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Van Gogh, de Maurice Pialat

Van Gogh, França, 1991, 158', cor
HOMENAGEM A MAURICE
PIALAT (1): VAN GOGH

Jacques Dutronc em Van Gogh de Maurice Pialat
"Caro Maurice,
o seu filme é impressionante, completamente impressionante; muito
além do horizonte cinematográfico coberto até aqui
pelo nosso ínfimo olhar. O seu olho é um coração
que conduz a câmera a passar pelas meninas, pelos rapazes, os espaços,
os tempos e as cores, como infantis rajadas de sangue. O conjunto do filme
é prodigioso, e os detalhes são iluminações
nesse prodígio: vemos o grande céu descer e subir dessa
pobre e simples terra. Sinta-se agradecido, você e os seus próximos,
por esse sucesso, caloroso, incomparável, palpitante.
Com toda a cordialidade,
Jean-Luc Godard"
(carta de J.-L. Godard a Maurice Pialat depois de ter visto Van Gogh)
Sinopse
O filme de Maurice Pialat segue apenas os dois últimos meses da
vida do grande pintor Vincet Van Gogh (Jacques Dutronc) em Auvers-sur-Oise,
em 1890. Ele fica na casa do Doutor Gachet (Gérard Sety) e tem
relações amorosas com sua filha, Margueritte (Alexandra
London). Pouco compreendido por seus contemporâneos, que não
entendem seus comportamentos nem sua pintura, Vincent Van Gogh se desentende
com seu irmão Theo (Bernard Le Coq) e se suicida pouco depois.
Fugindo da armadilha
dos filmes biográficos de tendência mais acadêmica
e sisuda, Van Gogh toma algumas liberdades em relação
à vida documentada do pintor. Inspirando-se largamente na pintura
impressionista de Auguste Renoir, Manet e Toulouse-Lautrec, a fotografia
do filme ajuda a compor o retrato de um artista frágil, de personalidade
instável, cuja loucura principia não de um desarranjo mental,
mas da falta de compreensão das pessoas próximas a ele.
Filmado sem música ou grandes pompas, Van Gogh retrata a
vida íntima e cotidiana do pintor, preferindo filmar a poesia do
instante que passa a cair no melodrama fácil das "biografias
filmadas". Maurice Pialat, que pintava antes de começar a
carreira cinematográfica, realiza uma homenagem de pintor para
pintor.
Direção:
Maurice Pialat
Roteiro: Maurice
Pialat
Fotografia: Emmanuel Machuel, Gilles Henry, Jacques Loiseleux.
Música (nos créditos): Arthur Honnegger
Montagem: Yann Dedet, Nathalie Hubert
Produção: Sylvie Danton, Daniel Toscan Du Plantier
Com Jacques
Dutronc (Vincent Van Gogh), Alexandra London (Marguerite Gachet), Bernard
Le Coq (Théo Van Gogh), Gérard Séty (Doutor Gachet),
Corinne Bourdon (Jo), Elsa Zylberstein (Cathy), Jacques Vidal (Ravoux),
Chantal Barbarit (Madame Chevalier), Claudine Ducret (Professora de Piano)
Maurice Pialat, o homem que veio depois
da nouvelle vague
No dia 11 de janeiro
de 2003, aos 77 anos, morre Maurice Pialat, um dos mais importantes realizadores
do cinema francês pós-nouvelle vague. Nascido em 1925, ele
tem um flerte inicial com a pintura, o que o faz entrar numa escola de
Artes Decorativas. No mesmo período, contudo, ele começa
a dirigir e atuar em pequenas peças semi-profissionais. Uma coisa
leva à outra, e Pialat começa a fazer pequenos filmes amadores.
Mas é só em 1969, com quase 45 anos, que ele fará
sua estréia no longa-metragem, com A Infância Nua, retratando
a vida de crianças abandonadas. Em 1972, vem o primeiro sucesso
de público, Nós Não Envelheceremos Juntos.
Ao contrário dos cineastas da nouvelle-vague, que faziam a apologia
da mise-en-scène (trabalho de encenação do
diretor que seria a verdadeira fonte artística do filme), Pialat
tenta fazer sua assinatura aparecer o mínimo possível, seja
fazendo a câmera apenas acompanhar o trabalho dos atores, trabalhando
com improvisações da equipe, dando atenção
mais aos personagens do que à idéia da obra ou ao conjunto
do filme. "Só há partes", respondeu uma vez quando
lhe perguntaram qual o melhor filme que tinha dirigido.
Pialat faz parte de
uma geração um pouco obscura. Sua estética, um pouco
como a de Jean Eustache – um outro precioso realizador pós-nouvelle
vague que ainda é preciso redescobrir –, ficou eclipsada fora da
França pelos filmes de diretores como Truffaut, Resnais ou Godard.
Mas em 1980 tudo muda. Ele chama dois atores que ganharam renome nos anos
70, Gérard Depardieu e Isabelle Huppert, e roda Loulou,
um filme sobre relações desajustadas dentro de um caso de
amor. O filme logo ganha estatuto de cult e passa a influenciar diversos
realizadores franceses. Em 1983, outra surpresa: Aos Nossos Amores
radicaliza seu estilo (que passa a ser ainda mais direto) e os personagens
são ainda mais inconformistas, desesperados, afoitos, à
beira da loucura, um pouco como os grandes personagens de John Cassavetes.
Entre outras coisas, o filme revela Sandrinne Bonnaire, que se tornaria
uma das atrizes francesas mais importante das décadas 80-90.
Em 1987, chega a consagração
máxima através da Palma de Ouro em Cannes para Sob o
Sol de Satã, adaptação do escritor Georges Bernanos
(que já havia rendido ao mundo o belo Diário de um Pároco
de Aldeia, de Robert Bresson), com dois de seus atores-fetiche, Gérard
Depardieu e Sandrinne Bonnaire. Ao notar que estava sob vaias ao receber
o prêmio, retrucou: "Se vocês não gostam de mim,
saiba que eu também não gosto de vocês".
Famoso por não
gostar de produtores e das concessões ao gosto médio que
eles sempre tentam inserir nos filmes, Pialat sempre rodou espaçadamente.
Uma de suas filmagens mais complicadas foi a de Van Gogh, que chegou inclusive
a parar no meio. Contudo, em 1991 o filme estreou com nova consagração
de seu autor. Amado pela crítica, premiado pela Academia Francesa
(César de melhor ator para Jacques Dutronc) e melhor filme de 1991
para a revista francesa Cahiers du Cinéma, Van Gogh apresentava
um retrato ao mesmo tempo simples e profundo do grande pintor holandês,
transformando-o em mais um de seus personagens deslocados e inconformados,
avessos à sociedade pela pura expressão de sua vida.
O sucesso de sua carreira
não impediu, contudo, que Le Garçu (1995), seu último
filme, fosse muito além da França. Também com Gérard
Depardieu, o filme ganhou ótimas críticas na época
de seu lançamento, mas não conseguiu cruzar nem o Atlântico,
sendo por anos inédito até nos Estados Unidos. No Brasil,
não passou até hoje. Em 2000, quando lhe perguntaram por
que ele não estava filmando, ele simplesmente disse que seu cinema
não fazia falta. Amargura? Nada disso. Antes a fuga contra os jatos
de autopiedade que acomete muitas vezes os cineastas malditos. E maldito
ele continuou até o final. Em oposição à sua
própria figura de cineasta revoltado, sempre indisposto com o estado
geral do cinema francês, ele não poupa o cineasta Bertrand
Tavernier: "Devemos nos revoltar com o cinema francês. Evidentemente,
não é o sr. Tavernier que vai se revoltar, esse cinema convém
perfeitamente a ele. Trata-se de um monumento". Ainda com alguns
projetos por fazer – mas com o sentimento do dever já cumprido
–, Maurice Pialat abandona o mundo e o cinema sabendo que exerceu no cinema
francês uma influência estética decisiva. Afinal, qualquer
um que já se apaixonou pela frieza quase documentária de
filmes como A Vida Sonhada dos Anjos ou A Água Fria,
pela câmera seguindo os atores em Noites Sem Dormir ou Nénette
e Boni, ou ainda pelos desejos quase suicidas de Noites Felinas
tem um pouquinho a agradecer ao grande Pialat.
Apresentação:
Ruy Gardnier. Convidado: Hernani Heffner (Pesquisador e professor de cinema).
Tradução e textos: Ruy Gardnier. Programação:
Grupo Estação e Contracampo.
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