Um chamado à ordem



Anthony Hopkins é Nixon (1999)

No início dos filmes de Oliver Stone, o caos toma conta do ambiente. Não importa se esse é o Vietnã (Platoon), o mercado de ações (Wall Street), um clube de futebol americano (Um Domingo Qualquer), uma estação de rádio (Talk Radio) ou todos os Estados Unidos (Nixon). Caberá ao cineasta mostrar o processo de restabelecimento da ordem, ao menos parcialmente, que quase sempre é ameaçada pela direita, seja pela elite ou pelo "joão ninguém", empenhada em impor seus interesses a todo custo. Oliver Stone é um defensor da lei, assim como ela é, não um questionador do sistema. Crê na legitimidade e eficiência do projeto democrático americano, mesmo quando, como mostra em Nixon, a lisura do processo eleitoral é questionada. Homens passam, ideais permanecem. Se a prática do mecanismo pode estar contaminada, é por obra de quem precisa ser expulso do jogo, pois o mecanismo está acima de qualquer suspeita. É sagrado. Quem o transgride deve receber o cartão vermelho.

O mesmo vale para o sistema financeiro, como está mostrado em Wall Street, que radiografa o mercado de ações. Stone não o questiona. Apenas defende o respeito a seus limites para manter os valores morais como mediadores da competição e da ganância. Não se coloca contra a filosofia da acumulação, do lucro sem produção, mas prega regras para não virar um vale-tudo. Não propõe reengenharia social, não discute o sentido de Justiça no capitalismo, não redefine nada, apenas um conserto aqui e ali. Quando o herói de caráter arranhado é preso ao final por trabalhar com informação privilegiada, mostra-se como os meios de vigilância da corrupção são eficientes e como esse personagem aprendeu a lição. Seu crime não é a ambição desmedida, querer ganhar mais que seus colegas. É viabilizar esse objetivo por atalhos.

O cinema de Stone funciona como um fiscal para certos ideais não serem corrompidos. Stone é um ombudsman da pátria. Acredita nos caminhos existentes para a própria sociedade corrigir os desvios dos caminhos traçados. Seu herói típico é o promotor de JFK, Jim Garrison, não por acaso interpretado por Kevin Costner, a imagem da dignidade inabalável desde Eliott Ness. Esse personagem é versão às avessas dos justiceiros, consagrados nos anos 70 e 80 por Clint Eastwood e Mel Gibson, que usam as armas para corrigir as falhas do sistema judiciário. Os benfeitor de Stone crê na Justiça, a oficial, e a age nas possibilidades e limites dela. Caso a driblasse, em nome de um bem coletivo, estaria se igualando, no princípio moral, àqueles que está combatendo. Garrison é o bem supremo. No início do filme, está vestido de branco, do colarinho aos pés. Casado com uma loira de ar assexuado, pai de quatro filhos, patrão de uma empregada doméstica negra e gorda, representa o típico americano íntegro. Com a obsessão de abrir os olhos da nação para a mentira sobre o assassinato de John Kennedy, de modo a manter a pátria comprometida com a verdade, o Quixote de New Orleans mergulha em uma jornada messiânica para levar consciência à América.

A morte do herói

Um outro cineasta contemporâneo, John Herzfeld, ao contrário de Stone, decreta a morte do herói. São os tipos fracassados e postos à margem (um cineasta à beira do suicídio e um matador de Segunda) que eliminam o vilão em Contrato de Risco. O diretor é simpático à gente simples, quase tacanha, e não perdoa os ricos e sofisticados. Não legitima a elite, seja do crime ou da sociedade legal, e só crê no anti-herói, aquele que, com suor do seu esforço, não é recompensado. Eles devem então arregaçar as mangas e virar a mesa, como sugere a cena final, na qual o diretor de cinema mata o bandido em nome do bem. Em 15 Minutos, o caos é mais amplo. Dois bandidos eslavos tentam recuperar uma grana enquanto matam quem atravessa o caminho e um deles filma tudo, e todos se integram ao culto mórbido-midiático da América. O cineasta amador do crime sabe que controlar a imagem é manipular a verdade. Sua principal arma é a câmera de vídeo, com a qual faz um permanente reality-show. No campo oposto, um policial, também ciente do poder da imagem, vive posando para TV. É um tira-estrela.

Não haveria nenhum americano vacinado contra essa praga da sociedade show? Apenas um jovem bombeiro, comprometido com seu ofício, pode resistir a tal estado de coisas. Ele tenta agir dentro das regras e de uma orientação ética. Não consegue. Em uma sociedade movida pela manipulação e pela representação da realidade, ele tem de desrespeitar os estatutos para encontrar a verdade e a Justiça. No entanto, lamenta.

Herzfeld filma a América como a Casa da Mãe Joana. Encara o país como a vanguarda de tudo o que há de podre na cultura ocidental. Não vê saídas. Seu olhar destila desprezo pelo que se tornou um projeto de nação que, apesar de garantir liberdades individuais e a grupos, pressupunha respeito a determinados contratos sociais e morais para não desaguar na barbárie. Seus anti-heróis ou heróis cabisbaixos não têm a sensação de ter resolvido alguma coisa quando vêem os espíritos de porco fora de cena. Pelo contrário. Eles termimam os filmes alquebrados, talvez conscientes que o problema é generalizado e não se limita a questões isoladas.

Cinema cafajeste

Em Oliver Stone, acontece o contrário. Quando não investe no herói quixotesco, como o promotor Jim Garrison, opta por boas almas degeneradas ou, ainda, por figuras de visão turva que, quando enxergam os equívocos, tentam se purificar no sacrifício (Platoon, Wall Street, Nascido em 4 de Julho). Pois sua noção de América, acima de tudo, é fundamentada na capacidade, auto-crítica, de corrigir os desvios. Ele tem consciência de que a nação está sempre em construção. O compromisso do cineasta é com a verdade. Seu alvo são as manipulações retóricas, como as de Nixon na obra homônima. Para denunciar as mentiras, porém, Stone torna-se manipulador. Seja pela narrativa emocional, pelas tramas investigativas confusas, pelo alienante dinamismo com que encadeia os planos ou pela conclusão de que, varrida a sujeira procurada nos labirintos econômicos-burocráticos-judiciários, os Estados Unidos voltam a orgulhar-se de si.

A manipulação stoniana é obra das características pelas quais pode ser elogiado como bom realizador: as proezas narrativas. Quando a câmera é movimentada, as imagens se sucedem velozmente e os tempos dramáticos oscilam aqui e ali, as informações ditas ou mostradas são diluídas pela agilidade e pela turbulência narrativa. Parecem estar ali para nos distrair, nos esconder e nos confundir, mas com um efeito estético sensacionalista, embora com o tom de quem está nos ensinando algo. Somos induzidos a viver uma terapia de choque formal, como se as imagens sacudissem nossos sentidos, mas não nos atemos às verdades supostamente reveladas. Ele busca o excesso de artifícios para parecer estar oferecendo muitos elementos. Mas aliena sob o discurso da conscientização. Joga areia em nossos olhos ao embalar um novelão didático-biográfico, como Nixon, em cacoetes modernos derivados do cinejornal inicial de Cidadão Kane, truque esse também praticado no thriller histórico JFK.

Em seus piores momentos, o diretor faz um cinema cafajeste dos mais competentes. Cafajeste sim porque simula verdades para nos convencer delas e de sua honestidade. Mas isso não seria o cinema? Em parte, sim. Mas nesse caso simula-se a História, não apenas histórias, como se fosse verdade objetiva. Oliver Stone, como um vendedor de um filme exibido para Nixon em Nixon, vende apenas a si mesmo. Mais nada. E o que é ele mesmo? O portador da verdade.

Verdades que matam


A melhor vizinhança da América, diz o cartaz.

Mas como se pode falar em uma única verdade em um país onde todos têm a sua própria e essas verdades individuais ambicionam ser a verdade de e para toda uma nação? Essa é uma das questões erguidas pelo filme menos conhecido do cineasta. Talk Radio é protagonizado por um radialista empenhado em incentivar seus ouvintes a usar o rádio como espaço político. Ele inicia seu programa e o filme falando sobre o apodrecimento da América e chama atenção para violência e para a ausência de integridade. Clama por ação corretiva urgente. Os ouvintes reagem com pontos de vistas variados. Emitem desde críticas à atuação americana ao Terceiro Mundo até palavras de ódio a judeus e homossexuais. Fica evidente logo nos primeiros minutos que, dependendo de quem fala, surge um ideal diferente de América, às vezes oposto um ao outro. Também vislumbra-se a falta de ideais quaisquer, expressa por dois jovens que, pela incapacidade de articulação verbal, parecem não ter fios a ligar um neurônio ao outro. A multiplicidade de vozes ecoada no filme revelam a tensão da convivência entre tantas posturas.

Vemos essa mesma divisão do país em cenas de JFK, momentos após o anúncio da morte de John Kennedy (herói nacional para uns, um canalha comunista para outros), e em trechos de Nascido em 4 de Julho e Nixon, que expõe uma nação rachada por conta de uma guerra, a do Vietnã. Em Um Domingo Qualquer, ao contrário, busca-se a união. O treinador do time de futebol americano em crise precisa resistir à mentalidade exclusivamente financeira da proprietária do clube e ao individualismo de seu astro-revelação para montar um espírito de valores coletivos. Busca unir esforços para conquistas em grupo. No entanto, esse grupo compete com outros, com outros times.

Voltemos então a Talk Radio, o filme, se não melhor, mais complexo de Stone. Temos ali um radialista a esvaziar as opiniões de seus ouvintes, quase a impedi-los de se expressar, mas no fundo estimulando-os a se dividir. Daí sua revolta quando ouve um negro elogiando os judeus. Ele o acusa de ser subserviente a seus opressores. Ninguém tem direito garantido nos Estados Unidos antes de mobilizar para merecê-los. A América é uma terra para conquistadores.

Meus vizinhos são um terror

Sendo aquele um país no qual grupos e individualidades devam competir entre si, vendo uns aos outros como inimigos, não como forças somadas em nome de um projeto comum, a figura do desconhecido é geralmente vista com desconfiança, seja ele um estrangeiro, um americano de outra raça e etnia ou apenas alguém de quem pouco se sabe, às vezes o vizinho ou até o marido. Há até um filão cinematográfico sobre essa paranóia com o "outro", alimentada por muitos suspenses considerados menores ou caça-níqueis, mas reveladores de como fobias individuais expressam medos coletivos. Tomemos como exemplo um título recente, O Novato, de Roger Donaldson, no qual candidatos a agentes da CIA, preparados para desconfiar de todos, encaram o mundo como um grande alvo. O perigo pode estar em qualquer lugar. Qualquer um pode tentar enganar. Uma variação dessa paranóia é O Quarto do Pânico, de David Fincher, em que uma mulher vai morar em uma casa-fortaleza. Ao sofrer uma tentativa de invasão, o bunker doméstico confirma sua necessidade de existência, embora o roteiro simule ser crítico com o culto à proteção.

Há ainda uma grande quantidade de histórias em que o inimigo não invade, mas é convidado a entrar na casa e na vida dos bons americanos. A lista vai de Dormindo com o Inimigo a Morando com o Perigo, passa por Mulher Solteira Procura e faz escala em Sob a Sombra do Mal e O Pentelho. Os enredos de todos eles são variações da mesma premissa: um ser do bem e outro do mal, o do bem sendo americano ideal, o do mal sendo o subvertor da ordem, seja esse um psicopata ou um tipo amoral. As ameaças não são apenas a um lar ou à uma vida, mas, em termos gerais, a toda uma noção de civilização nutrida pelo respeito às leis, à propriedade a à família. Nos desfechos, o fruto podre é punido, na maiorias vezes eliminado, restituindo, assim, a ordem quase perdida.

A ameaça de se barbarizar a civilização, porém, é consumida como entretenimento. Nada mais terapêutico que exorcizar um câncer, mas encarando-o como o câncer alheio, como ficção, como espetáculo ou como um show de mundo-cão feito para o americano x, não sobre ele exatamente. Talk Radio e 15 Minutos evidenciam esse sintoma americano, hoje multiplicado em escala mundial: o fascínio pelo mórbido, pela degradação, pelo sofrimento do outro e pelo constrangimento alheio, para afirmar a superioridade diante das enfermidades. No filme de John Herzfeld, quando um snuff-movie é exibido na TV de um restaurante, todos olham para a tela, estáticos, compenetrados, entretidos, mas ignoram a presença no local, tamanha a alienação da realidade quando transformada em espetáculo, dos criminosos que estão no terror transmitido. Em Talk Rádio, o registro é outro. O radialista faz seu circo dos horrores ao agredir verbalmente seus ouvintes para ser amado justamente por gerar tanto ódio. Stone parece denunciar essa cultura, mas também a reproduz, pois, ao promover um desfile de tipos com algum tipo de patologia, psicológica ou ideológica, aponta o dedo para as doenças como se estivesse acima delas. Não está. Seu viés crítico não o impede de também promover um circo de aberrações. Posa de médico quando também é paciente.

Psicanalizando a História

Em pelo menos dois filmes, Nascido em 4 de Julho e Nixon, a História é explicada por histórias pessoais. Nascido em 4 de Julho é sobretudo a saga físico-psicológica de um fuzileiro entregue à expiação de sua culpa por ter acreditado no lema de Kennedy ("Não pergunte o que o país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo país"), perdido as pernas por causa dessa crença e matado um amigo no front em um momento de confuso fogo cruzado. Sua salvação só é vislumbrada quando começa a abrir os olhos para o passo errado dado em nome de uma idéia patriótica: sacrificar-se pela América no Vietnã.

Em Nixon, temos o lado B. Stone mostra a intimidade de um dos mais malhados presidentes a ter ocupado a Casa Branca. Atacado por diversos atos ilícitos, entre os quais o caso Watergate, e por sua posição no Vietnã, onde queria jogar toneladas de bombas para se fazer respeitar, Nixon é mostrado como coitado. Sua representação o reduz a um homem carente, chucro, complexado, chorão e cruel, que usa o poder para, em última instância, exorcizar sua inferioridade. Seu maior pecado, imperdoável para Stone, e segundo ele, para todos os americanos, é mentir sem se desculpar. Sua maior virtude, a do Nixon de Nixon, é arrepender-se. Na cena mais constrangedora, ele se ajoelha com Kissinger, seu braço direito, e reza pedindo perdão. Chora. Sente-se uma vítima da sociedade por não ter sido compreendido. Nixon crê ter errado pelo bem do país. Acredita ter mentido, simulado e manipulado pela mesma razão. Talvez não seja exagero constatar que, embora Platoon seja semi-autobiográfico, Nixon é o filme mais pessoal de Stone. Nunca ele se reconheceu tanto em um personagem.

Cléber Eduardo