| Sobre
Caso Norte e Wilsinho da Galiléia

(Discordando das críticas feitas aos episódios de Globo
Repórter Caso Norte e Wilsinho da Galiléia na cobertura
do É tudo Verdade 2002, João Batista de Andrade nos procurou
para expor suas idéias sobre seus filmes e suas impressões
sobre as críticas publicadas à época . Seguem abaixo
o e-mail do diretor e as considerações de Felipe Bragança
sobre os filmes e as críticas antes escritas):
Caro Felipe
Bom que estamos conversando. É preciso exercitar um mínimo
de tranquilidade, coisa difícil, quando falo de meus trabalhos.
Acho ótimo que esse diálogo venha a público. E por
que não como estamos fazendo agora?
Não conheço a origem da Contracampo mas estou certo
que é democrática e justa. E acho que seus usuários
merecem receber comentários ou até mesmo a contestação
de textos ali veiculados.
Mas quero falar primeiro sobre O CASO NORTE.
Para quem não sabe é um filme de aproximadamente 45 minutos
feito para o Globo Repórter em 1977 (tempo em que esse programa
era feito por cineastas) e que mereceu elogios generalizados (jornais,
revistas, cineastas, etc) na época, por seu caráter inovador
e pela carga de emoção ao retratar a vida de migrantes em
São Paulo.
Absolutamente não posso concordar com sua tese forçada,
costurada por um julgamento moral do realizador, uma pseudo politização
de uma presumida pena do realizador com relação ao seu personagem,
o nordestino que na condição de guarda armado atira, fere
e mata conterrâneos seus numa briga de bar. Chamar o filme de equívoco
é um absurdo.
É prezar mais sua capacidade de expor teses do que a verdade. Pois
na verdade a carga de "piedade" não existe no filme.
O que existe é a até mesmo exposição cruel
do estado de destruição do personagem depois que ele, assumindo
a identidade oferecida a ele, a farda, a condição de "autoridade",
comete o assassinato e é preso, marcado para sempre.
Acho um absurdo a facilidade com que você destrói um trabalho
inovador e de sucesso com esse tipo de julgamento moral, ainda por cima
fora da realidade do filme. Um filme que foi depois usado, copiado reconhecidamente
como um sopro de renovação. E alinhar o filme a programas
policialescos da TV de hoje, é mais revoltante. É uma inversão,
pois primeiro fiz eu, a meu modo, buscando gente onde só se mostram
bandidos e facínoras.
A reconstituição é um recurso universal, você
usa para o que bem entender, para o bem ou para o mal. No meu caso, serviu
para estudar o caso, para descobrir e expor os personagens do episódio,
descobrir sua humanidade, sua condição humana.
Meu propósito, como de toda minha carreira, é sempre de
expor, descobrindo, que por trás de um fato policialesco existe
a questão social. É preciso ver meus outros filmes, "Migrantes",
"Wilsinho Galiléia", "A Escola de 40 Mil Ruas"
, "A Próxima Vítima", "O Homem que virou
suco" e as dezenas de pequenos filmes que fiz para TV, principalmente
TV Cultura entre 1972 e 1974, época terrível da ditadura
militar, filmes que contestavam a visão policialesca da imprensa
perante os problemas dos migrantes e dos menores de rua.
Sobre o Wilsinho Galiléia. Felipe, você me diz que admira
o filme. Por que todo crítico, quando fala bem, tem que mostrar
que está acima do autor e do filme, tem que ser cruel no final,
mostrando que tem poder e que pode até falar bem mas que ele, crítico,
é muito melhor? Pois você num parágrafo confuso, ao
final da crítica, detona o filme e a mim. A troco de que?
Por que encenei a morte do personagem? Por que revelei o medo das pessoas,
vizinhas, de falar sobre o assunto? Seria um absurdo. Por que mostrei
o personagem caminhando, depois da cena de morte, como um mito pela periferia,
revólver na cintura e observado pelos meninos? Pois ali estava
o apontamento de um problema sério: a atração que
aquele tipo de revolta exercia sobre a juventude quase miserável
dos bairros. Era isso, é isso o que está lá no filme.
Por que passar, de repente, a me julgar na crítica ao filme? E
nós estávamos em 1978, muito antes dessa explosão
de violência que aconteceu depois. E naquele momento eu exercia
meu papel de documentarista perguntando por que? E revelando a gravidade
do assunto, passando minha visão. Por isso o filme foi proibido
pela ditadura, Felipe.
Da mesma forma que destruiram a casa do Wilsinho pensando que apagar os
vestígios, destruir a memória, censurar um filme, eliminar
as críticas resolviam os problemas. Não foi o que aconteceu
e por isso meu filme aí está, vivo e elogiado, 24 anos depois
de sua proibição.
Espero que minhas observações ajudem a manter um diálogo
crítico e democrático na Contracampo.
Um abraço,
muito obrigado
João Batista de Andrade
Resposta
Caro João Batista,
Antes de tudo, gostaria de esclarecer em parte a natureza de minha escrita
– não a compreendo sobre esse viés em que você
me insinua: “pairando” sobre os filmes e os realizadores.
Nem melhor nem pior - escrevo uma terceira coisa, uma articulação
de conceitos verbais e observações que trazem, entre outras
coisas, a possibilidade deste tipo de diálogo com um realizador.
É impossível se pensar que a crítica seja justa apenas
quando se reserva a um lugar de descrição fria e analítica
de fenômenos audiovisuais; deixando de lado um posicionamento estético-político.
“Sucesso de público” não é escudo contra
o pensamento crítico a cerca de um filme; no máximo pode
servir para reafirmar a capacidade do filme de bem “vender”
suas idéias (um mérito, sem dúvida). O que você
chama de “moralismo” é a tentativa de uma criação
crítica de real intervenção sobre os modos de olhar
e de criar imagens. Nem acima nem abaixo – o lugar da crítica
é este aqui. E saiba que fico realmente satisfeito por poder conversar
com você – experiência que enriquece (mesmo para que
para reafirmar nossas mesmas convicções!), essa é
uma bela oportunidade de entrarmos nas minúcias dos textos e dos
filmes.
Sobre as duas
críticas publicadas à época do É tudo Verdade
2002:
A palavra central
que parece ter lhe exaltado os ânimos na leitura de meus artigos
foi “equívoco”; usada em relação ao episódio
O Caso
Norte. Contra ela, você lista uma série de inovações
de linguagem que estariam presentes no filme, e defende a representatividade
da obra numa época em que o discurso oficial da ditadura brasileira
induzia a uma cobertura meramente policialesca dos eventos.
Excepcional é o trabalho de investigação de linguagem
presente em O Caso Norte, sem dúvida. Mas isso não
esconde seu grande defeito: uma narrativa que não consegue deixar
de cair no outro extremo do olhar policialesco, a tipificação
sociologizante. “Uma pequena história de imigrantes em São
Paulo”, diz a legenda inicial.
O filme opta não por contar a história de vida de Joaquim
José, mas por insinuar um retrato generalizado de uma condição
trágica supostamente comum ao imigrante nordestino. Daí
o equívoco (“tropeção”, se melhor lhe
parecer) que enfraquece o filme: a premissa da investigação
dos traços humanos, se transmuta numa analítica social indutiva.
A imagem da reconstituição ganha o status de fetiche pela
presentificação unívoca dos fatos (que resultou,
queira-se ou não, na linhagem de programas Aqui Agora
e Linha Direta), não trabalhando o campo mítico
da própria representação cinematográfica,
presente em Wilsinho.
Não desvalorizo a premissa da investigação dos acontecimentos
por trás das histórias policialescas (uma atitude pioneira
à época), mas o modo como essa premissa se presentifica
no filme. Um discurso que vai minando as capacidades ativas de José
Joaquim, e transformando-o numa espécie de "marionete do sistema".
Esse me parece ser o problema central: ao tentar esboçar um problema
humano, acaba resumindo tudo a uma dinâmica sociológica direta,
enfraquecendo o personagem em sua identidade e desejos. Onde São
Paulo se torna “só uma ilusão”, e Joaquim mata
o outro homem quando “perde a consciência”.
A piedade surge nessa infantilização da figura do protagonista,
em que ele parece agir como um autômata – um determinismo
que me incomoda. Não se trata aqui de uma defesa do livre-arbítrio,
da responsabilidade única do sujeito; mas critico a transformação
de Joaquim José em vítima (assim como não seria um
algoz...). A reconstituição em Caso Norte (o “retrato”
do cotidiano de Joaquim) induz o espectador a um olhar de fragilização,
em que se descrevem as “verdadeiras origens” da tragédia
(a imigração, a pobreza, a ignorância...). O filme
tira de Joaquim a vida de seus gestos.
Só se propondo a ouvir sua voz ao final da projeção,
Caso Norte usa a imagem da timidez de Joaquim diante da câmera
(e o medo de seus olhos cabisbaixos), como forma de reiterar uma tese
já posta: a do homem do campo perdido, engolido pela crueldade
da vida na cidade (virado suco?...). Não se percebe que é
nesse sufocamento final da imagem (no próprio filme), que Joaquim
José é condenado pela última e derradeira vez. É
na imagem que a vida dele mais se esmaece diante do espectador, é
ali que a porta se fecha em seu rosto da forma mais pesada; um rosto apenas,
numa multidão de iguais, da qual ele serviu de exemplo e denúncia.
* * *
Sobre Wilsinho
Galiléia, João Batista, as questões são
outras. Inclusive porque esse segundo episódio de Globo Repórter
dá uma guinada marcante em relação a seu antecessor
– utilizando-se das mesmas técnicas de reconstituição,
sua invenção vai muito além.
A meu ver, isso se dá pelo entrelaçamento de diversas dimensões
na figura de Wilson, onde as características factuais da narrativa
se misturam a traços da psicologia da personagem e ao mistério
de sua temporalidade marginal. Criando uma imagem onde o protagonista
não se redunda (nem em palavras). A dimensão-imagem (representação)
é vivida e incluída no discurso das re-constituições
das figuras e eventos. Não que se trate de um filme-farsa (simulação)
– pelo contrário: há uma verdade habilidosamente narrada,
mas narrada com a suavidade de quem assume seu lugar de investigador,
de biógrafo fragmentado. Gesto de observação de um
ícone fluido.
O que me parece mais interessante em Wilsinho é justamente
como o filme reverte um olhar de reconstituição (presente
em Caso Norte) através de um habilidoso trabalho de entrecruzamento
da dinâmica institucional (a forma como Estado e polícia
lidam com o menino Wilson) e os desejos e afetos de Wilson (sua vontade
de parecer um jovem rico, seu orgulho pelos crimes praticados, seus amigos,
sua namorada). Em Wilsinho me parece haver uma tridimensionalidade
da personagem, nem boa nem má – um corpo observado, do qual
se fala, insinuado sobre o universo da periferia; mas nunca tipificado.
É certo que numa das últimas imagens, o filme ameaça
um certo didatismo conclusivo que empobreceria sua experiência:
uma intercalação direta da imagem de Wilson com a dos meninos
de sua vizinhança (desejo de reduzir as diversas camadas da experiência
do filme a uma mensagem unívoca de retrato social – presente
em outros de seus filmes). Felizmente, num último movimento, Wilsinho
consegue ser mais do que isso: a imagem do mito caminhando sobre seu bairro
destruído (“apagado” pelo poder do Estado) é
belíssima; e esboça uma questão muito maior, que
não cessa ao fim da projeção.
Em Wilsinho, os dilemas sociais estão todos colocados
com a mesma força e pioneirismo de Caso Norte, mas além
disso, o filme consegue dar vida, energia própria ao personagem
central, que age através de sua própria força de
revolta e vontade de viver. A reconstituição ali aparece
não como um "foi assim que aconteceu", mas como forma
de esboçar indícios de afetividades e gestos complexos daquele
anti-herói, simplificado pelo olhar das instituições
de opressão estatal.
Essa é a diferenciação que faço entre os dois
filmes: em Caso Norte há uma marionete, em Wilsinho,
um sujeito despedaçado e incontrolável que não se
harmoniza com as opressões e prisões das instituições
que o tentam domar e esconder. Quando falo em “equívoco”
é justamente por considerar que ambos os filmes tem premissas e
ferramentas de linguagem muito parecidas, mas Caso Norte se desvia
de uma estrutura inovadora para uma simplificação da vida.
Em Wilsinho, a dúvida que surge em torno da figura do
“marginal eliminado” traz a riqueza de uma sociedade em descompasso,
mas não determinista. E essa é uma beleza rara em um filme
de investigação policial. Até a próxima!
abraço
sincero,
Felipe Bragança
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