Um breve apêndice


Estas reflexões que desenvolverei aqui, antes de seu apelo intelectual, surgiram em meio as minhas vísceras. Muitos são os motivos que fazem alguém refletir sobre os filmes, ou sobre qualquer tema que gravite ao redor de um projetor em pleno exercício de suas capacidades óticas. Geralmente, os motivos são os melhores possíveis, os mais edificantes. Os meus motivos, entretanto, nasceram de uma dor aguda no lado esquerdo da barriga. Uma dor que, a princípio, enquanto descia um elevador da remota Cidade Sorriso, subia pelas minhas trompas. Podiam ser gases. E estava no pior lugar para reflexões dessa natureza. Para sorte dos que me acompanhavam no elevador - e para meu azar - a dor continuou sem escapatória possível duas horas mais tarde, quando já me encontrava em Maricá. Não eram gases. Juliana apoiou minha cabeça num travesseiro enquanto dona Célia preparava-me um chá verde. Mesmo tendo minhas tripas mordidas como se fossem chouriços, ainda assim encontrei lucidez para estabelecer estranhas analogias e criar metáforas, afinal, o cinema para mim nunca foi uma vocação, mas uma obsessão inexplicável.

Enquanto esperava o chá verde que amenizaria aquela dor insuportável, pensei no cinema como um apêndice. O cinema brasileiro vem se transformado cada vez mais num apêndice da televisão e da publicidade. Não caminha com as próprias pernas; não se sustenta com tripés adquiridos no trabalho próprio: tudo está, com cada vez mais freqüência, sendo emprestado das emissoras de televisão, preenchido pelo estofo publicitário. Esta relação aparentemente harmônica do cinema com seus “ primos ricos” , entretanto, poderá gerar sérios incômodos no futuro próximo. É que nela tem-se o lado mais fraco que, dependendo do ponto de vista e da conveniência do momento, pode se tornar um pesado sobressalente. Enquanto o cinema existir como uma ponta morta de um órgão vital, algo inútil, mas, por ser invisível, suportável, ele sobreviverá.  Mas o que se sabe sobre apêndices é que, quando inflamados causam dor e, como atestam os médicos, o melhor a se fazer nestes casos é uma rápida intervenção cirúrgica para extirpá-los.

A exemplo do que ocorreu com Moraes Moreira. E que acontecerá comigo, se esta dor que sinto agora for mesmo uma apendicite aguda. Se tiver que arrancá-lo fora para acabar com essa dor, não pensarei duas vezes. Afinal de contas, o homem pode muito bem viver sem o apêndice, assim como a televisão e a publicidade podem viver sem o cinema. O apêndice é um desses resquícios pré-históricos, uma lembrança da época em que o homem americano tinha rabo e se pendurava nas jaqueiras para escapar, no interior de um jurássico Piauí, de um Dente-de-Sabre faminto. Hoje em dia, só serve para inflamar. Não quero com isso dizer que o cinema é uma arte ultrapassada, nem inflamada. Talvez a dor esteja me fazendo expressar de maneira confusa. O que quero dizer é que, se o cinema tornar-se dependente ao extremo da televisão e da publicidade, pode acabar como sempre acabou durante os seus muitos ciclos de fracassos: sendo deturpado cruelmente no imaginário do povo brasileiro antes de mergulhar em mais uma de suas inúmeras crises.

Por isso, antes que seja tarde, o cinema deve cultivar sua independência e grandeza própria. Acho muito interessante que a televisão esteja produzindo filmes, mas me preocupa o fato desta forma de produção estar se tornando regra. O que presencio é um inconseqüente projeto de anexação do cinema à televisão e à publicidade, com claros contornos despóticos. Independente da qualidade dos filmes finalizados no ano passado, muitos deles acima da média, o que vemos são diretores estreando em cinema, mas egressos da televisão, com vasta experiência em propaganda e na realização de roteiros e direção de folhetins e similares, demonstrando a agressiva entrada destes realizadores no(ainda) incipiente mercado cinematográfico brasileiro. Competem de igual para igual com outros cineastas menos “ descolados” na busca de dinheiro dos incentivos públicos, tendo a seu favor uma máquina cuja influência dispensa maiores comentários. Desta forma, acabam restringindo um mercado já estrangulado e, peremptoriamente, impedem renovações mais consistentes e duradouras, pois, naturalmente, não há por parte desses realizadores um compromisso com a permanência do cinema, já que não dependem diretamente dele. Assim que o cinema perder o fôlego em meio a violentas recessões, recolherão os seus tripés e continuarão a “ganhar o seu” , fazendo uma novelinha aqui e uma propaganda de cerveja acolá, deixando o cinema contorcendo-se na sarjeta.

Um dia, servindo-me uma cachaça de cor azulada numa pequena cabaça, Sérgio Santeiro me alertou para os terríveis males causados pelo cinema. Eu sei que essa dor que eu estou sentindo agora não tem a ver diretamente com isso. O que tem a ver com isso é que em meio a lancinante dor física, sou obrigado a pensar sobre estas coisas perenes e impalpáveis que, ao invés de trazerem conforto, de uma certa forma, colaboram para a acidez de meu sangue. A quantidade de ácido úrico em minha urina, por exemplo, aumenta toda vez que eu penso na situação do cinema, por mais que eu troque a carne gorda pelo grelhado, ou que eu troque a batata frita pelo espinafre. E isso só fez piorar o estado do meu apêndice. Nem o chá verde resolveu o meu problema.

Mas voltando ao que importa: a fragilidade do cinema não suportará por muito tempo às pesadas investidas da publicidade e da televisão; a não ser que se criem mecanismos que dêem um suporte maior à legitimidade do cinema dentro do mercado nacional e que se estabeleça uma relação de interdependência entre os meios de expressão, sem perdas para os que se dedicam exclusivamente à consolidação de uma Indústria Nacional Cinematográfica independente. O básico a ser feito, o que já teria de ter sido feito há muito tempo, é a terceirização da produção. A Rede Globo vem acenando com esta possibilidade, mas, como era de se esperar, com timidez e a partir de um projeto equivocado e restritivo. A terceirização deve abranger produtoras que sobrevivem fora da esfera televisiva e que pertençam a realizadores que não participam diretamente dos produtos vinculados dentro da programação anual da empresa. Terceirizar produções realizadas pela O2, pela produtora do Jorge Furtado ou pela Roberto Farias Produções, não representa uma terceirização factual, e sim um desvirtuamento de uma proposta realmente democrática. Se a televisão e as Empresas de Publicidade brasileiras usufruem das leis fiscais e de subsídios de Empresas públicas na realização e distribuição de seus filmes, devem ser obrigadas por lei a incentivar a produção, terceirizando-a de maneira real e definitiva, e não fornecendo simulacros despóticos para ludibriar os ingênuos. O Cinema não pode virar um escravo da vontade dos grandes grupos de comunicação do país.

Talvez esta minha razoável exposição tenha comprometido o crédito em minha apendicite aguda, pois uma dor tão intensa não deixa espaço para pensamentos fechados e com o mínimo de coerência. Mas a verdade é que eu não sinto mais dor. E que a dor que eu sentia não era decorrente de um apêndice inflamado. A ultra-sonografia acusou uma pedra na vesícula. Esta revelação talvez tenha comprometido a minha metáfora do cinema como um apêndice da televisão e da publicidade, que só adquiriu validade devido aos motivos da falsa apendicite que me acometera. Mas no cinema, ao contrário da lógica, pode-se chegar a conclusões verdadeiras através de premissas falsas. Basta usar a imaginação.

Guilherme Sarmiento