Entrevista com Macário Manuel

“Na virada do milênio”, como gosta de ressaltar, Macário Manuel teve uma idéia simples, mas que está criando a  maior polêmica no meio cinematográfico, principalmente entre aqueles que vivem de escrever sobre a sétima arte. Macário Manuel resolveu criar um manual intitulado “Manual Prático da Livre Crítica Cinematográfica”, onde expõe dicas e conselhos para aqueles que pretendem “viver da crítica do alheio”. Manuel, em suas colocações, chega a comparar a crítica séria à fofoca, criando para tal o discernimento entre fofoca pessoal, voltada para a vida dos artistas, exclusivamente, e fofoca artística, que tem como foco a obra do autor, sem entretanto deixar completamente o seu foro íntimo de lado, pois, segundo o autor do livro “Tudo é Pessoal”. O livro, lançado pela editora Super-Nova, já vendeu mais de dez mil exemplares em menos de dois meses, alavancando o nome da pequena editora paulista, surpreendentemente, com um produto tão específico quanto original, por mais que se discorde de seu conteúdo. No final de setembro deste ano, Macário esteve no Rio de Janeiro para o lançamento de seu livro, o que nos possibilitou realizar a entrevista onde o autor pôde revelar as suas opiniões excêntricas e desconcertantes.

Guilherme Sarmiento – O que o levou a escrever o Manual Prático da Livre Crítica Cinematográfica? 

Macário Manuel – Foi na virada do milênio. Eu já tinha tentado escrever vários outros manuais sem sucesso, sem conseguir publicar nada. Tudo neste estilo já tinha sido publicado: manual do cafajeste, manual do pão duro, manual do solteiro, manual disso, daquilo. Foi aí que me deu um estalo assim, de repente; eu sempre fui um apaixonado pelo cinema brasileiro, sempre tive vontade de ...de escrever sobre o cinema. Desde a adolescência. Mas, na época, o cinema brasileiro estava parado; não tinha filme pra criticar. Hoje, o cinema está na moda: todo mundo voltou a fazer, mas faltava uma crítica, entende? A situação tinha se invertido. Foi aí que eu comecei a pensar no livro, juntando tudo que estava represado desde aquele tempo aqui, na minha cabeça. E acabou dando certo. 

Guilherme Sarmiento – Deu certo em que sentido?

 Macário Manuel – Do que adianta ter cinema se ninguém fala nele? O cinema precisa da crítica como a crítica precisa do cinema. Isso é óbvio. Percebi que tinha uma lacuna aí. E o mais importante é que as pessoas, todo mundo tem um quê de crítico, como todo mundo tem um quê de técnico da seleção brasileira... 

Guilherme Sarmiento – Quer dizer que você já imaginava a repercussão do livro? 

Macário Manuel – Nunca  Pelo menos desse jeito, não. Quando eu cheguei na editora, com os originais, seu Carlos Murillo da Costa (Dono da editora Super-Nova) não ficou muito animado. Achava que o cinema era um assunto muito elitizado, que aquilo não tinha o perfil da editora. Realmente, a primeira versão do manual era muito mais, como vou dizer...intelectualizada. Mas eu disse prá ele que podia reescrever tudo em uma semana. Foi o que fiz. Uma semana depois tinha tornado o manual mais leve, com uma linguagem acessível a todos.

 Guilherme Sarmiento – Você acredita que , independente da formação, todos podem fazer uma crítica confiável?

 Macário Manuel – Claro. Se eu não acreditasse não teria escrito o manual. Veja: a crítica tem de ser desmistificada. Como eu disse, ela existe em todas as camadas sociais. Todo mundo, depois de assistir a um filme, critica depois da sessão de cinema, de teatro, de música, seja com sua namorada, com seu amigo... Ali, já existe o que eu defino como micro-crítica. Todas as críticas são válidas e tem uma certa consistência, ainda que sejam completamente parciais. Por isso que meu livro se tornou um sucesso: as pessoas querem criticar mais e melhor. 

Guilherme Sarmiento – Mas você não acha que, comparar críticos a fofoqueiros é demais? Não acha que existe uma diferença entre um trabalho sério e um boato maldoso, feito no âmbito da vida pessoal? 

Macário Manuel – Claro. Por isso eu diferenciei fofoca pessoal de fofoca artística. Veja, eu estou sendo muito criticado por isso, mas foi a forma de me fazer entender pelo público em geral. Mas se você ver bem, a obra e a pessoa são a mesma coisa. Tudo, de uma certa forma, é pessoal. Quando você faz uma crítica negativa ao filme, você, de uma certa forma está atingindo o seu autor, ainda que não seja pelo viés da moral.  Eu uso muito uma situação que aconteceu com o cineasta Hector Babenco quando apresentou seu filme em Cannes Coração Iluminado e o filme foi vaiado pela platéia. Ele disse, foi assim que  ele disse, que sentiu que sua vida inteira tinha sido apedrejada, não somente o seu filme... Na verdade, o que fizemos com o livro foi fazer o véu da hipocrisia cair. Há uma linha muito tênue que separa Nelson Rubens de qualquer crítico que se diz sério. No final das contas, tudo é vontade de dizer sobre o alheio. 

Guilherme Sarmiento – Mas qual a diferença entre fofoca pessoal e artística?

 Macário Manuel – A fofoca pessoal atinge diretamente a pessoa. Um exemplo direto: Martin Scorsese comeu Winona Rider. Já a fofoca artística, que representa o trabalho da crítica, é indireta. Diz assim: a cena romântica do novo filme de Scorsese foi inspirada em sua paixão por Winona Rider, sacou a diferença? A primeira é seca, direta e pessoal. A segunda interpreta os elementos estéticos do filme através de uma comparação alusiva a vida do artista. A fofoca artística é que é incentivada em nosso manual. Não somos levianos. 

Guilherme Sarmiento – Mas e as outras motivações, as que são fundamentais dentro da obra artística? Você só considera as relações empíricas do autor com a obra? Existem outras motivações... 

Macário Manuel – As outras motivações são muito subjetivas. O manual quer democratizar a crítica. Nada de complicar. Eu estabeleço uma trindade da fofoca artística que para mim é fundamental na hora de analisar um filme que é o pai, o filho e a mulher. Daí saem todas as motivações do autor: a relação do autor com o pai(ou com a mãe), a relação dele com as mulheres e a com os filhos, se um dia eles tiveram filhos, ou mulheres ou pais. Mas a falta também é um objeto fundamental do fofocar artístico. A única coisa que não vale aqui é o espírito santo. Ou qualquer manifestação de cunho filosófico e obscurantista.

 Guilherme Sarmiento – E as referências a outros autores? Quando você pega um filme de Woody Allen, por exemplo, que é cheio de referências cinematográficas, citações a Bergman, a Buñuel...?

 Macário Manuel – Tudo bem. Woody Allen cita Bergman. Mas Bergman citou quem? O que o motivou a criar aquela cena? Ou foi o pai, ou a mulher ou o filho, não resta dúvida. No final das contas, Woody Allen está, por tabela, projetando um drama de outro, que usufruiu da trindade. Não há como escapar.  Para a Nova crítica, a fofoca  artística, o que o cineasta leu, o que o cineasta viu, não interessa tanto assim. Sou muito pragmático nesse sentido. 

Guilherme Sarmiento – O seu livro tem sido muito criticado pelo meio cinematográfico. A que se deve isso?

 Macário Manuel – Eu já estava preparado para essa reação. A minha idéia era disseminar ao máximo o poder da crítica cinematográfica. Os críticos profissionais sentiram-se ameaçados, pois a crítica especializada precisa de pessoas sem nenhuma opinião, afinal de contas, eles querem todo o crédito de sua formação: são os formadores de opinião por excelência. Imagine quando este crítico se depara com um público com uma opinião própria sobre o filme? Olha, depois que o meu livro se tornou um best-seller, as pessoas comuns começaram a freqüentar as sessões de imprensa. Lotar as pequeninas salas onde antes, só alguns eleitos poderiam entrar...A Warner teve que controlar mais a entrada, poque aposentados, que tinham algum informativo, estudantes que tinham algum zine, folha, revista, todo mundo queria entrar e fazer sua própria crítica, de primeira mão... 

Guilherme Sarmiento – Isso causou um certo tumulto...

 Macário Manuel – Um crítico de um grande jornal, que eu não vou dizer o nome, exagerou ao falar em tumulto. O que houve foi uma democratização das informações sobre aquele tipo de sessão, que as pessoas, vamos dizer, leigas, não se davam conta que existia. Quando o desejo do fofocar artístico foi disseminado, os leitores do meu livro foram despertados para as segregadoras sessões exibidas para a crítica especializada. Pegaram seus bloquinhos de anotações e foram à luta, sem saber que enfrentariam muitos e humilhantes preconceitos. No meu livro eu digo que a primeira motivação do ser crítico é a vaidade de dizer primeiro. Para dizer primeiro, é preciso assistir antes de todos, de poder ver o filme primeiro. Essa obsessão é algo tremendamente saudável para o fofocar artístico original. Um leitor meu, empolgado com a dica, insatisfeito de freqüentar clandestinamente as concorridas sessões brasileiras, passou a assistir as premières diretamente na fonte. Quando sabe da estréia de algum filme americano de um diretor famoso, vai para Nova York e assiste tranqüilamente seu filme lá, podendo dizer primeiro depois no Brasil. Mas e aqueles que querem exercitar sua originalidade crítica e não possuem condições de viajar para os Estados Unidos? 

Guilherme Sarmiento – Segundo o assessor de imprensa de uma distribuidora  americana no Brasil, o número de penetras praticamente triplicou este ano. Alguns deles chegam a apresentar carteiras e crachás falsificados para entrar nas sessões da imprensa. Você incentiva em seu livro ações ilegais? 

Macário Manuel – Jamais. As pessoas que cometem esse tipo de delito fazem por conta própria. 

Guilherme Sarmiento – Na página 57 do manual você incentiva o uso de crachás... 

Macário Manuel – O uso de crachás, sim, mas não falsificados. Eu incentivo o fofoqueiro artístico a criar um zine ou um site, qualquer coisa que legitime sua ação antes de freqüentar as sessões de imprensa. No crachá ele colocará o nome da organização a que pertence. É claro que muitas dessas marcas não são registradas, afinal, estamos lidando com pessoas que não são profissionais na acepção clássica da palavra... 

Guilherme Sarmiento – Isso quer dizer que aquelas pessoas não estão autorizadas a assistir aquele tipo de sessão. De um jeito ou de outro a ação é ilegal. 

Macário Manuel – Bom, de qualquer jeito as distribuidoras passaram a proibir a entrada dos pequenos críticos de fundo de quintal. Esse tipo de atitude só coibe o livre pensar crítico, na minha opinião. Toda uma geração de novos fofoqueiros artísticos está sendo comprometida por essa ação que, para mim, nada mais é que uma reação da imprensa muito mais do que das distribuidoras. Como eu disse, os jornalistas sentiram-se acuados pela multidão cada vez maior de desautorizados em seu reduto exclusivo, invadindo o seu território.  

Guilherme Sarmiento –Você  acha mesmo? 

Macário Manuel – Para você ter uma idéia do que eu estou falando, vou contar uma história que aconteceu  com uma leitora do manual que freqüentava uma dessas sessões, na época em que a entrada era mais flexível, antes das denúncias saídas na grande imprensa. Ela disse que, depois da sessão, entabulou uma conversa com um crítico profissional no elevador. Ele a olhava com desconfiança e, como não conseguia identificar o nome da empresa em seu crachá – no seu crachá estava escrito Faxinascópio – perguntou para que jornal ou revista ela trabalhava e ela lhe respondeu que era fofoqueira artística de um jornal produzido pelo sindicato das empregadas domésticas. O crítico, claro, logo percebeu que ali estava uma “penetra” e, com ares de superioridade, pediu que ela lhe mostrasse o seu bloquinho onde havia anotado todas as suas impressões sobre o filme. Na maior ingenuidade a senhora mostrou. Ele olhou com aqueles dois olhos e, depois de ter pago algumas cervejas para ela saiu, sem mais nem menos. Na sexta-feira daquela semana, a crítica do jornalista, publicada num jornal de alcance nacional, era um plágio descarado do que a senhora tinha escrito... 

Guilherme Sarmiento – As impressões sobre um mesmo filme podem coincidir... 

Macário Manuel – Mesmo que fosse uma coincidência. Isso só prova que os fofoqueiros artísticos formados pelo manual são de primeira qualidade. Eu estou preparando um outro livro agora com o material produzido pelos fofoqueiros, que vai se chamar Comparando e Aprendendo, onde eu comparo a crítica séria produzida na mesma época em que os fofoqueiros artísticos estavam atuando livremente tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro. A semelhança de uma para outra é impressionante. Tem hora em que a fofoca artística produzida pela gente supera até a crítica mais séria publicada no país.

Guilherme Sarmiento – Quais são as outras dicas que você dá para os “fofoqueiros artísticos”? 

Macário Manuel – Um capítulo que eu acho muito interessante do livro é a análise de filmes que são baseados em obras literárias. Eu chamo a atenção do fofoqueiro artístico na hora de assistir a estes filmes, para ter um cuidado especial na hora de ler o cartaz que diz quando o filme é livremente inspirado pelo livro tal ou quando o livro é baseado no livro tal. Essa diferença aparentemente banal implicará na revisão metodológica da fofoca artística. 

Guilherme Sarmiento – Como assim? 

Macário Manuel O livremente inspirado faz com que o livro não precise ser lido. É só começar a crítica fazendo uma referência nominal a obra literária para depois partir para a análise da trindade crítica pai, filho, mulher ou a falta. O livro, para a livre adaptação, é um simples detalhe. 

Guilherme Sarmiento – Mas para o filme que é baseado? A leitura do livro é estimulada? 

Macário Manuel – Nesse caso, uma rápida olhada na orelha do livro é recomendada. Como eu já disse, a leitura, para o fofocar artístico, não é fundamental. Estamos lidando com pessoas que usam a crítica como um hobby, que trabalham e não tem dinheiro para gastar com livros e cinema ao mesmo tempo. Eu sugiro ao fofoqueiro artístico que vá numa dessas livrarias modernas, peça um cafezinho expresso e leia a orelha do livro em que o filme é baseado. Depois, vá ao cinema com seu bloquinho que a crítica sairá naturalmente, como se saísse de sua própria boca. Simples, prático e barato. 

Guilherme Sarmiento – Mais alguma coisa? 

Macário Manuel – Para a crítica ficar mais instigante, eu sugiro que ela comece afirmativa do tipo: Madame Satã é uma obra-prima. No meio do texto é legal  colocar uma baixada de bola do tipo: Madame Satã poderia ser perfeito se...Se, até o final da redação da fofoca artística você não mudou ainda sua idéia sobre o filme, é só repetir a frase inicial com um ponto de exclamação e terminar a crítica. Se você mudou de idéia, termine com um ponto de interrogação. Os críticos admiram a humildade de uma correção, sobretudo, admiram a falta de opinião, afinal de contas, a dúvida é bem mais sofisticada do que a certeza. 

Guilherme Sarmiento – Bem, senhor Macário Manuel, infelizmente temos que terminar nossa entrevista. Um compromisso nos espera e.... 

Macário Manuel – Vão assistir ao novo filme de Godard? Infelizmente não fui convidado. Hoje em dia sou persona non grata nas sessões de imprensa de todo o Brasil. É o preço que tenho de pagar pelo meu sucesso... 

Guilherme Sarmiento –Cor?  

Macário Manuel – Azul marinho. 

Guilherme Sarmiento – Amar é... 

Macário Manuel – Ouvir a crítica sem criticar. 

Guilherme Sarmiento – Qual é sua maior qualidade? 

Macário Manuel – Tolerância. 

Guilherme Sarmiento – Seu maior defeito. 

Macário Manuel – Sou um pouco fofoqueiro. 

Guilherme Sarmiento –Quem  você deixaria numa ilha deserta? 

Macário Manuel –Todos aqueles que não possuem auto-crítica. 

Guilherme Sarmiento –Uma última mensagem aos seus leitores.

Macário Manuel – Continuem o fofocar artístico, resistam. O futuro será daqueles que melhor interpretarem os sonhos.

texto por Gulherme Sarmiento