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O cinema ao redor da mesa
na
sala de estar


Leila
Diniz na seqüência de abertura de
Todas as Mulheres do Mundo de Domingos Oliveira
Domingos Oliveira freqüentemente afirma
que faz cinema com muita facilidade, de forma intuitiva e fluente ("Não
me passam pela cabeça problemas ou dúvidas do tipo onde
colocar a câmera", declararia a Alex Viany em 1983). Da mesma maneira,
assim também assistimos aos seus filmes: com naturalidade e, sobretudo,
com prazer.
No caso, não há como desvincular
o prazer do humor elemento primordial no trabalho de Domingos. Um humor
que decorre, em grande parte, do olhar generoso que ele lança sobre
os dramas sentimentais, amorosos, existenciais dos personagens que constrói.
Mas não só: nos dois trabalhos mais recentes, Amores
(1994) e Separações (2003), Domingos instaura uma
proximidade e uma cumplicidade com o espectador que são, de qualquer
forma, elementos raros no cinema brasileiro atual. O "cinema", ali, despe-se
da excessiva e, em alguns casos, desajeitada seriedade com a qual vem
sendo tratado e encarado pela maior parte dos que, hoje, realizam filmes
(me refiro, aqui, ao longa-metragem comercial, de ficção
e documentário).
Tenho a impressão de que para Domingos
Oliveira, uma câmera, uma mesa e três atores seriam suficientes
para que ele organizasse e oferecesse ao espectador, um filme.
A leitura de um texto, o diálogo entre esses três atores
e a participação afetiva de uma câmera documental
em redor da mesa bastariam para criar histórias, sensações,
filmes imaginários dentro do próprio filme.
Essencialmente ligado à fala, ao coloquialismo,
o cinema de Domingos Oliveira traduz de maneira particular um anseio muitas
vezes negado na teoria mas quase sempre atestado pela prática:
a comunicabilidade imediata com um público de classe média,
que é, hoje, justamente o público consumidor de cinema.
Nesse sentido, o tempo foi favorável a Domingos. Todas as Mulheres
do Mundo (1966) e Edu Coração de Ouro (1967)
já assumiam o diálogo com a classe média na própria
concepção estética e na elaboração
de uma visão de mundo, especialmente feliz no segundo filme. Mas,
naquele momento, num período em que o cinema novo buscava reagir
diante da falência de seu projeto ideológico, estes dois
filmes surgiam com vertentes diferenciadas.
Afirmando a sua liberdade a partir de suas
próprias contradições assumindo o compromisso de
não ter compromisso com nada - , o personagem de Edu Coração
de Ouro oferecia um contraponto no mínimo desconcertante ao
desespero do poeta Paulo Martins, de Terra em Transe (1967) ou
do atordoado jornalista Marcelo, de O Desafio (1965). Mesmo em
Copacabana Me Engana, de Antônio Carlos Fontoura (1968),
há um olhar muito crítico em relação ao personagem
de Marquinhos (Carlo Mossy) e à sua família. O individualismo
e a apenas aparente alienação de Edu encontram pouquíssimo
eco nos exemplares cinemanovistas, sendo mais próximos dos primeiros
ensaios de comédia "erótica" (do tipo Toda Donzela Tem
um Pai Que É Uma Fera - 1966, de Roberto Farias e Os Paqueras
1968, de Reginaldo Farias). Trata-se, contudo, de um outro enfoque
Domingos filma em função e de acordo com os
protagonistas vividos por Paulo José, nunca emparedando-os num
julgamento anterior. Simpatia é, portanto, a moeda corrente.
Por outro lado, tais diferenças em
relação ao cinema novo não acarretaram uma polêmica
tão violenta quanto a que cercou o cinema experimental, ou marginal,
para ficarmos nas já desgastadas terminologias clássicas.
A figura de Edu, vestido como cangaceiro para a festa que ele organiza
no final, nem de longe tem a carga de contestação e de sarcasmo
do cangaceiro grávido de Orgia, Ou o Homem Que Deu Cria,
de João Silvério Trevisan (1970). Mas já estão
ali a recusa de uma visão totalizante e missionária do país,
e a idéia do "cangaço" como imagem destituída do
potencial revolucionário, a mostrar que a força do cinema
é talvez proporcional à sua banalização: numa
seqüência de Todas as Mulheres do Mundo, o personagem
Paulo (Paulo José) é perguntado sobre qual personalidade
ele consideraria mais importante na atualidade, e ele responde, sem hesitar
- "James Bond".
Ao contrário de Todas as Mulheres
do Mundo, estabilizado como um clássico na obra de Domingos,
Edu Coração de Ouro, revisto hoje, ganha nova tonalidade.
A tomada de posição em relação ao discurso
cinemanovista é mais clara. A fragmentação de sua
estrutura, organizada em torno dos (des)encontros do personagem-título
com os demais personagens secundários, acentua a solidão
inerente a cada um deles, e, em especial, a do próprio Edu. A despeito
de todo o charme e leveza peculiares ao estilo de Domingos e da ambiência
em um Rio de Janeiro quase paradisíaco, Edu Coração
de Ouro é também - um filme triste.
Mas como Domingos Oliveira se inscreve no
cinema brasileiro atual? De que maneira o seu cinema pessoal, quase familiar,
representado por Amores e Separações, vem
se relacionando com a produção recente, de 1994 para cá?
É com certeza bem mais esclarecedor
pensar sobre tudo aquilo que o cinema de Domingos não é
do que buscar enquadrá-lo numa perspectiva específica, ainda
que aproximativa. Isso porque em sua obra não vamos encontrar a
maior parte dos recortes que têm sido desenvolvidos pelo chamado
"cinema da retomada". É evidente que tal fato, por si só,
já serviria para fundamentar a tese da diversidade da produção
atual. Mas a "diversidade", no caso, decorre da própria estrutura
de financiamento via renúncia fiscal que é a marca dos últimos
dez anos. O cinema brasileiro tornou-se um conjunto de filmes alternativos
que incorporaram em sua linguagem um diálogo com um mercado que
não existe de fato, já que o retorno de bilheteria não
conta como mecanismo de remuneração do produtor.
Amores e Separações,
de qualquer maneira, não se filiam a nenhuma das tendências
"oficiais" afinadas com diretrizes mercadológicas e institucionais,
que sempre foram repisadas pelo MinC durante a era FHC e que encontraram
reflexos em filmes como Guerra de Canudos (1997) e Mauá,
o Imperador e o Rei (1999), de Sérgio Rezende, Villa-Lobos,
Uma Vida de Paixão (2000), de Zelito Viana, O Guarani
(1996), de Norma Benguell, Hans Staden (1999), de Luiz Alberto
Pereira e Tiradentes (1999), de Oswaldo Caldeira.
Tampouco buscam o diagnóstico de um
país em desajuste com a sua própria história, ou
vivenciando o drama periférico em tempos de globalização,
como é o caso de Brava Gente Brasileira (2000), de Lúcia
Murat, Amélia (2000), de Ana Carolina e Policarpo Quaresma
Herói do Brasil (1998), de Paulo Thiago. Não há,
desenvolvido ali, o tema da "terra estrangeira". Em Separações,
a bem da verdade, há algumas seqüências que se pretendem
passadas em Paris. É clara a ironia dos recursos usados por Domingos
não só para falsear tais seqüências como para
tornar caricatural o uso recorrente de referências estrangeiras.
Por outro lado, o Brasil não se encontra
representado através de um discurso sobre a desigualdade ou sobre
a dualidade ou contaminação entre o urbano e o rural. Questões
como identidade nacional, cisões entre as classes, o drama da cidade
partida, o fosso socio-econômico que separa os projetos individuais
de sua real concretização passam ao longe do cinema de Domingos
Oliveira. O que sobra?
Deus está em toda parte: na favela
vendida por Fernando Meirelles, nas aristocráticas férias
de Cacá Diegues, na nova investida de Murillo Salles (Seja o
Que Deus Quiser). As câmeras continuam voltadas ao "outro",
filmando às vezes através da TV (Quando Nascem Os Anjos,
de M. Salles, Um Céu de Estrelas, de Tata Amaral, O Lado
Certo da Vida Errada, de Octávio Bezerra), denunciando de forma
crítica o próprio olhar cinematográfico (Baile
Perfumado, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira), "incorporando"
deliberadamente o olhar do outro (a seqüência final de Cidade
de Deus, de F. Meirelles e Kátia Lund, e O Invasor,
de Beto Brant) ou dele se apropriando (O Prisioneiro da Grade de Ferro,
de Paulo Sacramento).
O cinema brasileiro pós-Collor tem
sido, ainda, o todo-poderoso recriador do céu e da terra, muitas
vezes inocentando-se de todos os seus "pecados" por voltar-se ao "outro",
ao objeto de sua recriação. Mediado por uma câmera,
o cineasta ainda busca traduzir o país, por mais que a sua condição
messiânica tenha sido totalmente desfeita pelas telas de tevê.
No entanto, olhar para si próprio ou desnudar a sua própria
classe e seu aparato é algo que muito raramente vem sendo feito.
Walter Salles ainda não filmou (filmará?) banqueiros e aristocratas.
Coutinho só agora entrou em um prédio em Copacabana. Tata
Amaral arriscou-se a olhar através da janela. De resto, a classe
média é um caso de polícia, com bufos, bellinis,
gêmeas e avassaladoras, do qual escapam exceções como,
por exemplo, O Invasor, Edifício Master (Eduardo
Coutinho) e Alma Corsária (Carlos Reichenbach). E Domingos
Oliveira.
É numa estreita faixa do cinema brasileiro
atual que se encaixam Amores e Separações: um cinema
feito pela, para e sobre a classe média alta,
do qual também fazem parte filmes como, entre outros, Pequeno
Dicionário Amoroso e Amores Possíveis, de Sandra
Werneck, Como Ser Solteiro, de Rosane Svartman, A Partilha,
de Daniel Filho, ou seja, o "quase-gênero" comédia carioca
zona-sul. É um tipo de cinema que não busca a priori o conflito
no interior desta visão de mundo particular, diferentemente de
parte da produção paulista preocupada em refletir sobre
a classe média (em especial O Invasor e Crônicamente
Inviável, de Sérgio Bianchi, passando por Ugo Giorgetti
e Tata Amaral; no Rio Grande do Sul, vale lembrar Tolerância,
de Carlos Gerbase).
No caso de Amores e Separações,
tal direcionamento para um cinema leve e isento de um compromisso
de análise da sociedade é natural, não implica qualquer
esforço sobre-humano ou estratégia de marketing mais
agressiva. Em ambos os filmes, a preocupação não
é com o discurso-diagnóstico sobre o país. O país
está em torno e dentro de cada um. Os personagens
são recriações de seus próprios "autores"
(diretor e elenco), idealizações de si mesmos, teatralizações
de seus próprios dramas reelaborados.
O meio artístico, porém, é
constantemente enfocado, e aí há um diferencial. Em Amores
e Separações, Domingos apresenta-se como Vieira e Cabral,
respectivamente um escritor de TV e um diretor de teatro. Os conflitos
amorosos e cotidianos misturam-se à crise profissional e, desta
maneira, é o próprio cineasta Domingos Oliveira quem busca
refletir, por tabela, sobre o espaço restrito de sua atividade
artística: para sobreviver, precisa aceitar emprego na TV Globo
ou sujeitar-se aos órgãos públicos.
Em meio ao caos sentimental dos casais de
Amores e Separações, no qual despontam também
o conflito geracional (na figura das "filhas" dos personagens de Domingos)
e o problema da Aids (via Rafael, personagem de Amores), a burocracia
e a atividade artística, em sua total dependência de uma
estrutura maior (municipal, estadual ou federal) que as ampare, vivem
um igual embate de idéias, valores, ódio e amor. O intelectual,
o artista, ali vivido por Domingos Oliveira na pele de Cabral ou de Vieira,
é a exata recriação do próprio Domingos que
surge no documentário de Joaquim Pedro de Andrade, Cinema Novo
(1966): de paletó e gravata borboleta negociando empréstimos
no banco para finalizar seu filme.
Aliás, já que lembramos de
um exemplo pertencente à esfera documental, vale dizer que a obra
recente de Domingos talvez tenha um parentesco maior não com o
cinema de ficção que vem sendo realizado, mas com o documentário,
notadamente aqueles dirigidos por Eduardo Coutinho, que fazem do testemunho
dos personagens/depoentes e do ato de filmar/realizar, a tônica
do discurso com o espectador. Porém, os dois próximos projetos
anunciados por Domingos Oliveira na época do lançamento
de Separações o policial No Brilho da Gota de
Sangue e o drama A Primeira Valsa virão possivelmente
marcar uma ruptura não só do ponto de vista do texto (com
a substituição do humor pelo drama) como do tratamento estético
(com o uso do digital em preto-e-branco).
Em Amores e Separações
o espectador se vê convidado a fruir a narrativa cinematográfica,
mais elaborada no segundo filme que no primeiro, cujo bloco final resolve-se
de forma menos criativa, nos moldes do personagem que olha para a câmera
e conta sua vida. Mas, em ambos os casos, há também o sabor
de uma leitura de texto, de um pré-espetáculo teatral, de
uma concentração antes da saída do bloco (Banda
de Ipanema Folia de Albino, de Paulo Cezar Saraceni, tem também
parentesco com este tipo de proposta). Nos filmes recentes de Domingos,
representar é também desnudar e evidenciar o texto, não
através de qualquer recurso de estranhamento, mas pela proximidade
de uma câmera cúmplice, pela maestria de sua decupagem e
pelo diálogo direto com o espectador olho no olho, como no momento
final de Amores, quando Domingos/Vieira volta-se para a câmera
e recomenda: "não é pra entender; é pra decorar".
O cinema de Domingos Oliveira almeja um público
certo aquele que pode pagar um ingresso, que eventualmente sairá
para jantar depois. É um cinema econômico, mas jamais limitado,
adequação perfeita entre o baixo orçamento e a criatividade
estética - recusando inclusive o muitas vezes cansativo preciosismo
fotográfico. Contudo, apesar de todas estas qualidades, o cinema
de Domingos não deixa de ser, também, um dado preocupante,
explícito, de um problema maior: o fato de o cinema brasileiro
restringir-se hoje a um tão curto canal de comunicação
efetiva.
Sem salas populares e sem a televisão,
o cinema é um ornamento caro. Ou seja, a classe média alta
consome, sem problemas, e esporadicamente, a história do Brasil,
a favela, o sertão, a comédia de costumes ou o musical infantil.
Ninguém morre de bala perdida, se devidamente carregado nos braços
de uma steady-cam pelas ruelas de algum morro. Alguns cineastas
falam de amores, outros tantos de rancores, a televisão se encarrega
do "resto". A classe média alta tem, sem dúvida, seu cinema,
e ele corresponde com o olhar monopolizador da elite. Haverá alternativa
futura?
Luís Alberto Rocha Melo
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