Foco: Os Trapalhões

Apresentação
Com
uma filmografia de 38 longa-metragens e uma média de 3,9 milhões de espectadores
por filme, a trupe formada por Didi e Dédé (inicialmente) e depois completa
por Mussum e Zacarias, representa uma das trajetórias cinematográficas
mais bem sucedidas comercialmente no Brasil, e uma das obras de maior
impacto na formação cinematográfica das gerações de crianças e jovens
das décadas de 70 e 80 no Brasil. Para além das estatísticas do sucesso,
Os Trapalhões representam o mais recente (e um dos maiores) fenômeno de
popularidade do cinema brasileiro, antes alcançado pelas chanchadas (Oscarito/Otelo)
e pelos filmes de Mazzoropi (o Jeca), e por isso são um dos objetos de
reflexão política-dramática mais relevantes para uma proposição futura
do que poderia ser o tão aguardado “reencontro” do público brasileiro
com o cinema produzido por essas bandas.
Dos
pequenos filmes de atrações do início do século XX, passsando pelas figuras
circenses de Oscarito/Otelo, pela ingenuidade brejeira de Mazzaropi, dialogando
com o engajamento social das gerações sessentistas, e fechando um ciclo
com sua relação direta com o universo de clichês televisivos, Os Trapalhões
reúnem em um mesmo picadeiro paródico, traços culturais brasileiros que
vão da mais arcaica feira do interior ao universo pop-midiático pós-abertura.
Esse aglomerado de referências constrói, em torno de seus filmes, um universo
que se assemelha aos espetáculos de variedades (comum nas tradicionais
feiras de atrações das décadas de 1900/10) e retomam em torno de enredos
simples, a encenação circense realocada no contexto cinematográfico.
Com
seu auge na virada dos anos 70 para os 80, Os Trapalhões representam (ao
lado do fenômeno das pornochanchadas) o único produto de uma “cultura
popular das massas” que foi capaz, naquele momento, de ampliar espaço
diante da invasão crescente do cinema norte-americano pós-Guerra nas
Estrelas (1977) e da cristalização final da Televisão como eixo central
da vida audiovisual brasileira. Associados (a partir de 1973) a um projeto
popular-populista, marca de uma grande gama de filmes da era Embrafilme,
Os Trapalhões talvez tenham sido aqueles que melhor conseguiram driblar
internamente o peso/rigidez do “cinema oficial brasileiro”, justamente
por trabalharem uma dramaturgia do riso e do chulo, da paródia como forma
de, em diferentes graus, manter-se crítico diante da narrativa, tocando
o melodrama social mas nunca se deixando conquistar por nenhum gênero
específico (seja o musical, a ficção científica, o
filme histórico, ou de aventura).
Nesse
sentido, os filmes dOs Trapalhões se tornaram ao longa da década de 70,
o mais bem-sucedido conjunto de filmes articulados ao projeto de popularização
de temáticas nacionais de então, através de narrativas que entrecruzavam
o cotidiano do país (de questões sociais e temas urgentes ao impacto do
pai de todos os blockbusters: Guerra nas Estrelas) com
as tradições cinematográficas brasileiras do riso e da paródia, fazendo
da representação do cotidiano das pessoas, uma grande brincadeira capaz
de não se afogar completamente no populismo fácil e alegórico (que assolava
a obra de diretores mais bem quistos pela crítica) e ainda manter links
com ícones da cultura globalizada (Noé e o incrível Hulk foram alguns
dos “adaptados”).
Juntando
o circo (Didi e Dedé) a um malandro do Samba carioca (Mussum) e à brejeirice
mineira de um comediante de rádio (Zacarias), os quatro Trapalhões se
articulavam como um painel de nossos estereótipos, dos anti-heróis patéticos,
do jogo de palavras inventadas, pantomimas e acrobacias, atravessando
um mar de tradições populares do rádio e do cinema, e que agora se lançava,
pela primeira vez, em franco diálogo com nosso maior agente cultural contemporâneo:
a TV. Já em 1965 (no primeiro filme com a dupla original), Na Onda do
Iê-Iê-Iê parodiava a ascensão social através dos concursos de calouros
da televisão – entrecruzamento de universos que tornou uma marca do grupo
até sua decadência, no final dos anos 80, quando as estrelas da Tv (A
Princesa Xuxa e os Trapalhões é central nessa observação) já serviam
de muletas midiáticas para a melhor divulgação dos filmes e seu sucesso
certo, diante de enredos pouco inspirados.
Com
a cabeça baixa diante da necessidade de atrair o público através da aparição
na tela de rostos do grande circo de “famosos” que se esboçava no Brasil,
os últimos filmes do quarteto já trazem um esmaecimento da constituição
de suas personas, com seus papéis interativos já apagados, com Renato
Aragão abandonando aos poucos a personagem Didi e assumindo o papel de
um herói não mais inconsciente, mas justo e orgulhoso, que, sinal dos
tempos, fica com a mocinha ao final de Princesa Xuxa e os Trapalhões
(1989). Algo impensável ao vagabundo Didi original, e que marca o
fim simbólico, não comercial é claro, mas da representatividade artística
marcante que Os Trapalhões haviam trazido ao cinema brasileiro até meados
da década de 80.
* * *
Hoje,
quando os jornais e telejornais bradam aos quatro ventos a “subida do
povo ao poder” e o meio cinematográfico se agita em torno do fenômeno
de Cidade de Deus, parece indispensável que a crítica cinematográfica
brasileira tire o atraso diante de seus preconceitos e saiba se lançar
a um olhar analiticamente responsável sobre esse que foi o último dos
grandes conjuntos de filmes produzidos pelo (esclerosado) projeto nacional-positivista,
de um “cinema para o povo”. Um trabalho cuidadoso (como o esboçado por
Fatirmarlei Lunardelli em O Psit!- o cinema popular dos Trapalhões
- ed. Artes e Ofícios), de uma reflexão meticulosa, que nos permita,
hoje, pensar pesadamente sobre sua marcante representatividade no imaginário
cinematográfico do público brasileiro: apontar suas limitações estéticas,
seus vícios e suas fragilidade – assim como redescobrir sua tão bem talhada
magia, seus gestos entre o improviso e a precisão, sua capacidade de comunicação
grandiosa, seus personagens inesquecíveis.
Se
não uma homenagem, uma reverência – se não admirados... encantados.
No
total, são 10 títulos lançados em DVD pela som Livre/RA Produções – obras
com diretores como J.B. Tanko, Adriano Stuart e a estrela global Daniel
Filho (manda-chuva do projeto de cinema popular da Globo Filmes, vale
lembrar). As cópias digitalizadas não estão no mesmo padrão de preservação,
algumas com falhas nas cópias em película, outras retiradas de masters
originais em video, demonstram que a ignorância na preservação não tem
fronteiras estéticas. Mesmo assim, os títulos escolhidos para a coleção
são um precioso apanhado do que de mais marcante fez o quarteto (como
atores, diretores e produtores – lembro), merecendo a nossa visita, nossa
curiosidade analítica...e nossas indisfarçáveis lembranças infantis.
Vamos
aos filmes.
Felipe Bragança
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