Por um Deus bem brasileiro

O meio mais direto, que traz a própria força e o estilo até das entranhas do teatro popular, é o monólogo
Dario Fo

O ser, na sua totalidade, acaba não sendo nada. Aquilo que o define e o distingue são as suas singularidades. Singularidades a todo tempo destruídas, assassinadas. E quando ele pensa que transcende, ele apenas transcende em vaidades, egoísmos, espertezas e necessidades mal-relacionadas, mal colocadas e mal entendidas. Então o bom encontro possível (apesar do humor fino) se dá numa troca abjeta, sem valor, cretina e formadora daquilo que deveria destruir. Toda originalidade do ser acaba sendo suprimida. Então, ninguém ascende nem transcende. Apenas cria patamares além das hierarquias e burocracias, fazendo desses patamares os objetivos. O mesmo ocorre com o poder permissivo, abjeto e corrompido. A crença na prisão e na escravidão são muito mais fortes, mais convincentes e estruturais, como tem sido a globalização. O sistema precisa dela para impor a sua ordem da produção. Ordem e importância que o próprio homem criou como escravo e bárbaro. Criaram o Estado, falam de ordem moral, ética. Mas nada disso funciona para a liberdade. São fragmentos dividindo, enfraquecendo, dominando. E o pior é que achamos ótimo.

Deus É Brasileiro expressa-se pelo rico movimento no desajuste social e econômico desse nosso país. Pacientemente, com um fino humor popular, avança no espaço tropical dando dimensão nobre ao nosso olhar poluído pela TV. Cacá não quer amedrontar ou intimidar, e sim aproximar o público de sua sombria leveza, preocupante. Por que o Brasil ainda não deu certo? Sua realização como f-i-l-m-e se processa numa progressão de intencionalidades poéticas. Esse país (vendido pelo “novo” cinema como o império da violência) que nos rodeia também pode ser nobre e sentimental. E por que não? Deus É Brasileiro tenta captar a espontaneidade da vida com a flexibilidade de uma doce ficção-documental que nos remete a Pasolini, Buñuel, Glauber e Joaquim Pedro de Andrade. Ou seja, é também um diálogo com o cinema, vivendo-se aí uma delicada experiência amorosa com o espectador. Carlos Diegues se permite deixar levar por múltiplos compromissos com a sensibilidade ainda possível no país da enganação publicitária da violência vendida como espetáculo. Cacá é talvez o último apaixonado pelo Brasil, sem se vender como a tentação do bem. Deus É Brasileiro legitima uma espécie de defesa da esperança no povo e no país. E quem sabe Deus não é mesmo brasileiro?

Produzir sofrimento e humilhação nos dias de hoje se tornou fácil, pois a perversão está na ordem do dia. No entanto, Cacá vai no sentido contrário do desespero. Deus É Brasileiro é uma obra poética que trabalha com maestria o bom humor popular e uma delicada análise do nosso caos. É também profético, inspirado num grande mito religioso. É obra de um profeta em eterna procura. É Homero, é Dante e é Milton do “Paraíso Perdido”. Deus É Brasileiro é Maquiavel travestido de poeta apaixonado pela causa humana. Esta causa que abraçamos (cada um à sua maneira) e que é de antemão perdida. Deus... é essa luz que nos encanta e nos chama, nos invoca e nos provoca. E a vida é esse fogo e essa paixão que não sabemos bem como lidar. Cacá fez Deus.... assim, de saco cheio mas amando um povo diferente. De um Brasil dividido, multilateral, terra a terra. Lamentavelmente um grande país onde tudo é muito rápido, pois ainda obedecemos como carneiros a qualquer processo de dominação. Vide o neoliberalismo e a globalização. Brasil onde as cabeças não pensam, as cabeças obedecem. Nosso aprendizado é muito doloroso. Primeiro destruímos a nós mesmos. Depois, se houver depois, pensamos no inimigo.

O que encanta em Deus É Brasileiro é a originalidade e organicidade do filme. os recursos utilizados por Cacá – a começar pela linguagem poética: rigorosa, acadêmica, experimental, pictórica. A geografia, a natureza, a paisagem e o núcleo religioso. A juventude com a sua pureza, encanto e liberdade. O sentido rebuscado da entrega amorosa. O povo como representante da tradição. E Deus a mais alta hierarquia do poder, de saco cheio e bem-humorado. E todo esse caos sustentado pelo dinheiro, epla prostituição e pelo poder das armas de Baudelair Vieira, ou Bushinho II? Este é o rito diário a que nos submetemos sem pensar. O pensar é um campo aberto. E, enquanto existir, haverá de satanizar a vida do capital e do poder, embora ainda legitimando-os. É o veneno que cura o veneno que mata.

Que Cacá não seja punido por seu Deus anarquista, mágico e bem-humorado, que nem o sant aceita por ser ate. O criado rebela-se contra as lei da criação. Felizmente não há nenhum tipo de sacralização-boçal. Muito menos da religião. O cinema é assim, e morrerá assim: inventivo e livre para voar. Quer dizer, viver é eternamente procurar. Mas a vida é isso. A convivência é isso. A criação é isso. Inútil procurar na vida o paraíso perdido. Ela é um laboratório de coisas comuns, práticas, de surpresas. E também das experimentações, das sensações, da poesia, do humor, da arte, da música... No entanto, transformam a vida numa eterna disputa de idiotas. E quando a tolerância e a cultura falham, radicaliza-se o confronto, apelando-se até para a morte. Como se não bastasse a sua presença indesejável.

Mas o poder é isso. A sociedade é isso. E é impressionante como o povo vive, aceita e se acostuma com a pobreza. E como o rico vive e se agarra à riqueza, estabelecendo normas e criando uma ordem para protegê-la. E, no meio de tudo isso, o sonho também torna-se um artifício do poder. Tudo é trabalhado e manipulado em nome do sonho e dos desejos que não se realizam. A grande sacada, a grande descoberta, é trabalhar as idéias, desenvolver o pensamento, como faz Carlos Diegues e sua jovem equipe. E mesmo isso é complicado porque não pode ser manipulado como propaganda, espetáculo barato, como um produto descartável tipo “Xuxa” ou “Tiazinha”. E é quando o aprendizado torna-se arma. Ou seja, o encantador nesse Deus meio “Zorba” é sua individualidade tranqüila muito bem representada por Antônio Fagundes.

E é raro um rico personagem como tanta postura e independência apesar das muitas dificuldades da filmagem pelo Brasil agreste e faminto. Creio que a grandeza da sua postura é fruto de um enorme trabalho. De muito esforço e ousadia por parte de todos. E o importante na sua presença não é a estética, o possível elemento contraditório aqui ou ali, mas a vida como todas as subidas e descidas perigosas. É um trabalho de interpretações, de luzes, espaços, personagens e idéias. Toda a sua delicada crítica é profundamente vivenciada, tem experiência pessoal e profunda elaboração na expressão narrativa. Ele amou a vida, a natureza, mas nota-se um certo ressentimento em relação às gritantes desigualdades num país que poderia ser bom para todos. Como filme, a sua grande virtude é falar do que sabe, com muito bom humor. Reparando bem, Deus É Brasileiro é um monólogo, uma doce conversa com o espectador. Poderia até ser uma homenagem bem-humorada a Glauber. Parabéns.

 

Luiz Rosemberg Filho