Quem Tudo Quer... Tudo Perde,
de Brian De Palma


Wise Guys, 1986


Quem Tudo Quer... Tudo Perde, de Brian De Palma

Num período de entressafra, logo após o lançamento de Dublê de Corpo (que por sinal não foi bem recebido à época de lançamento), Brian de Palma aceita o convite do produtor Aaron Russo para dirigir uma comédia escrita por George Gallo, sobre uma desastrada dupla de membros do mais baixo escalão da máfia de New Jersey. A maior motivação do diretor parece ter sido a oportunidade de exercitar-se na comédia, gênero pelo qual não passeava desde seus primeiros trabalhos na virada das décadas de 1960/70. Além disso temos De Palma pisando sobre o terreno de Martin Scorsese, o mundo dos gângsters sem o glamour que seduzia o mais famoso dos personagens-bandidos de De Palma, o Tony Montana de Scarface. Essa desglamourização se acentua pelo fato do cenário não ser New York, mas sim o estado vizinho de características mais suburbanas e provincianas, que não por coincidência foi escolhido mais de uma década depois como o habitat do mafioso Tony Soprano e sua família, no excelente seriado de TV. O interesse de De Palma no projejo parece ter sido reforçado pela oportunidade de filmar Newark, sua cidade natal, onde se passa a maior parte da ação do filme.

A referência Scorsese é assumida logo nos primeiros momentos, quando Harry (Danny De Vito) repete em frente ao espelho os gestos e a célebre frase ("Are you talking to me?") de Robert De Niro em Taxi driver, sendo imitado por seu filho. Mas apesar da pose, Harry e seu parceiro e vizinho Moe (Joe Piscopo), são apenas uma espécie de office-boys do crime, relegados a funções tão humilhantes quanto possível, como efetuar pagamentos e fazer compras, quando não ficam encarregados de ligar o carro do chefão e verificar se este não irá explodir no ato, o que dá orígem à mais interessante sequência de Wise Guys, e que será comentada mais adiante. Buscando sua grande chance, a dupla, ao ser mandada ao jóquei para apostar uma elevada quantia em um cavalo a mando do chefe Tony Castelo (Dan Heydaya), joga o dinheiro em outro animal, presumindo que o favorito de Castelo perderia a corrida, o que não acontece. Mas Castelo resolve não matar imediatamente os dois traidores, mas sim convencer um amigo a matar o outro, pondo à prova a lealdade entre eles. Mas a dupla foge para Atlantic City, para arrumar o dinheiro com um tio de Harry, hospedando-se no hotel de propriedade de Bobby Di Lea (o scorseseano Harvey Keitel), um conhecido de infância que se propõe a ajudá-los.

Brian de Palma substitui seu virtuosismo habitual na composição de planos por uma simplicidade em favor das comédia. Só que esta simplicidade não é sinônimo de obviedade. As sequências são sempre concebidas com um certo rigor que foge de enquadramentos simplórios como campo-contracampo, por exemplo. Em apenas dois momentos o grande esteta se manifesta, com planos mais elaborados, mas sempre utilizados com propósitos cômicos. Um deles acontece na já comentada sequência quando Harry recebe a ordem de ligar o carro. A câmera acompanha um amedrontado De Vito se dirigindo ao veículo, dá um giro de 360º, mostrando a fuga desesperada dos transeuntes em fast motion e retorna ao protagonista, que executa sus missão suicida involuntária. Segundos após Harry sair aliviado do carro, este explode. O outro momento memorável é o assassinato em uma igreja de um garçom que tenta alertar a dupla sobre a armadilha que lhes foi impingida, unindo um humor pastelão a um suspense que não nega a influência hitchcockiana tão cara a Brian De Palma.

Mesmo com todos os esforços do diretor, a verdade é que o material bruto que este este tem às mãos é um tanto quanto deficiente. O roteiro de Gallo, apesar de algumas boas sacadas, não consegue aproveitar de forma satisfatória as idéias que apresenta. Por exemplo, a órdem do chefão para que a cada elemento da dupla elimine o colega é logo abandonada, e não ocorre a exploração da questão da lealdade, pertinente aos filmes sobre mafiosos. Apenas a título de comparação, o mote rendera no ano anterior o espetacular A Honra do Poderoso Prizzi de John Huston, onde os assassinos vividos por Jack Nicholson e Kathleen Turner, apesar de apaixonados, têm por missão matar um ao outro. O roteiro apresenta também algumas soluções preguiçosas, como a utilização ao final de um artifício tornado célebre em Golpe de Mestre de George Roy Hill e que, de tão marcante e manjado, não tem sua repetição justificada mesmo a título de homenagem ou citação. É também sabido que houve intervenção do estúdio (MGM) sobre o produto final, que, como ocorre com frequência em Hollywood, acabou por não ser aquele concebido por De Palma e Gallo. Só que, infelizmente, o que temos às mãos é o filme como chegou ao público, e este deixa realmente um pouco a desejar, principalmente na parte final, corrida e meio desconjuntada e que deixa meio no ár o ambíguo e curioso personagem de Harvey Keitel.

Tudo isso contribuiu para que Quem Tudo Quer...Tudo Perde se tornasse o menos conhecido filme de Brian De Palma desde Irmãs diabólicas. O fracasso nos EUA fez com que fosse esquecido imediatamente até que o indiscutível êxito de seu trabalho seguinte, Os Intocáveis, levou a uma maior divulgação. Como por exemplo no Brasil, onde foi lançado com este título grotesco apenas em 1988, com dois anos de atraso e a reboque da popularidade das aventuras de Eliott Ness. Mas mesmo com todos os pontos fracos não chega a ser completamente uma obra indigna de seu diretor, uma ovelha negra na carreira de De Palma. É no máximo uma ovelha acinzentada.

Gilberto Silva Jr.