Loulou, de Maurice Pialat

Loulou, França, 1980, 110', cor

HOMENAGEM A MAURICE PIALAT (2): LOULOU


Gérard Depardieu e Isabelle Huppert em Loulou de Maurice Pialat

Sinopse
Casada há três anos, Nelly é o modelo perfeito de uma esposa de classe média. Isso até que ela decide deixar seu possessivo marido pelo imprevisível Loulou, um malandro de rua que passa a viver unicamente do dinheiro dela. Juntos, os dois vivem uma vida amorosa intensa e atribulada. Apesar de se amarem muito, não conseguem ficar sem brigar por muito tempo. Aos poucos, Loulou volta a suas atividades no crime e convence sua companheira a ajudá-lo num roubo. Com a gravidez de Nelly, o relacionamento dos dois precisa ficar mais claro: desabrochar ou acabar.

Direção: Maurice Pialat
Roteiro: Maurice Pialat e Arlette Langmann
Fotografia: Pierre-William Glenn et Jacques Loiseleux
Montagem: J.-R. Fiesler
Música: Philippe Sarde
Com: Isabelle Huppert (Nelly), Gérard Depardieu (Loulou), Guy Marchand (André), Humbert Balsan (Michel), Jacqueline Dufranne (Memere)

Pialat e a nouvelle vague

No fim do ano de 1998, a redação dos Cahiers du Cinéma reuniu quatro dos mais importantes realizadores franceses revelados nos anos 90 para discutir a influência da nouvelle vague sobre o novo cinema francês. Curiosamente, o nome mais reivindicado e discutido foi de um cineasta que não era do período: Maurice Pialat. Continuando nossa homenagem ao autor de Aos Nossos Amores e Van Gogh, publicamos aqui um trecho do debate com os realizadores Cédric Kahn (O Tédio), Claire Denis (Noites Sem Dormir, Nenette e Boni, Bom Trabalho, Desejo Insaciável, Sexta à Noite), Noémie Lvovsky (Oublie-moi) e Olivier Assayas (Água Fria, Irma Vep, Fim de Agosto, Começo de Setembro, demonlover). A íntegra do debate está na edição especial "Nouvelle vague, une légende en question" dos Cahiers du Cinéma, janeiro de 1999.

* * *

Cédric Kahn: Foram os filmes de Pialat que me impressionaram, sobretudo. Eu não devo ser o único, pois ele exerce uma enorme influência em todos os jovens cineastas... Ele sempre foi muito oposto à nouvelle vague. Entretanto, vemos em seus filmes essa mesma liberdade, essa idéia do personagem... Por que ele não faz parte da nouvelle vague, se ele sempre sentiu-se excluído?

Noémie Lvovsky: Truffaut produziu A Infância Nua!

Biograficamente, ele não faz parte. Ele começou depois... Ele sempre se acreditou à margem do grupo da nouvelle vague, no modo da aspereza e do ressentimento. Durante muito tempo, o falso cineasta maldito foi Godard, enquanto o verdadeiro ignorado, injustamente esquecido, era ele. O que não é mais o caso hoje.

C. Kahn: Na minha adolescência, ver Loulou e Aos Nossos Amores foi realmente um choque.

Mas isso foi em 80/83!

C. Kahn: Foi a época em que eu tinha quinze anos (risos).

N. Lvovsky: Eu tenho uma teoria (risos). Os dois primeiros autores que eu conheci foram Truffaut e Pialat. Os filmes de Pialat me comoviam mas não me faziam amar o cinema. Enquanto os filmes de Truffaut faziam isso comigo: amar a luz que se apaga, ver as coisas mexerem numa tela. Os de Pialat jamais me fizeram amar estar sentada numa sala de cinema... Eu compreendi o porquê quando Arnaud Desplechin (cineasta francês dentre os mais renomados dos anos 90, autor de A Sentinela [1992] e Esther Kahn [2000], ndt) me disse que Pialat procurava retirar o autor de seus filmes. Da mesma forma, ele quer esvaziar os atores de seus hábitos de ator e de seus personagens, os roteiros de seu roteirista; e no fim das contas, ele quer esvaziar os filmes de si mesmo. Logo, eu jamais tive tanto a impressão de ver desespero, amor ou ódio, como num bloco. Como se ele pudesse verdadeiramente tocar os sentimentos que nós conhecemos na vida. Em seus filmes, só permanece isso...

C. Kahn: O instrumento desaparece completamente e ele atinge uma maior liberdade.

N. Lvovsky: Há uns dez anos, eu tive grandes discussões sobre literatura com Arnaud. Ele preferia Stendhal a Flaubert. Para mim, Flaubert é melhor, porque ele se esvazia, ele se perde. Ele se aproxima de algo indizível, de puro. Arnaud zombava de mim, me dizia: "Oh, a pureza da literatura!" Talvez Pialat tenha algo a ver com isso...

Pialat tem um fundo naturalista que, efetivamente, a nouvelle vague não tinha. Falo de naturalismo em termos estéticos, literários. Pialat "raspa" o olhar sobre, e vai procurar a natureza própria do gesto humano. Você nunca encontra isso em Godard, onde tudo é forma, linguagem.

Claire Denis: Eu gosto um bocado da teoria da Noémie, mas acredito que essa vontade de se desfazer das ferramentas, de se aproximar de alguma coisa "raspando" o autor, o roteiro... é no fundo uma tentativa de pacto através do filme. Esse pacto não traz o gozo de uma forma finalizada, mas permanece na própria essência do cinema. O personagem não é esvaziado, mas investido. Se opusermos Stendhal a Flaubert, diremos que a essência do personagem é Madame Bovary. Essa teoria volta...

Olivier Assayas: Eu não concordo. Primeiro porque eu não consigo, nem mentalmente, a opor Flaubert e Stendhal. Eu entendo o que você quer dizer, mas são para mim duas obras imensas, que foram importantes de formas diferentes e complementares. Da mesma forma, não vejo oposição profunda entre a obra de Pialat e a nouvelle vague. Em Godard, encontramos essa mesma vontade de ir além do cinema, de fazer mais, melhor do que aquilo que o cinema sabe fazer. Falamos de Pialat porque, num dado momento, ele entreviu essa possibilidade, ele foi procurar essa verdade com uma potência impressionante, que lhe permitiu deslocar fronteiras. Mas Godard sempre se coloca essa questão: como ir além do cinema?

N. Lvovsky: Godard quer ir mais além, mas sem jamais conhecer o desgosto do cinema...

O. Assayas: Ele inventa sua própria forma. Tenho uma admiração absoluta por Pialat, seu cinema pára ali onde não se pode fazer diferente. Há uma obra que não é o real. Não se pode dizer: "Pialat é o real". É um artista imenso que entendeu coisas que outros talvez não entenderam...

N. Lvovsky: ...os filmes de Truffaut têm um valor de uso, os de Pialat, eu tenho uma certa desconfiança de aluna. Eu só posso ser espectadora, me comover. Não consigo comparar seus filmes, estudá-los... São blocos.

C. Denis: Mas você os estudou, porque você fala de coisas como esvaziar ou encher... Eu retomo a minha idéia de dois campos, o personagem e a ficção. A partir daí, há aqueles que, com o cinema, tentam esvaziar ou encher. Podemos encontrar os dois casos, como em Jean Renoir. Não gosto de todos os seus filmes, mas ele realizou filmes de "esvaziamento", como A Besta Humana ou A Cadela. Esses filmes, ninguém consegue mais refazer. Estamos diante de uma experiência de vida, que está além da técnica de cinema. Nesses dois filmes de Renoir, eu vi alguma coisa que vi nos filmes de Pialat. A pulsão do suicídio, do crime, do amor...

C. Kahn: Truffaut jamais se desfez da ficção. Tenho a impressão que os cineastas no começo da nouvelle vague não se encaixam muito com o que se disse durante a nouvelle vague. O eco é mais sensível no cinema de Pialat do que no de Chabrol...

O. Assayas: Mas falamos agora da prática do filme. Acho que não existe contradição entre o que aconteceu durante a nouvelle vague e a maneira com a qual Pialat faz seu cinema. Podemos até pensar que as grandes obras da nouvelle vague foram realizadas mais tarde, por Pialat ou Eustache... De uma certa forma, Pialat tem vontade de ser o único cineasta possível. Os colega da nouvelle vague abriram uma via, e através dela pôde-se fazer certas coisas. De qualquer forma, os cineastas da nouvelle vague não têm nada em comum: não podemos comparar Godard e Chabrol, Resnais e Rohmer. Ou falamos da nouvelle vague como uma nova maneira de praticar cinema, abrindo a possibilidade a coisas completamente contraditórias ou complementares, ou falamos da prática do cinema para os diretores que fizeram a nouvelle vague. Se vira um debate sobre os indivíduos, é diferente.

C. Kahn: Quando se alarga o debate, a gente se dá conta talvez de que a nouvelle vague não foi um momento tão importante. Estamos fazendo laços entre Renoir e Pialat: há pontos acima da nouvelle vague.

N. Lvovsky: Nos filmes da nouvelle vague, há alguma coisa de lúdico, mas não nos filmes de Pialat. O que não é um defeito. Os filmes de nouvelle vague que eu conheço me dão uma espécie de alegria. Quando eu vejo o Conto de Outono de Rohmer, eu aprendo pequenas coisas, para mais tarde, na vida. Quando eu vejo Van Gogh, o peso do filme é enorme, existencial, menos lúdico.

O que você diz faz sentido, mas existe na nouvelle vague alguma coisa de tom grave também.

C. Denis: Beber um café com alguém por quem a gente está apaixonado, isso é de tom grave para mim (risos). O encontro entre esse homem e essa mulher em O Pequeno Soldado exprime algo muito forte sobre a época em que eu era adolescente. Esse filme atinge essas regiões que você fala a respeito de Pialat.

O. Assayas: Noémie cita os últimos filmes de Rohmer, que são para mim obras de absoluta plenitude, da mesma forma que Van Gogh. Isso não se expressa da mesma maneira, mas são dois cineastas que tocam em coisas que eles sempre pesquisaram, com uma espécie de grandeza, de simplicidade e de evidência. Eu partilho muitas coisas com você a respeito de Pialat. Van Gogh é um filme extremamente intimidante, saímos dele esperando alguma vez na vida fazer alguma coisa parecida com aquilo. Dizemos que o cinema pode chegar àquilo. Mas é numa simplicidade e numa claridade totais. Não nas brumas metafísicas, mas ao contrário, no humano mais simples, mais partilhável...

N. Lvovsky: Quando Van Gogh morre... Ele está no leito, deitado em forma de "S". Que caminho para fazer Dutronc (Jacques, intérprete de Van Gogh, ndt) deitado dessa forma! Certamente não se trata da mesma pesquisa que faz Rohmer.

O. Assayas: Mas eu não estou comparando!

C. Denis: Não se pode comparar Péguy e Bernanos, eles não vão pelo mesmo caminho. Péguy descobre a graça nos campos de trigo, mesmo com a guerra de 14. Em contrapartida, para onde Bernanos foi – e que Pialat encontrou em Sob o Sol de Satã –, não dá pra ir todo dia...

Cédric, você é entre os quatro o que parece mais ter a relação mais interrogativa com a nouvelle vague.

C. Denis: Entretanto, seu filme O Tédio fala por si só...

Nem que seja em relação a O Desprezo, também de Alberto Moravia

C. Kahn: Os cineastas que me interessam mais são os contemporâneos da nouvelle vague: Rozier, Eustache, Pialat... Adoro alguns filmes de Truffaut, de Rohmer, mas eles não são modelos para mim. Mas não precisa dizer isso a eles (risos).

O. Assayas: Eu não acredito que eles sejam modelos para ninguém...

C. Kahn: Se a nouvelle vague é importante para o cinema, é porque nos damos conta que ela só diz respeito ao cinema. É seu limite. A experiência de cada um no seio da nouvelle vague foi mais forte do que um movimento coletivo de partida. Pois um cineasta conduz mais ou menos uma experiência pessoal. O movimento coletivo deu algo de forte, mas que atingiu rápido demais seus limites. Os filmes tornam-se um pouco mais do que filmes, unicamente em razão desse percurso pessoal. É impressionante a que ponto a oposição entre Pialat e a nouvelle vague criou esse debate.

N. Lvovsky: Nos filmes da nouvelle vague, existe essa vontade de fazer um filme depois do outro, uma idéia de progresso. Um filme de Pialat é como o último. O caminho se faz no interior de um único e mesmo filme, e de um filme a outro para os cineastas da nouvelle vague. É nesse sentido que seus filems têm um valor de uso.

Um dia, Godard disse que mais ou menos isso: nós pertencemos ao cinema, mas Pialat não. O que é muito injusto, mas não é completamente falso. Pialat se aproximou tardiamente do cinema, e ele fez filmes de maneira mais caótica. No total, isso dará uma obra...

C. Kahn: ...talvez ele tocou mais profundamente a quintessência do cinema...

...não se pode dizer isso...

C. Kahn: ...é uma consideração pessoal, mas para mim, pode-se sim...

...não acredito. Se você observa um certo período da obra de Chabrol, A Mulher Infiel, A Besta Deve Morrer, esses filmes mantêm um cara-a-cara com os filmes de Pialat. Os cineastas da nouvelle vague estudaram o cinema, eles sabiam o que era uma carreira de cineasta. Eles conheciam melhor as regras do espetáculo do que Pialat que, justamente, sempre se zombou disso. Eles queriam durar. Quando Truffaut faz Os Incompreendidos, ele sabe que fará outra coisa logo depois. Eles encontram a matéria, os temas, a energia para continuar, enquanto Pialat joga tudo num só filme... Ele se autodestrói nos filmes e demora dez anos para se recuperar.

C. Denis: O que me parece importante se situa na relação dos cineastas da nouvelle vague com o dinheiro e a produção. Concordo com Noémie: para Pialat, cada um de seus filmes pode ser o último. Mas ele não tem a mesma relação com o dinheiro. Em contrapartida, a nouvelle vague pensava na sua economia. Truffaut fundou os Films du Carrosse, depois tornou-se produtor. Godard não se tornou produtor mas tem sua produtora; sobretudo, ele captou o processo de dinheiro em seu cinema. Chabrol, ao contrário, sempre precisou ser convidado por um produtor. Pialat se autodestrói igualmente em seus relacionamentos com os produtores. O dinheiro e o sexo são coisas importantes para definir a nouvelle vague... Um sujeito como Fassbinder também se constituiu assim.

O. Assayas: Esta discussão está ultrapassando a questão da nouvelle vague. Falamos desde o começo de percursos de artistas diferentes. Existem aqueles que escolhem a obra, outros escolhem o objeto. Proust coloca o mundo numa obra, ele esmaga o século e nada consegue estar em pé de igualdade... Ao mesmo tempo, as pessoas se esquecem de obras extraordinárias. Eu não sei se Jean Eustache é um cineasta tão importante quanto os da nouvelle vague. Mas eles realizaram um filme tão importante quanto La Maman et la Putain? São perguntas que a gente pode fazer... Garrel é um artista da mesma essência de Pialat: ele se incendeia em seu cinema, ao mesmo tempo construindo sua obra numa continuidade, com suas rupturas, sua evolução. Eu só acredito na obra: de um cineasta, eu gosto dos filmes que dão certo e os que fracassam. Na verdade, eu gosto dos indivíduos. Tenho uma espécie de solidariedade com um autor de quem eu gosto; algumas coisas podem me tocar mais ainda nos filmes em que ele não vai bem.

Os caras da nouvelle vague escreveram isso nos anos 50...

O. Assayas: É verdade. Hoje, a crítica midiática de cinema só se interessa pelos objetos, ela é um guia de consumo.

Apresentação: Ruy Gardnier. Convidado: Pedro Butcher (Folha de São Paulo, Filme B). Tradução e textos: Ruy Gardnier. Programação: Grupo Estação e Contracampo.