|
“O meio mais direto, que traz a própria força e o estilo
até das entranhas do teatro popular, é o monólogo” O
ser, na sua totalidade, acaba não sendo nada. Aquilo que o define e o
distingue são as suas singularidades. Singularidades a todo tempo destruídas,
assassinadas. E quando ele pensa que transcende, ele apenas transcende
em vaidades, egoísmos, espertezas e necessidades mal-relacionadas, mal
colocadas e mal entendidas. Então o bom encontro possível (apesar do humor
fino) se dá numa troca abjeta, sem valor, cretina e formadora daquilo
que deveria destruir. Toda originalidade do ser acaba sendo suprimida.
Então, ninguém ascende nem transcende. Apenas cria patamares além das
hierarquias e burocracias, fazendo desses patamares os objetivos. O mesmo
ocorre com o poder permissivo, abjeto e corrompido. A crença na prisão
e na escravidão são muito mais fortes, mais convincentes e estruturais,
como tem sido a globalização. O sistema precisa dela para impor a sua
ordem da produção. Ordem e importância que o próprio homem criou como
escravo e bárbaro. Criaram o Estado, falam de ordem moral, ética. Mas
nada disso funciona para a liberdade. São fragmentos dividindo, enfraquecendo,
dominando. E o pior é que achamos ótimo. Deus
É Brasileiro expressa-se pelo rico movimento no desajuste social
e econômico desse nosso país. Pacientemente, com um fino humor popular,
avança no espaço tropical dando dimensão nobre ao nosso olhar poluído
pela TV. Cacá não quer amedrontar ou intimidar, e sim aproximar o público
de sua sombria leveza, preocupante. Por que o Brasil ainda não deu certo?
Sua realização como f-i-l-m-e se processa numa progressão de intencionalidades
poéticas. Esse país (vendido pelo “novo” cinema como o império
da violência) que nos rodeia também pode ser nobre e
sentimental. E por que não? Deus É Brasileiro tenta captar a espontaneidade da vida com
a flexibilidade de uma doce ficção-documental que nos remete a Pasolini,
Buñuel, Glauber e Joaquim Pedro de Andrade. Ou seja, é também um diálogo
com o cinema, vivendo-se aí uma delicada experiência amorosa com o espectador.
Carlos Diegues se permite deixar levar por múltiplos compromissos com
a sensibilidade ainda possível no país da enganação publicitária da violência
vendida como espetáculo. Cacá é talvez o último apaixonado pelo Brasil,
sem se vender como a tentação do bem. Deus É Brasileiro legitima uma espécie de defesa da esperança
no povo e no país. E quem sabe Deus não é mesmo brasileiro? Produzir
sofrimento e humilhação nos dias de hoje se tornou fácil, pois a perversão
está na ordem do dia. No entanto, Cacá vai no sentido contrário do desespero.
Deus É Brasileiro
é uma obra poética que trabalha com maestria o bom humor popular e uma
delicada análise do nosso caos. É também profético, inspirado num grande
mito religioso. É obra de um profeta em eterna procura. É Homero, é Dante
e é Milton do “Paraíso Perdido”. Deus É Brasileiro é Maquiavel travestido de poeta apaixonado
pela causa humana. Esta causa que abraçamos (cada um à sua maneira) e
que é de antemão perdida. Deus... é essa luz que nos encanta e nos chama,
nos invoca e nos provoca. E a vida é esse fogo e essa paixão que não sabemos
bem como lidar. Cacá fez Deus.... assim, de saco cheio mas amando um povo
diferente. De um Brasil dividido, multilateral, terra a terra. Lamentavelmente
um grande país onde tudo é muito rápido, pois ainda obedecemos como carneiros
a qualquer processo de dominação. Vide o neoliberalismo e a globalização.
Brasil onde as cabeças não pensam, as cabeças obedecem. Nosso aprendizado
é muito doloroso. Primeiro destruímos a nós mesmos. Depois, se houver
depois, pensamos no inimigo. O
que encanta em Deus É Brasileiro é a originalidade e organicidade do filme. os recursos
utilizados por Cacá – a começar pela linguagem poética: rigorosa, acadêmica,
experimental, pictórica. A geografia, a natureza, a paisagem e o núcleo
religioso. A juventude com a sua pureza, encanto e liberdade. O sentido
rebuscado da entrega amorosa. O povo como representante da tradição. E
Deus a mais alta
hierarquia do poder, de saco cheio e bem-humorado. E todo esse caos sustentado
pelo dinheiro, epla prostituição e pelo poder das armas de Baudelair Vieira,
ou Bushinho II? Este é o rito diário a que nos submetemos sem pensar.
O pensar é um campo aberto. E, enquanto existir, haverá de satanizar a
vida do capital e do poder, embora ainda legitimando-os. É o veneno que
cura o veneno que mata. Que
Cacá não seja punido por seu Deus anarquista, mágico e bem-humorado, que nem o sant aceita
por ser ate. O criado rebela-se contra as lei da criação. Felizmente não
há nenhum tipo de sacralização-boçal. Muito menos da religião. O cinema
é assim, e morrerá assim: inventivo e livre para voar. Quer dizer, viver
é eternamente procurar. Mas a vida é isso. A convivência é isso. A criação
é isso. Inútil procurar na vida o paraíso perdido. Ela é um laboratório
de coisas comuns, práticas, de surpresas. E também das experimentações,
das sensações, da poesia, do humor, da arte, da música... No entanto,
transformam a vida numa eterna disputa de idiotas. E quando a tolerância
e a cultura falham, radicaliza-se o confronto, apelando-se até para a
morte. Como se não bastasse a sua presença indesejável. Mas
o poder é isso. A sociedade é isso. E é impressionante como o povo vive,
aceita e se acostuma com a pobreza. E como o rico vive e se agarra à riqueza,
estabelecendo normas e criando uma ordem para protegê-la. E, no meio de
tudo isso, o sonho também torna-se um artifício do poder. Tudo é trabalhado
e manipulado em nome do sonho e dos desejos que não se realizam. A grande
sacada, a grande descoberta, é trabalhar as idéias, desenvolver o pensamento,
como faz Carlos Diegues e sua jovem equipe. E mesmo isso é complicado
porque não pode ser manipulado como propaganda, espetáculo barato, como
um produto descartável tipo “Xuxa” ou “Tiazinha”. E é quando o aprendizado
torna-se arma. Ou seja, o encantador nesse Deus meio “Zorba” é sua individualidade tranqüila muito
bem representada por Antônio Fagundes. E
é raro um rico personagem como tanta postura e independência apesar das
muitas dificuldades da filmagem pelo Brasil agreste e faminto. Creio que
a grandeza da sua postura é fruto de um enorme trabalho. De muito esforço
e ousadia por parte de todos. E o importante na sua presença não é a estética,
o possível elemento contraditório aqui ou ali, mas a vida como todas as
subidas e descidas perigosas. É um trabalho de interpretações, de luzes,
espaços, personagens e idéias. Toda a sua delicada crítica é profundamente
vivenciada, tem experiência pessoal e profunda elaboração na expressão
narrativa. Ele amou a vida, a natureza, mas nota-se um certo ressentimento
em relação às gritantes desigualdades num país que poderia ser bom para
todos. Como filme, a sua grande virtude é falar do que sabe, com muito
bom humor. Reparando bem, Deus É Brasileiro
é um monólogo, uma doce conversa com o espectador. Poderia até ser uma
homenagem bem-humorada a Glauber. Parabéns. Luiz
Rosemberg Filho
|
|