Cultura desmistificada



A burguesia é a única classe revolucionária e eternamente moderna. Nega-se a tornar-se Pós para não perder os fluxos e movimentos de controle da cultura. E com o conceito de indústria cultural desenvolvido por Adorno é impossível a mínima referência à cultura fora da história e suas implicações políticas, econômicas e sociais. A conexão com o poder é fundamental para qualquer distenção com relação a essa Pasta ou Ministério relegado e desmistificado pelo próprio poder. É alarmante, vexatório e preocupante o que estamos assistindo em nosso País, nesse momento raro de possibilidades e esperança, quando a cultura deveria estas sendo pensada como a comida para um corpo indivisível em suas necessidades e potencialidades. O alimento para a barriga é necessidade imediata, mas sem a educação e a cultura, o alimento nao se mantém, perdendo-se pelos ralos e esgotos depois de digerido. E a nossa cultura não pode perder a mesma chance que esperamos para as demais áreas de sobrevivência do País. Principalmente sabendo que a nossa cultura é de origem pré-burguesa e de fundamento colonial, diferente de outras, a Européia. ou a Americana. O que estamos assistindo precisa ser questionado com seriedade numa análise coerente e histórica com a vida do Pais, com a saída de um governo que continua deixando marcas indeléveis e insustentáveis contra a democracia e a própria imagem do governo que assume porque a sua futura sustentação participa delas: a Lei da Mordaça, espécie de Ato Institucional, contra a liberdade e a fiscalização da coisa pública; o terror do Foro Especial, legitimando o peculato, a improbidade administrativa e a cultura da corrupção. E o mais escandaloso, é que trata-se de uma.proteçao, um privilégio inaceitável para o eleitor, justamente por aquele que deveria proteger e honrar o direito de represeutação. Essa é a nossa cultura renegada, desmoralizada, desmistificada. Pelos políticos, por aqueles que fizemos chegar ao poder com o nosso voto e com a nossa esperança.

Gostaríamos, nesse limiar de novo governo, começar a estabelecer diferenças entre o passado e o presente, sem antecipar o futuro, porque muita água ainda vai correr sob a ponte, mas que não seja o mesmo rio. A própria cultura Americana foi profundamente alterada depois do 11 de setembro de 2001, desastroso para todos nós. Ninguém tem escapado à sanha Americana contra o eixo do mal, em busca de terroristas, riqueza e poder. Essa tem sido a cultura Americana. Criando faltas para a criação de desejos, educando o seu povo na aflição da angústia de desejar, dando credibilidade ao que não tem jeito. Essa é uma cultura consciente e manipulada. O que estao fazeado conosco, agora. Matando na fonte as possibilidades de uma nova cultura. O País finge negar aquilo que é a sua própria origem. A sua falta de sustentação cultural para mudanças, para confrontos e decisões. Vencem sempre os "acordos’ contra os interesses da Nação. E a base de sustentação de um povo são processos com subjetividades, crenças, esperança, sustentada pela cuitura. E que o poder, a burguesia, a indústria cultural, transformam em projetos através da educação, atingindo diretamente as escolas e as Universidades, como treinamentos e reciclagem para seus interesses de mercado. Gente/objeto, com valor de troca. Gente trocada por coisa.

E a cultura vai sendo tratada como filho bastardo. Abandonada e esquecida por pais irresponsáveis. Isso ocorre porque toda cultura, para ser cultura, tem que ser filho independente, rebelde, com saber. E sempre fiel, na defesa de sua origem, a mais ampla, subjetiva, sem hierarquias. Incorruptível.

E tudo isso pra quê? Para ser fiel e corajosa na defesa de sua gênese, incapaz de negar a sua paternidade, acompanhando o ritmo do outro e buscando uma melhor sintonia com ele. Fazendo tudo diferente do que fazem com ela, agora. Nessa época de políticos vendidos pelo marketing como garotos de programa, ela, a cultura, não poderia ser mesmo lembrada, protegida, defendida. Mesmo prostituída, será sempre respeitosa. Porque, no fundo, alguma coisa há de ficar. Um sentimento, uma utopia, um símbolo, um signo a serem entendidos e lidos como coisa mais bela, além desse momento de negatividade.

Para os políticos, o mercado é um espaço muito pequeno para a cultura. Mercado cujos gostos já estão formatados e consagrados pelos Ibopes da vida. E que são tantos! referem ficar com o que sobeja: o imediatismo, o oportunismo, o corporativismo, mais as facilidades que os cargos sempre oferecem com melhores vantagens para barganhas, contrapropostas e outras contrapartidas que a nossa cultura tem legitimado. A verdadeira cultura possui tetas resseqüidas, vivendo abaixo da linha de pobreza. Diferente de outros irmãos consangüíneos. Abastados em previsões orçamentárias e mais complacentes e atenciosos às grades curriculares dos senhores políticos.

E cultura é coisa tão séria que a ideologia não abre mão dela. Bush já transformou Lula, para o mundo, em seu semelhante Republicano; a roupa nlovado rei e com a qual nossa cultura se identifica, há séculos.

Sindoval Aguiar e Luiz Rosemberg Filho, cineastas