Missão: Marte, de Brian De Palma

Mission To Mars, 2000


Gary Sinise e Tim Robbins em Missão: Marte

Brian De Palma extrai seus filmes menos da história da humanidade que da história do cinema (distinção válida, por absurda que pareça, pois esclarece muita coisa). Se em Os Intocáveis as referências vão desde o filme de gângster até o mais clássico western, passando pela homenagem a Eisenstein e sua decupagem perfeccionista, em Missão: Marte há uma espécie de compêndio da ficção científica que inclui grande parte das preocupações e sub-temáticas do gênero. A bem da verdade, em se tratando de um diretor tão atento, ou melhor, tão aficionado pela técnica e seus desdobramentos (além de possíveis transgressões), é espantoso que sua primeira incursão no gênero, que se dá nesse estado relativamente impuro (o primeiro Alien – um exemplo dentre tantos outros –, de Ridley Scott, já mostrara uma imbricação de gêneros vizinhos – suspense, terror, ficção – com resultados bastante convincentes), embora inconfundível, tenha demorado a acontecer. Assistindo à obra de De Palma em conjunto nota-se facilmente a abundância de câmeras, rastreadores e outros dispositivos mais, sempre a serviço do suspense e da investigação. Mas a questão que surge após Missão: Marte não deixa de ser curiosa: não estaria na ficção científica o playground ideal para este cineasta amante das telecomunicações e das interfaces? A pergunta, entretanto, cai por terra no momento seguinte, retrucada pela constatação de que nossa era permite perfeitamente que ele busque tais elementos no cotidiano das cidades, o que talvez o instigue em maior grau. O fato é que Missão: Marte é ficção científica na linha mais autêntica possível: espaço sideral, marcianos, alta tecnologia, explicações entusiásticas sobre os fenômenos que a princípio parecem inexplicáveis... e suspense, é claro. Missão: Impossível ainda não era o destino último de sua escalada tecnológica, restava outra missão, mais ousada, mais longínqua, rumo a Marte.

A referência mais próxima, no que diz respeito ao ano de produção, que Missão: Marte introduz logo na primeira seqüência é Apollo 13, filme feito por Ron Howard a partir do cabalístico acidente de percurso do foguete que ia para a Lua. Tanto um quanto outro filme começam com uma confraternização em que os astronautas falam da missão que se aproxima (somente possibilidade para o personagem de Tom Hanks em Apollo 13, realidade consolidada para os personagens de Missão: Marte), numa oscilação entre ansiedade, otimismo e receio. Tanto um quanto outro filme trazem Gary Sinise como o astronauta que mais entende do assunto, passou mais tempo que qualquer outro nos simuladores, porém estará de fora da missão por algum motivo (lá, a doença dele, aqui, o trauma gerado pela morte da esposa). Bem a seu gosto, De Palma abre o filme com dois enormes planos em que a câmera passeia pela casa onde há o churrasco de confraternização, dois planos que bastam para apresentar todos os principais personagens e ainda revelar pistas narrativas e sugerir perfis psicológicos – Luke (Don Cheadle) e sua esposa lamentam a ausência de Jim (Sinise) numa conversa que antecipa o drama vivido por ele, isto é, a perda da esposa. São planos-seqüência movimentados, coreografados, possibilitados por uma câmera absolutamente desvencilhada e estável (fruto da técnica, novamente), impecavelmente concebidos. O que essa seqüência inicial parece querer atingir – e eis que uma nova aproximação com Apollo 13 mostra-se plausível – é um profundo sentimento nostálgico. Temos a impressão de que aquela será a última vez em que todos se encontrarão juntos, pois algo está prestes a separá-los. Não bastasse essa nostalgia imanente, há a conversa entre Luke, Jim (que acaba aparecendo no meio do churrasco) e o personagem de Tim Robbins, os três bebendo cerveja e falando da vida, dos velhos e dos novos tempos – e a conversa é interrompida quando Jim lembra da esposa e sai para pegar outra cerveja. Ainda comparando os dois filmes, ambos tratam de missões "fracassadas", mas nesse ponto surgem as diferenças que põem fim ao cotejo que aqui se prosseguiria traçando.

Uma primeira cena que traz uma questão relevante acerca das novas tecnologias é aquela em que a expedição liderada por Luke depara-se com um objeto não identificável, parecido com gelo – o que seria impossível a não ser que houvesse alguém mais além deles – e que os impele a averiguar sua origem. A investida resulta em morte de toda a equipe, à exceção de Luke, cujo paradeiro fica em suspenso após o término da seqüência. O que há de mais interessante na cena é o paralelismo criado entre as imagens que os membros da expedição enviaram para a sede da NASA na Terra, onde se encontram Tim Robbins e Sinise, imagens que chegam com um delay bastante considerável, e as ações da equipe que está em Marte sendo já detonada por um ciclone de areia vermelha. A montagem alterna as imagens da equipe descontraída, otimista – um passado recente que o "horizonte negativo" do monitor presentifica para os demais – com aquelas em que a descontração cede espaço ao pânico (e esse sim é o presente "verdadeiro"). Com esse paralelismo fica clara, mais que nunca, uma das principais propriedades da imagem, que consiste em mascarar uma ausência fundamental (a do objeto filmado, ou retratado). A equipe da Terra fica tranqüila ao receber a mensagem, mas não sabe que naquele exato instante os protagonistas do vídeo estão morrendo. A era da ubiqüidade é posta em xeque: resta uma distância não encurtada, um espaço não contraído que gera um ínterim suficiente para ludibriar o mais atualizado dos homens. O triunfo aparente pela técnica e o naufrágio pela mesma, numa única e movimentada cena. É também por intermédio do monitor, num momento posterior do filme, que Jim revê imagens da falecida esposa e se emociona.

A missão seguinte será a de resgate, e desta vez o personagem de Gary Sinise irá embarcar. Os detratores do filme provavelmente utilizam como argumento a cena da equipe de resgate fincando a bandeira dos EUA tão logo pisa o solo marciano, ou a da morte de Tim Robbins, quando este troca declarações de amor eterno com a esposa Terry (também astronauta participante da missão) antes de tirar o capacete e se suicidar para que ela não arrisque a vida tentando salvá-lo. Sem falar numa das cenas finais: um negro, um branco, uma mulher e um marciano de mãos dadas, discurso de união entre os povos como pano de fundo – isso após o extraterrestre ter demonstrado, numa ilustração comovente (animação digital em alto estilo), a origem da humanidade a partir de uma semente de DNA lançada ao planeta Terra pelos marcianos (pois Marte já foi habitável um dia...). Mas tudo isso, exatamente tudo, faz parte essencial do filme. Não há somente o mistério e o suspense de um Alien, há também o contato com extraterrestres que nos dão uma lição de "humanismo", à la Spielberg (E.T., Contatos Imediatos do Terceiro Grau – o filme que Godard considera uma enganação, já que os tais contatos são negados ao espectador no final), assim como a discussão homem/tecnologia (só que bem diferente de um 2001, por exemplo). A referência em De Palma nunca é única. O roteiro tira proveito também de informações da comunidade científica para forjar sua atualidade – a tal imagem de uma gigantesca face desenhada na superfície de Marte, o que posteriormente vieram a descobrir que não passava de uma composição morfológica aleatória formada por asteróides que ali caíam.

Partindo da distinção sugerida por Manoel de Oliveira, que situa de um lado os cineastas sérios, graves (Carl Dreyer, John Ford, Jean Renoir) e de outro os prestidigitadores, espécies de mágicos-ilusionistas (Fellini, Bergman, Orson Welles), certamente acharíamos Brian De Palma no segundo grupo, adepto do elemento-surpresa, das práticas de enganar, dos disfarces, dos truques. Assim sendo, faz um sentido enorme ouvir "Dance the night away", do Van Halen – banda cuja formação original trazia dois integrantes, o guitarrista Eddie Van Halen e o tresloucado David Lee Roth, que desafiavam, respectivamente, a técnica e a gravidade – enquanto a câmera flutua pelo interior da espaçonave, comemora seu triunfo sobre a lei gravitacional da mesma forma que os astronautas o fazem, gira 360º, inclina-se e desinclina-se (sensação que De Palma também consegue passar em contextos distintos, quando nem há esse respaldo físico para que a câmera adquira uma mobilidade flutuante, às vezes mais lenta que o normal, sempre com suavidade, mesmo quando realiza manobras grandiloqüentes). Se a câmera tiver de subir numa grua e sobrevoar as suítes vizinhas de um hotel (plano sensacional em Olhos de Serpente), para surpreender o espectador com um ponto de vista inusitado, ou se tiver de se aproximar da cabine de uma espaçonave até atravessar o vidro e chegar junto aos atores (cena de Missão: Marte no estilo Welles), ela o fará com tamanha leveza que só nos daremos conta do deslocamento ao seu término.

"Habitar um novo mundo e continuar procurando o seguinte", dizia a esposa de Jim. A frase será um dos motores de sua decisão, que consiste em aceitar o convite dos marcianos e embarcar na nave deles. Enquanto a nave sobe e seu corpo vai sendo congelado, ele recapitula uma série de momentos marcantes. Uma das imagens é a de um cartaz com a esposa, espécie de propaganda turística de Marte, repetição da idéia que aparece em Carlito’s Way (o personagem de Al Pacino, próximo da morte, sonhando com o cartaz que ilustra um paraíso tropical onde ele e a mulher estão lado a lado). O caminho rumo ao desconhecido em Missão: Marte corresponde ao que Carlito’s Way trouxera por intermédio da morte iminente, ou seja, uma sensação de paz interior que leva o personagem a crer num magma aconchegante reservado por esse momento derradeiro, algo que lhe permitirá o reencontro com a amada num espaço sobre o qual o tempo não incide, ideal romântico que os dois filmes assumem sem medo.

Luiz Carlos Oliveira Jr.