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Terapia de Doidos, de Brian De Palma
Home Movies, 1979

Kirk Douglas em Terapia de Doidos
de Brian De Palma
Home Movies é um filme estranho
na carreira de Brian De Palma. Primeiro é bom explicar a forma
como ele foi feito: De Palma tinha aplicado um curso de cinema, quando
o finalizou, decidiu que queria fazer um filme com seus alunos. Chamou
alguns amigos atores (Kirk Douglas, Nancy Allen, Gerritt Graham) e usou
seus alunos na equipe técnica. Bolou uma historia simples que permitiria
a estética amadoristica do filme que o titulo já adianta.
Portanto, este não é um dos
filmes de De Palma onde a mise en scene elaboradissima do diretor é
dominante. Não que o filme não seja interessante visualmente,
ele o é, e o diretor resolve muitas das questões que propõe
assim, mas é um trabalho bem mais simples que seu habitual. Talvez
em decorrencia disso, talvez pelo carater de aula do filme, este é
o trabalho de De Palma onde suas ideias são mais verbalizadas.
O filme em si está mais próximo
das comédias influenciadas por Godard do início da carreira
do diretor, do que dos suspenses que o tornaram famoso. Dennis (Keith
Gordon, o garoto de Vestida para Matar) é o caçula
de uma familia pouco funcional, onde o pai (Vincent Gardenia), um médico,
mantém um caso com a enfermeira e todas as pacientes, enquanto
a mãe (Mary Davenport) é obcecada pelas escapadas do marido,
e dividida entre odia-lo ou se culpar por não conseguir satisfaze-lo.
David(Graham), o irmão mais velho, é uma espécie
de guru que lidera uma seita onde propaga suas pouco compreensíveis
idéias que parecem misturar naturalismo com uma grande dose de
misogenia. Ele tem uma namorada (Allen) ao qual ele tenta converter a
sua visão de mundo, o que é difícil, já que
a moça, uma ex-prostituta, parece recorrer em tudo o que ele abomina.
Todos parecem crer que David é genio, mesmo que ninguem entenda
o que ele diz na maior parte do tempo.
Quanto a Dennis nâo há nada
a dizer já que ele não parece ter vida particular alguma,
um "coadjuvante em sua própria vida" como alguém
no início do filme define, ou seja, o perfeito voyeur de De Palma.
Entra em cena o Maestro (Douglas), um guru de auta ajuda, que incentiva
seus pacientes a fazer filmes caseiros nos quais eles seriam os protagonistas.
Como não há nada de interessante na vida privada de Dennis,
o Maestro o incentiva a se intrometer na das pessoas a sua volta, o que,
ironicamente, acaba colocando-o ainda mais na posição de
voyeur. O Maestro é uma personagem das mais interessantres que
o diretor criou. Do pouco que vemos em cena, ele não parece ter
muita vida particular, se limitando a agir como um grande manipulador
e a soltar frases de efeito que De Palma parece sempre deixar claro discordar
(uma delas, "a imagem é absoluta" pode ser vista como
a antitese da obra do diretor).
O filme a partir dai segue trabalhando varias
das ideias do diretor a respeito de cinema, apesar de pouco das suas obsessões
pessoais estejam muito a vista. Exceção feita ao voyeurismo
bastante aparente no filme, até porque o filme que nos vemos ser
supostamente o home movie de Dennis, apesar de que De Palma deixar
sempre claro que muito do que nós vemos só poderia ser rodado
com sua interferência direta. Mais a frente quando Dennis se torna
obcecado pela ideia de salvar Nancy Allen do irmão, outra figura
recorrente dos filmes de De Palma dão as caras. É justamente
po ai, numa cena entre os dois que acontece o melhor momento do filme.
Numa daquelas cenas de dilatação do tempo em que o diretor
se especializou, um enamorado Keith Gordon observa Nancy Allen caminhando,
De Palma abandona tudo o que ele vinha fazendo pelo prazer de registrar
aquele momento, é uma das grandes cenas do seu cinema, e mesmo
que fosse só por ela, o filme mereceria ser mais conhecido do que
é.
Filipe Furtado
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