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Companheiros
de percurso. 50 números.
É um número como outro qualquer, mas é
também um número tabu para qualquer publicação
de crítica de cinema no Brasil. Todas as tentativas
nacionais de uma revista de cinema com preocupação
crítica estacionou suas atividades nas quarenta e tantas
edições. Da longeva e canônica Filme Cultura,
que esteve viva por vinte anos, até experiências
mais recentes como a Cine Imaginário e a Tabu, quase
nenhuma resistiu à contagem cinqüentenária
(a CI ao menos logrou chegar ao nº51). Como todos aqueles
que sobrevivem a seus amigos (mesmo que distantes no tempo,
tratam-se de amigos conceituais), sentimos ao mesmo tempo
algo de culpa (por que nós ao invés deles?)
e um tanto de orgulho por conseguir fazer seguir em frente
nosso trabalho. Tamanha responsabilidade.
Olhando
para hoje com o olhar dos três jovens que decidiram
fundar uma revista de cinema pela internet numa época
em que a crítica de cinema (no sentido de discutir
e pôr em crise os filmes) com raríssimas
exceções inexistia, e em que a internet
ainda era considerada uma coisa para poucos bitolados, o alcance
que hoje atingimos é inacreditável. E tanto
mais inacreditável se torna à medida que observamos
as atribulações, as diferenças conceituais
e de projeto, as brigas e os eventuais rompimentos (infelizmente
eles também ocorrem), as incertezas, a chegada e a
partida de redatores, e tudo aquilo de que é feito
o cotidiano de uma revista.
Ao mesmo
tempo, criar e fazer crescer uma revista é algo entre
criar um filho e presidir uma pequena nação
(muito pequena mesmo). É preciso alimentar e vestir,
mas também mudar a face, nuançar certos aspectos
e enviesar por outros pouco recomendáveis. Enfim, os
ossos do ofício.
Mas fazer
uma revista de crítica não é simplesmente
juntar algumas pessoas que gostam de sentar-se placidamente
numa cadeira para avaliar o trabalho dos outros, como se diz,
colocando-se na posição de pedra diante do filme-vidro.
Principalmente no nosso caso tendo começado
sem orçamento (como ainda estamos, aliás), semi-analfabetos
em códigos operacionais de internet e sem qualquer
nome conhecido nas assinaturas, ou seja, sem qualquer capital
econômico ou cultural , fomos vidro muito antes,
e acima de tudo nosso próprio vidro: críticos,
tentamos manter para nosso próprio trabalho o mesmo
grau de rigor com o qual observamos e analisamos o trabalho
dos outros. E, como gostamos de aventuras, muitas vezes caminhamos
às cegas, sem saber o que vai funcionar ou não.
Se sim, são estas 50 edições (todas disponíveis
em nossos arquivos) que vão dizer, não nós.
Que diga você.
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A foto
da capa mostra o protagonista de O Vento nos Levará,
uma das obras-primas de Kiarostami, observando uma mulher,
figura fugidia que jamais deixa que seu olhar seja fixado
pelo herói do filme. Posição, pois, tanto
do cineasta quanto do crítico: há primeiro uma
tela através da qual observamos a realidade, a janela
do carro (e é impressionante como o carro, onipresente
nos filmes de Kiarostami, é também uma metáfora
da atividade cinematográfica); posteriormente, mesmo
que não houvesse janela, podemos extrair sempre alguma
coisa daquilo que observamos, mas o mais importante parece
sempre escapar. Na vida como na arte, instituímos desde
já que essa imperfeição, esse erro, é
uma claudicância constitutiva que fazemos questão
de mostrar a todos. Nossa prova de humanidade. E de que nunca
fingiremos esgotar o que não pode ser esgotado.
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Fazer
uma edição comemorativa era um desafio. Como
falar de nós e ao mesmo tempo falar daquilo que de
fato interessa (a nós e aos nossos leitores), o cinema?
A resposta natural foi essa: fazer uma radiografia de nós
mesmos através dos diretores que elegemos nessa cinqüentena
de edições como alguns dos principais nomes
do cinema contemporâneo que é preciso e necessário
assistir e comentar. E, como em toda pauta como essa, há
espaço para surgirem novos nomes na revista (Arnaud
Desplechin, Paulo Sacramento), correção de algumas
omissões (Jorge Sanjinés, Quentin Tarantino),
descobrir autores onde antes só víamos filme
por filme (Michael Mann, M. Night Shyamalan) ou revisitar
autores decisivos sobre os quais ainda não havíamos
escrito de forma ensaística, só cobrindo lançamento
atrás de lançamento (Abbas Kiarostami, Manoel
de Oliveira, Pedro Almodóvar). Da mesma forma, temos
na presente edição a volta de antigos colaboradores
(entre eles Bernardo Oliveira, fundador, que escreve sobre
o primeiro pilar sobre o qual Contracampo se constituiu como
revista de posição sobre o cinema brasileiro,
Rogério Sganzerla) e alguns que pela primeira vez escrevem,
como José Roberto Rocha. A festa é tanto dos
diretores quanto nossa, mas o mais importante é que
seja uma festa do leitor, que ele se reconheça nessa
data.
Obviamente,
não se tratou de uma lista exaustiva de todos os diretores
que consideramos importantes hoje. É antes uma lista
errante, pessoal, que omite tanto nomes sobre os quais já
falamos muito (Godard, Tsai, Hou, Coutinho, Reichenbach, Eastwood
ou Carpenter, por exemplo) e alguns outros dos quais poderíamos
falar mais (Rivette, Chabrol, Beto Brant, irmãos Coen
e Dardenne, Wes Anderson, Aki Kaurismäki ou Jia Zhangke,
Straub, Bellocchio). Não é erro. Como em todo
retrato, nunca é o rosto todo que é mostrado,
e muito menos todas as possibilidades de expressão.
E quisemos fazer um retrato, nada mais.
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Completa
a edição em DVD/VHS (que, desde nosso
número passado, entra no ar 10 dias depois da entrada
da edição) uma olhadela nos filmes italianos
que vêm sendo paulatinamente lançados em DVD
nacional e que já logo compõem um extenso e
interessantíssimo panorama do melhor cinema italiano
produzido entre os anos 40-70. No Plano Geral, além
da nossa inédita cobertura do Festival de Cannes por
nosso nobre Eduardo Valente, uma experiência digna de
nta em matéria de diálogo entre cineasta e crítico.
Fernando Meirelles (diretor de Cidade de Deus) leu
artigo de Contracampo, replicou, nós mandamos de volta,
ele treplicou. No fundo, ganharam todos, nós, ele,
o filme. E o resultado quem julga é você. Como
sempre. Boa leitura!
Ruy Gardnier
ça
fotos da edição: Fernando Duarte |