Editorial



Behzad Dourani observa de seu carro a mulher fugidia que não se deixa ver nem decifrar. Metáfora da imensidão da arte e da vida, mas também do trabalho do crítico enquanto admirador: é preciso correr, tal qual Sísifo, à procura de um sentido sempre a redescobrir (nos filmes, na vida, que importa?). O Vento nos Levará, de Abbas Kiarostami
   
Preencha o campo abaixo com seu e-mail e assine o informativo Contracampo.


fotos da edição: Fernando Duarte

Companheiros de percurso. 50 números. É um número como outro qualquer, mas é também um número tabu para qualquer publicação de crítica de cinema no Brasil. Todas as tentativas nacionais de uma revista de cinema com preocupação crítica estacionou suas atividades nas quarenta e tantas edições. Da longeva e canônica Filme Cultura, que esteve viva por vinte anos, até experiências mais recentes como a Cine Imaginário e a Tabu, quase nenhuma resistiu à contagem cinqüentenária (a CI ao menos logrou chegar ao nº51). Como todos aqueles que sobrevivem a seus amigos (mesmo que distantes no tempo, tratam-se de amigos conceituais), sentimos ao mesmo tempo algo de culpa (por que nós ao invés deles?) e um tanto de orgulho por conseguir fazer seguir em frente nosso trabalho. Tamanha responsabilidade.

Olhando para hoje com o olhar dos três jovens que decidiram fundar uma revista de cinema pela internet numa época em que a crítica de cinema (no sentido de discutir e pôr em crise os filmes) – com raríssimas exceções – inexistia, e em que a internet ainda era considerada uma coisa para poucos bitolados, o alcance que hoje atingimos é inacreditável. E tanto mais inacreditável se torna à medida que observamos as atribulações, as diferenças conceituais e de projeto, as brigas e os eventuais rompimentos (infelizmente eles também ocorrem), as incertezas, a chegada e a partida de redatores, e tudo aquilo de que é feito o cotidiano de uma revista.

Ao mesmo tempo, criar e fazer crescer uma revista é algo entre criar um filho e presidir uma pequena nação (muito pequena mesmo). É preciso alimentar e vestir, mas também mudar a face, nuançar certos aspectos e enviesar por outros pouco recomendáveis. Enfim, os ossos do ofício.

Mas fazer uma revista de crítica não é simplesmente juntar algumas pessoas que gostam de sentar-se placidamente numa cadeira para avaliar o trabalho dos outros, como se diz, colocando-se na posição de pedra diante do filme-vidro. Principalmente no nosso caso – tendo começado sem orçamento (como ainda estamos, aliás), semi-analfabetos em códigos operacionais de internet e sem qualquer nome conhecido nas assinaturas, ou seja, sem qualquer capital econômico ou cultural –, fomos vidro muito antes, e acima de tudo nosso próprio vidro: críticos, tentamos manter para nosso próprio trabalho o mesmo grau de rigor com o qual observamos e analisamos o trabalho dos outros. E, como gostamos de aventuras, muitas vezes caminhamos às cegas, sem saber o que vai funcionar ou não. Se sim, são estas 50 edições (todas disponíveis em nossos arquivos) que vão dizer, não nós. Que diga você.

* * *

A foto da capa mostra o protagonista de O Vento nos Levará, uma das obras-primas de Kiarostami, observando uma mulher, figura fugidia que jamais deixa que seu olhar seja fixado pelo herói do filme. Posição, pois, tanto do cineasta quanto do crítico: há primeiro uma tela através da qual observamos a realidade, a janela do carro (e é impressionante como o carro, onipresente nos filmes de Kiarostami, é também uma metáfora da atividade cinematográfica); posteriormente, mesmo que não houvesse janela, podemos extrair sempre alguma coisa daquilo que observamos, mas o mais importante parece sempre escapar. Na vida como na arte, instituímos desde já que essa imperfeição, esse erro, é uma claudicância constitutiva que fazemos questão de mostrar a todos. Nossa prova de humanidade. E de que nunca fingiremos esgotar o que não pode ser esgotado.

* * *

Fazer uma edição comemorativa era um desafio. Como falar de nós e ao mesmo tempo falar daquilo que de fato interessa (a nós e aos nossos leitores), o cinema? A resposta natural foi essa: fazer uma radiografia de nós mesmos através dos diretores que elegemos nessa cinqüentena de edições como alguns dos principais nomes do cinema contemporâneo que é preciso e necessário assistir e comentar. E, como em toda pauta como essa, há espaço para surgirem novos nomes na revista (Arnaud Desplechin, Paulo Sacramento), correção de algumas omissões (Jorge Sanjinés, Quentin Tarantino), descobrir autores onde antes só víamos filme por filme (Michael Mann, M. Night Shyamalan) ou revisitar autores decisivos sobre os quais ainda não havíamos escrito de forma ensaística, só cobrindo lançamento atrás de lançamento (Abbas Kiarostami, Manoel de Oliveira, Pedro Almodóvar). Da mesma forma, temos na presente edição a volta de antigos colaboradores (entre eles Bernardo Oliveira, fundador, que escreve sobre o primeiro pilar sobre o qual Contracampo se constituiu como revista de posição sobre o cinema brasileiro, Rogério Sganzerla) e alguns que pela primeira vez escrevem, como José Roberto Rocha. A festa é tanto dos diretores quanto nossa, mas o mais importante é que seja uma festa do leitor, que ele se reconheça nessa data.

Obviamente, não se tratou de uma lista exaustiva de todos os diretores que consideramos importantes hoje. É antes uma lista errante, pessoal, que omite tanto nomes sobre os quais já falamos muito (Godard, Tsai, Hou, Coutinho, Reichenbach, Eastwood ou Carpenter, por exemplo) e alguns outros dos quais poderíamos falar mais (Rivette, Chabrol, Beto Brant, irmãos Coen e Dardenne, Wes Anderson, Aki Kaurismäki ou Jia Zhangke, Straub, Bellocchio). Não é erro. Como em todo retrato, nunca é o rosto todo que é mostrado, e muito menos todas as possibilidades de expressão. E quisemos fazer um retrato, nada mais.

* * *

Completa a edição em DVD/VHS (que, desde nosso número passado, entra no ar 10 dias depois da entrada da edição) uma olhadela nos filmes italianos que vêm sendo paulatinamente lançados em DVD nacional e que já logo compõem um extenso e interessantíssimo panorama do melhor cinema italiano produzido entre os anos 40-70. No Plano Geral, além da nossa inédita cobertura do Festival de Cannes por nosso nobre Eduardo Valente, uma experiência digna de nta em matéria de diálogo entre cineasta e crítico. Fernando Meirelles (diretor de Cidade de Deus) leu artigo de Contracampo, replicou, nós mandamos de volta, ele treplicou. No fundo, ganharam todos, nós, ele, o filme. E o resultado quem julga é você. Como sempre. Boa leitura!

Ruy Gardnier

ça

fotos da edição: Fernando Duarte