Entrevista com Ninetto Davoli


Ninetto Davoli, Franco Citti e Pier Paolo Pasolini

Esta entrevista foi realizada em Roma, em agosto de 1985, dez anos após a morte de Pier Paolo Pasolini. Entramos em contato com Ninetto através de um amigo em comum. Depois de relutar muito, ele acabou permitindo que o acompanhássemos em seu carro até um campo de futebol na periferia de Roma, local onde costumariamente ele, Pasolini e outros artistas se encontravam para disputar partidas com finalidade beneficiente. Ainda profundamente abatido pela lembrança e perda do grande amigo, Ninetto revelou que o poeta anteviu a própria morte no jantar que tiveram juntos na mesma noite do crime. A entrevista foi realizada em dois tempos, antes e depois do jogo nas proximidades da Via Magliana.

Francisco Magaldi e Marco Romiti/São Paulo, 2003

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Como foi seu primeiro encontro com Pasolini?

O encontro com Pier Paolo... Olha, você deve ser a milésima pessoa a me perguntar isso... Eu tenho um irmão que trabalhava no cinema como marceneiro. Naquela época, em 63, ele estava fazendo o filme A Ricota (episódio dirigido por Pasolini em RoGoPaG, 1962), com Pier Paolo, não sei se vocês se lembram? Um dia eu não fui trabalhar e resolvi ir até o set de filmagem.

E o que voce fazia naquela época?

Eu também era marceneiro, lustrador de móveis. Só que meu irmão trabalhava com cinema e eu na marcenaria. Eu não conhecia Pasolini, nunca tinha ouvido falar dele, foi meu irmão que nos apresentou. Lembro-me que ele passou a mão na minha cabeça, carinhosamente. Desde então nos vimos continuamente ate o dia de sua morte.

Quantos anos você tinha?

Eu agora tenho 37. Naquela época tinha 15, 16 anos. Era moleque e não tinha o menor interesse de trabalhar em cinema, mesmo conhecendo Pasolini! Imagina, que eu sequer sabia que existiam os escritores, os livros, não tinha idéia como eram feitos.

Depois desse encontro, você passou a trabalhar com ele?

Não. Aquele foi um encontro casual, sem nenhum interesse. Foi só depois de seis meses (não me lembro direito) que Pier Paolo me propôs um papel num filme. Fiquei surpreso: "Você acha que alguém vai ao cinema para ver uma cara como a minha?" E ele me disse: "Mas Ninetto, é uma coisa bonita; e depois você se diverte!" Era um filme que eu trabalharia junto a Totó. Eu não podia acreditar na idéia de trabalhar com uma celebridade como Totó... Desde menino eu o imaginava como um desses personagens que só existiam na tela do cinema. Eu perguntei ao Pier Paolo: "Mas Totó é real?" E ele: “Claro!”.
E é bom que vocês se conheçam, já que vão trabalhar juntos. Foi assim que Pasolini marcou um encontro pra gente se conhecer, pra fazer amizade... Naquela noite fomos jantar na casa de Totó. Chegamos na entrada e ali estava escrito, Príncipe de Curtis, um titulo que ele dizia ter. Eu estava emocionado. Pasolini tocou a campainha, a porta se abriu e apareceu Totó de roupão.
Naquele momento comecei a rir como um louco e Pasolini me cutucava: "Ninetto fica quieto, por favor!" Mas Totó foi gentil: "Ah Pier Paolo, deixa ele; é um moleque!”.
Depois do jantar sentamos juntos na sala para conversar sobre o filme. Um mês depois, antes do inicio das filmagens, encontrei a Sra. Faldini (que era a mulher de Totó) e ela me disse que naquela noite, depois que tínhamos ido embora, Totó detetizou o sofá onde estivemos sentados, sabe, aquele inseticida para matar piolhos?! Ssst...

Como era a relação de Pasolini com os atores, antes e depois das filmagens?

A relação, por ele exemplo, que ele tinha com Totó, era de muita estima. Por sua vez, Totó tinha muita estima e timidez frente a Pasolini. Para deixa-lo mais livre, mais solto, Pasolini lhe dizia: "Olha Totó, esta é a cena, faca-a como quiser". Pier Paolo deixava-o à vontade, mas mesmo assim Totó se inibia frente à personalidade de Pasolini e não fazia as gags que estava acostumado a fazer. Bom, e depois quando você vê hoje Gaviões e Passarinhos (Uccellacci et uccellini, 1966), percebe que Totó trabalhou esplendidamente. Foi considerado o seu melhor trabalho exatamente por isso: porque Totó se limitou, não era uma marionete e sim uma pessoa.
A relação que existia entre mim e Pier Paolo, ate o dia de sua morte, ate o ultimo filme que fizemos juntos, era uma relação amigável, não era uma relação qualquer entre um ator e um diretor. Nos discutíamos, pensávamos juntos o roteiro, íamos juntos procurar as locações e os personagens...

Como era feita a escolha dos personagens?

Pelas ruas! Quando fizemos O Decamerão (Il Decameron, 1970 ), fomos a Nápoles a procura da gente que lhe servia. Nos caminhávamos pela cidade e quando ele via alguém que mais o menos lhe interessava então era eu que ia falar com esta pessoa. Ele ficava de longe observando os gestos; caso Pier Paolo gostasse da pessoa, muito bem, nos explicávamos tudo.

Em "O Decamerão" se encontra uma grande diversidade de rostos humanos.

Você não imagina o quanto andamos por Nápoles, reviramos a cidade de ponta-cabeça. Todos os bairros. Isso levou uns vinte dias de trabalho, não encontramos todos os personagens do filme ao mesmo tempo. Depois de um dia de trabalho, nos íamos para o hotel, tomávamos uma ducha e saiamos novamente pelas ruas.

Pasolini, quando filmava, repetia muitas vezes a mesma cena?

Não, não! Pelo contrario, Pier Paolo não fazia como a maioria dos diretores que ensaiam, ensaiam e depois filmam. Ele usava personagens verdadeiros. Aquilo que fazia era bom desde o inicio, quer dizer, ou era bom inicialmente ou não era bom; a ele interessava a espontaneidade, captar o primeiro impulso. Na verdade quase sempre as primeiras tomadas eram as boas.

Realmente se sente esta grande liberdade nos atores!

Os atores com Pasolini se sentiam muito bem. Não tinham dificuldades. Com as pessoas simples, que não eram profissionais, ele se relacionava de igual para igual, procurava vê-las como realmente eram.

Qual era a sua relação com o enquadramento, com a fotografia, enfim, com a imagem?

Inicialmente trabalhava com o cameram. Depois, já nos últimos.
filmes, de Édipo Rei (Edipo re, 1967) ao último, Tonino Degli Colli colocava a luz; e ele enquadrava e operava a câmera.

Durante o período em que vocês trabalharam juntos, você sentia uma evolução no seu trabalho, na sua maneira de atual?

Claro! Eu, quando fiz Gaviões e Passarinhos, tinha o meu próprio modo de atuar, mas tinha medo da câmera. Tinha medo de Totó. Isso nos primeiros dias. Depois de um mês, disse a mim mesmo: "Dane-se a câmera e toda esta gente". Então passei a trabalhar tranqüilo. Compreendi como era a mecanismo do cinema. Hoje sinto que me aperfeiçoei nos movimentos, na técnica. Não sei se pra melhor ou se pra pior. Digo isso porque algumas vezes, nos seus últimos filmes, certas cenas que pareciam naturais, não satisfaziam Pier Paolo. Dizia, Isso e coisa de cinema, de ator, faz como você fazia uns tempos atrás.

Em muitas de suas ultimas entrevistas Pasolini transmitia certo pessimismo...

Ele era pessimista porque a Itália estava mudando. Roma particularmente (ele vivia em Roma). As pessoas não eram como antes. Não se encontravam mais os jovens como aqueles de Desajuste Social (Accattone, 1961), ou de Mamma Roma (Idem, 1961). Quando Pasolini dizia que o mundo estava mudando, era verdade. Anteriormente, quando você encontrava alguém pelas ruas, uma moca ou um rapaz, se trocava um comprimento ou um olhar afetuoso. Hoje, se você sorri para uma pessoa que passa, ela te olha na cara e diz: "O que você quer? Achou graça do que?" É feio, é malicioso. Não é mais ingênuo. Falta sensibilidade. No ultimo dia que nos vimos, na noite em que aconteceu o crime, eu, Pier Paolo, minha mulher e as crianças jantamos juntos. Lembro que, num determinado momento, ele me disse: "Eu tenho encontrado pessoas tão rudes que não tenho coragem de olha-las na cara!”.

Qual a sua opinião sobre o assassinato de Pier Paolo Pasolini?

Para mim, quiseram mata-lo, quiseram elimina-lo. Ele era uma pessoa incomoda. Esse cara, Pelosi, foi usado como uma isca. Pier Paolo era fisicamente forte, não poderia ser morto por um rapazinho; ele era muito inteligente para deixar-se enganar. Aquilo que acontece hoje, ele já tinha escrito vinte anos atrás.

Como foi recebido o seu ultimo filme?

As pessoas ficaram escandalizadas. Mas ficaram escandalizadas também com O Decamerão, As mil e uma noites (Il Fiore delle mille e una notte, 1970) e outros.
Por isso, para mim, era normal que as pessoas se escandalizassem. Pier Paolo tinha me dito: "Agora faço um filme novo para vocês". E fizemos Saló ou os 120 dias de sodoma (Salò o le 120 giornate di Sodoma, 1975)!

Depois de dez anos de sua morte, qual e a primeira coisa que te vem em mente quando se fala de Pasolini?

Que eu me devo considerar uma pessoa de sorte por ter conhecido Pier Paolo. Basta!

Entrevista realizada por Francisco Magaldi e Marcos Romiti