Três curtas, três destinos


O Velho do Saco, de Amabile Rocha e Milton do Prado


O ano de 1999 foi um pouco atípico na trajetória da Casa de Cinema. Além de Três Minutos, curta dirigido por Ana Luiza Azevedo, uma das sócias da Casa, a produtora gaúcha lançou naquele ano outros dois filmes de diretores estreantes, O Oitavo Selo, de Tomás Creus, e O Velho do Saco, de Amabile Rocha e Milton do Prado. Todos os três estrearam no Festival de Gramado, embora somente O Oitavo Selo tenha sido selecionado para a competição nacional de curtas-metragens em 35mm. O Velho do Saco e Três Minutos participaram apenas da competição gaúcha, que tradicionalmente não tem seleção e é aberta a todos os filmes produzidos no Rio Grande do Sul nas bitolas 35mm e 16mm. Como sabemos, Três Minutos acabou sendo um dos grandes bolas-fora de Gramado em todos os tempos, já que, depois de ser recusado pela comissão de seleção do festival gaúcho, o filme ganharia os prêmios de melhor filme no Festival de Brasília, o Grande Prêmio Cinema Brasil e, feito raro no cinema brasileiro, no ano seguinte participaria da competição oficial do Festival de Cannes. Para redimir-se, pouco depois de Cannes 2000 os organizadores de Gramado se viram obrigados a vestir a saia-justa de convidar Três Minutos para a sessão de encerramento do festival, junto com Eu Tu Eles, de Andrucha Waddington (que também havia passado por Cannes).

Sem a mesma sorte de Três Minutos, O Oitavo Selo e O Velho do Saco são curtas que têm entre si alguns pontos em comum. Além do fato já citado de virem assinados por diretores estreantes, ambos são trabalhos irregulares, flertam com um gênero pouco praticado no cinema brasileiro - o fantástico -, e foram beneficiados por algo que a Casa de Cinema raramente faz, produzir filmes de outros realizadores que não os seus sócios. Pode-se contar nos dedos de uma mão os filmes de diretores forasteiros que a Casa abraçou. Além de O Oitavo Selo e de O Velho do Saco, Memória, de Roberto Henkin (1990), Um Homem Sério, de Diego de Godoy e Dainara Toffoli (1996) e Trampolim, de Fiapo Barth (1998) foram os únicos curtas a merecer o empenho da Casa de Cinema na sua realização.

O Oitavo Selo segue a cartilha do curta-piada. Pega uma situação já explorada por Woody Allen na peça em um ato A Morte Bate à Porta (publicada no Brasil em 1978 no livro Cuca Fundida, com tradução de Ruy Castro), e mostra a Morte do filme de Bergman O Sétimo Selo sendo ludibriada num jogo de bilhar por um malandro que não quer morrer. Bergman diluído por Woody Allen, por sua vez diluído por Tomás Creus. Poderia ser um desastre, mas até que deu um samba legal. O Oitavo Selo foi a todos os festivais, recebeu boas críticas, agradou em cheio ao público, ganhou prêmios bacanas como o do Canal Brasil de Aquisição e o de melhor roteiro em Gramado (este último bastante discutível). É um curta a que se assiste fácil, dá-se algumas risadas (a última piada especialmente é muito boa, com seu ótimo achado sonoro), mas curta-piada é aquilo que a gente sabe, não transcende ao segundo chope no bar da esquina.

O Velho do Saco tem pretensões mais elevadas. É um curta sobre o medo infantil, tema fascinante que ao longo dos anos tem rendido tantos filmes, mais ou menos bem-sucedidos (Os Inocentes, O Espírito da Colméia, O Iluminado, Poltergeist, O Sexto Sentido, A Espinha do Diabo, Os Outros, Sinais, etc). Partindo de um episódio marcante da crônica policial gaúcha em 1996, um homem humilde é encontrado caído à beira de uma estrada sem os globos oculares, caso nunca resolvido pela polícia local -, a dupla de diretores conseguiu reunir de modo muito hábil numa mesma trama elementos de um fato real, relacionados a um texto clássico da literatura fantástica (o conto O Homem de Areia, de E. T. A. Hoffmann) e a um conhecido arquétipo do imaginário infantil (o Velho do Saco). Esta tentativa de explorar um fait divers realmente chocante por sua crueldade e inusitado, ligando-o à figura assustadora do Velho do Saco, que há gerações vem sendo acionada por adultos sádicos para apavorar crianças de diferentes latitudes (sem dúvida, uma idéia muito boa), infelizmente esbarrou em algumas escolhas equivocadas, o que contribuiu para transformar o curta de Amabile Rocha e Milton do Prado num filme quase secreto da Casa de Cinema, talvez mesmo o seu maior "fracasso".

O principal erro dos diretores foi ter entregue o papel central a um jovem ator de reduzidos recursos dramáticos, comprometendo a identificação do público com o drama do protagonista, um menino apavorado pela figura de um velho que arranca os olhos das crianças mal-comportadas. Isso faz com que todas as seqüências do garoto com seus pais, por exemplo, não funcionem em absoluto, e elas correspondem a quase 50% de O Velho do Saco. Talvez por pura inexperiência - afinal, estamos diante de um primeiro filme -, a dupla de diretores não percebeu que um filme sobre o medo infantil e a perda da inocência precisa ter, obrigatoriamente, bons atores mirins para funcionar. Pamela Franklin, Ana Torrent, Haley Joel Osment e Kieran Culkin estão aí para não nos deixar mentir. Também não custa lembrar que um dos trunfos do curta mais recente da Casa de Cinema, Dona Cristina Perdeu a Memória, de Ana Luiza Azevedo, é justamente o seu cativante protagonista mirim. Ao confiarem demais nas possibilidades dramáticas de sua trama, Amabile Rocha e Milton do Prado esbarraram num caso clássico de miscasting.

Já nas seqüências de pesadelo do garoto, os diretores não fazem feio. Muito bem filmadas, com planos de construção original, estas seqüências, por não terem diálogos e exigirem pouco do protagonista, cumprem seu objetivo. Com imagens que remetem a Os Pássaros de Hitchcock, rituais de sincretismo religioso e sacrifícios noturnos em cemitérios, estas seqüências revelam um potencial a não ser desprezado em seus diretores. Todas as cenas da cobertura jornalística do caso do "roubo" dos olhos também são bastante boas, fazendo um comentário irônico e pertinente sobre o tratamento que a imprensa costuma dar à tragédia alheia.

Para seu azar, os defeitos de O Velho do Saco acabaram falando mais alto que suas também existentes qualidades. O filme não foi selecionado para nenhum festival, à exceção do Festival Internacional de Curtas de São Paulo, algo surpreendente se formos ver o número de festivais que existem por aí e as bombas que estes festivais costumam exibir em suas competições. Primo pobre de Três Minutos (que foi a Cannes!) e de O Oitavo Selo, sendo este um filme muito fácil de se gostar, que foi a todos os festivais e levou vários prêmios do público (Gramado, Vitória, Festival do Rio BR, Tiradentes), O Velho do Saco caiu num limbo de esquecimento injusto e bastante revelador da perversa relação entre o curta-metragem e o sistema dos festivais de cinema no Brasil. Embora tenha sido exibido no projeto "Curta nas Telas", realizado pela Prefeitura de Porto Alegre, quando foi assistido por 4.694 espectadores ao longo de duas semanas (exibido com o longa A Bruxa de Blair, é até hoje o recorde de público do "Curta nas Telas"), e também tenha atingido uma das maiores audiências ao ser apresentado pela RBS TV (emissora afilhada à Rede Globo no RS) na série "Curtas Gaúchos", onde foi visto por 497.000 espectadores (no mesmo projeto, O Oitavo Selo teve 290.000 espectadores), O Velho do Saco não alcançou o seleto público formador de opinião dos festivais de cinema e, portanto, não existe. Para este público reduzido e influente, Milton do Prado segue sendo assistente de montagem de Giba Assis Brasil em filmes como Tolerância e Houve uma Vez Dois Verões, e Amabile Rocha talvez seja um nome familiar visto nos créditos de algum dos muitos curtas produzidos pela Casa de Cinema de Porto Alegre. Evidentemente, essa mecânica injusta dos festivais é velha conhecida da Casa, que naquele ano de 99 jogou todas as suas fichas em Três Minutos e O Oitavo Selo.

Assim anda o cinema e assim os filmes vão sendo realizados, lançados e esquecidos. Em relação ao curta, ao fim e ao cabo, parece não importar quantos viram. Importa mesmo é quem viu e onde viu.

Marcus Mello