Os Heróis Trapalhões,
de José Alvarenga Junior


Brasil, 1988


Um dos responsáveis pela última fase estética dos filmes trapalhônicos, José Alvarenga Jr. é nome recorrente na decadência cinematográfica do grupo (no final da década de 80). Após o fraco desempenho relativo de o Auto da Compadecida (dirigido por Roberto Farias em 1987), uma série de filmes de apelo televisivo direto e tramas simplórias são realizados – como uma fracassada tentativa de renovação estética e dinamização de suas narrativas – dos quais, 5 são dirigidos por Alvarenga.

Deixando de lado a tradição circense (explorada marcadamente pela última vez em 1985 com O Reino da Fantasia) ou a vertente social-engajada (deixada para trás junto com a ditadura militar), Os Trapalhões renegam grande parte de suas virtudes em prol de um projeto de aglutinação cruelmente submissa de objetos televisivos  – como nunca antes havia acontecido.

A sintonia de paródia se esmaece e passa a dividir a tela com espécies de imitações/citações de filmes e figuras de sucesso do circo midiático. A aparição da boyband Os Dominós em Os Heróis Trapalhões nada tem a ver com o jogo debochado estabelecido no originário Na Onda do Iê-Iê-Iê – aqui, Angélica e Dominós não são alvo de comentários narrativos ou brincadeiras mambembes (como de alguma forma ainda esteve presente em Os Fantasma Trapalhões de J.B. Tanko, 1987). Não; os pop-stars do momento são inseridos sem qualquer referencialidade estética sobre a narrativa e funcionam como chamariz simplesmente. Como dito antes: muletas midiáticas para o desafio da divulgação dos filmes. Por outro lado, utilizam-se dOs Trapalhões como escadas para a sua popularização junto ao público infantil.

Outro elemento significativo é a perda das funcionalidades internas dos personagens, com Didi aglutinando o papel de Dedé e do Mocinho, e perdendo as características chaplinianas e solitárias que marcaram a ascensão de sua carreira. O Didi de Os Heróis é a imagem dessa perda: o corpo malhado (apesar da idade), os super-poderes conquistados por uma predestinação divina, e um ar de consciência de suas atitudes que desconstrói o lugar do vagabundo e do improviso (deixando de lado o caráter patético de suas atitudes).

Dedé, Mussum e Zacarias, os “outros Trapalhões”, ainda colocados num patamar de interação cômica, estão dessintonizados dessa “levada pop”, transformados em coadjuvantes menores, quase um núcleo cômico dentro de um filme de “aventura barata” protagonizado pelo ídolo Didi. O jogo de citações vai aos poucos perdendo espaço para a imitação precária e o desfile de rostos – (é interessante marcar a influência das parcerias que viriam surgir com os filmes da Xuxa).

Com um encaminhamento narrativo totalmente submetido à necessidade de se contar uma história de ação e aventura (lembrando um dos problemas do clássico Os Trapalhões na Guerra dos Planetas), sobra muito pouco espaço para os jogos corporais e as gags que caracterizavam o quarteto. Restam algumas poucas tiradas (como quando o vilão se espanta ao descobrir que seu adversário é “aquele paraibinha ali...”) que funcionam como pequenas pontuações induzidas. O filme não mais embarca no universo trapalhônico, serve-se dele, apenas, para salpicar seu roteiro pouco inspirado com um tipo de humor mambembe que não quer assumir em sua estrutura.

Uma vaga lembrança do que já havia sido a força de sua liberdade circense, Os Heróis é o ápice da decadência estética que iria se decalcar lentamente (com mais ou menos intensidade) nos últimos 7 filmes do grupo (até 1991).

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Dentre os 10 títulos lançados nessa coleção de DVDs, esse é, com certeza, o filme mais fraco e menos fiel a seus personagens –  e que maior contraste estabelece com os grandes êxitos da década de 70 e início dos anos 80.

Felipe Bragança