goldmine,
cuja estrutura de roteiro é francamente inspirada na de Cidadão
Kane (1941), de Orson Weles, com um jornalista que, após ver
um documentário, reconstitui a história do personagem emblemático
Brian Slade (um Kane que teve a seus pés não um império
de comunicações, mas sim o mundo glamouroso da liberação
pansexual). O outro momento é seu último trabalho, Longe
do Paraíso (2002), que se inspira no universo americano e otimista
de Douglas Sirk, diretor de filmes como Tudo que o Céu Permite
(1955). As cores iluminadas e a crônica da sociedade americana que
faz lembrar pinturas de Norman Rockwell estão lá. Mas sobretudo
está a observação da hipocrisia da sociedade americana
que Sirk (que era alemão) propunha. Tudo que o Céu Permite,
aliás, é um parâmetro para Haynes. Ao contar a história
de uma viúva que se apaixona por um rapaz mais novo e que vira
alvo de fofoca em sua cidade, o filme é o ponto de partida da história
de Longe do Paraíso, que mostra um casal tradicional que
se rompe pela descoberta da homossexualidade, por parte dele, e da paixão
dela por um jardineiro negro. Mas Haynes trata o universo de Sirk sempre
com um tom acima, revelando o quão encenação aquela
mesma América feliz era, sobretudo por conta da não aceitação
de seu próprios anormais.
Mas se uma genealogia
do desviante (sem o desejo de produzir uma universalidade do desvio, embora
todas as suas críticas em casos particulares sejam generalizáveis)
é central em Haynes, ela não é apenas feita, nasce
de acordo com uma leitura crítica recorrente. É o segundo
elemento central em Haynes: intermediar a construção da
figura do desviante por uma leitura clínica. O desvio no cinema
de Todd Haynes é uma questão de saúde, de limpeza,
de produção da pureza. É uma metáfora para
o tratamento que a sociedade disciplinar dá para o anormal, mas
também é a forma mesma dessa anormalização.
A criação do desviante é a criação
de um cancro, um câncer, um nódulo indesejável dentro
da ordem social. A sociedade tenta escondê-los, oprimi-los ou destruí-los,
mas para Haynes é preciso deixar claro não que eles não
são uma doença (é óbvio que não são),
mas os mecanismos de produção de uma obsessão pelo
doentio, pela conversão simbólica em busca pela assepsia
no tratamento da ordem. Nesse sentido, Safe (1995) é emblemático.
A dona de casa que adquire uma estranha alergia é a forma mesma
da busca por uma maneira de lidar com o mundo que possa impedir que a
natureza mate o homem. O preservativo de borracha é o modelo sociológico
de Haynes. No momento em que a intimidade tem que ser intermediada por
um aparato que não permita a intimidade sem limites, no momento
em que só se pode sair à rua com máscaras de gás,
ninguém está a salvo neste mundo e a ordem é pura
repressão. Velvet Goldmine também retoma a temática,
mas de uma forma mais sutil. No filme, o problema da assepsia vem na apreensão
da problemática da sanidade. O repórter mesmo havia se obrigado
a esquecer o momento glam em respeito a sua normalidade mental
e, em conseqüência, identitária.
Longe do Paraíso,
curiosamente, entretanto, dá ao mapeamento do desviante uma dimensão
interessante e irônica. Isso porque em todos os filme de Haynes
até este, o anormal brota sempre em um campo, em um sistema definido
para desviantes dentro da própria ordem social. Os personagens
de Veneno são um homossexual encarcerado (a prisão
como o lugar para onde o desviante é enviado); um menino problemático
tido como uma quase monstruosidade e oriundo de uma família-problema
(o lar destruído como produtor da desordem) e um cientista que
vira monstro (a ciência como campo disciplinar de personagens estranhos,
os cientista – uma imagem recorrente nos anos 50, e, ao mesmo tempo, reveladora
do mal interior do homem e de produção de híbridos).
Os personagens de Velvet Goldmine, todos perpassados pela bissexualidade
glam, são roqueiros de uma tribo, uma auto-produção
contestadora de desvio. Mas Longe do Paraíso faz brotar
o desviante de dentro da própria ordem social, sugerindo que toda
ordem contém desviantes em si mesma e que, na verdade, ela é
pressionada por eles, de dentro. Essa a fonte de conflito maior do mundo
moderno. E nesse sentido, a grande operação de Haynes é
a "homenagem" (e essas aspas devem ser bastante demarcadas) que ele faz
a Douglas Sirk e seu ambiente alegre e bucólico, embora crítico.
O desejo de uma ordem perfeita que pulsa no cinema de Sirk ao mostrar
uma ordem imperfeita é perfeito para a demonstração
de força de desvio que Haynes opera. Nada parece se sustentar na
constituição da ordem. Ela só pode ser se for uma
ficção. Por isso mesmo, o tom acima de que já falamos.
É tudo consideravelmente melodramático e irônico no
filme. As interpretações são o tempo todo marcadas
por uma emotividade claramente exagerada. Há um tom até
certo ponto kitsch no tratamento que ele dá à descoberta
da homossexualidade (certamente um assunto que não tem espaço
para estereótipos para alguém que seja gay). É uma
pura encenação. E o que há de mais impressionante
é que, embora seja impossível ser feliz, impossível
chegar ao paraíso (ao desviante porque nunca será nem aceito
e nem normal e ao normal porque sempre existirão desviantes e a
operação de normalização ser opressiva), ela
ainda assim mantém o sistema em funcionamento, em busca de pureza.
Pureza e beleza,
para além do clínico, também são um detalhe
de Haynes. Sua relação com a beleza, aliás, é
curiosa. O desejo da reprodução de uma beleza greco-romana,
um elemento tradicionalmente associado à comunidade gay, deve-se
lembrar, está o tempo todo em seus filmes. O homem com que o marido
vivido por Dennis Quaid é flagrado em um beijo no escritório
às escuras pela mulher é apolíneo, forte, definido.
O mesmo é o rapaz por quem ele se apaixona e pelo qual abandona
o lar "feliz" (em uma atitude um tanto wildiana. Wilde é uma referência
recorrente para o diretor, que faz com sua origem uma brincadeira em Velvet
Goldmine). Em Veneno também os rapazes do reformatório
vivem em uma realidade essencialmente grega, como em uma alusão
à relação preceptor-efebo cara à cultura filosófica
primeira. O mesmo nas alusões à beleza quase alienígena
de Brian Slade em Velvet Goldmine.
Outra sistematização da beleza está nos jogos de
oposição que ele estabelece. Velvet Goldmine, por
exemplo, opõe uma Nova York sombria nos anos 80 a uma Londres colorida,
vibrante, glamourosa, nos 70. Para ele, os anos 70 e da Europa foram uma
época de desvio livre, os 80 e os Estados Unidos, a padronização
acinzentada do comportamento. Já em Veneno, a oposição
é entre a maturidade sombria e cínica, em que a beleza não
é mais importante, e em que a posse sexual passa ser o elemento
central de uma economia de valores, àquela juventude florida e
grega do reformatório. Safe também opõe a
pureza e a concórdia da fuga da doença a um mundo de opressão
verminosa. Longe do Paraíso não faz uma comparação
entre padrões de beleza externos porque faz estarem os dois dentro
do mesmo sistema. O submundo da sociedade americana dos anos 50 é
interior. O negro não pode ser aceito, mas não será
demarcadamente não-aceito. A homossexualidade não pode ser
vivida, mas ela sara tratada no médico, com todas as técnicas
que a modernidade permitir. Tudo porque a busca de beleza de Haynes é
sempre a busca do belo que está dentro do anormal, do único,
do singular. Afinal, um monstro é um híbrido (e seus filmes
são constantemente misturas de seres díspares, verdadeiros
ornitorrincos cinematográficos) e que não pode se reproduzir.
Alexandre Werneck
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