Entrevista com Carlos Reichenbach

Você foi um dos cineastas mais estratégicos (comercialmente falando) da leva dita "marginal". Falo isto lembrando obviamente da sua parceria com o Galante nos anos 70 e 80. Hoje, como você consegue o financiamento para seus projetos? E qual conselho você daria para os novos cineastas com projetos mais alternativos?

A verdade é que eu sempre fui meu próprio produtor; desde 21 anos de idade quando saí da Escola Superior de Cinema São Luiz para fundar uma produtora (a Xanadu) com o colega de faculdade João Callegaro e o crítico mineiro Antonio Lima. A Xanadu produziu As Libertinas, filme em 3 episódios, Audácia!, filme em dois episódios, e O Pornógrafo, a obra-prima de (João) Callegaro. Depois da Xanadú, eu acabei sócio de uma produtora de filmes publicitários de grande porte, a Jota Filmes; lá, após ter passado pela experiência mais árdua da minha vida (ter que conviver diariamente com aquela gente esquisita da publicidade) acabei realizando aquele que considero um dos meus melhores filmes, Lilian M., Relatório Confidencial. Este longa metragem foi produzido com a raspa de tacho da minha herança paterna, um monte de "papagaios" na praça e a sucata de cenário, objetos de cena e algumas sobras de negativos dos filmes de publicidade da Jota Filmes. Em Lilian M, fui o produtor único, roteirista, diretor, operador de câmera, diretor de fotografia, autor da trilha sonora, etc. Como sempre fiz em todos os meus filmes, só não abri mão do montador: no caso, o crítico e escritor Inácio Araújo. Minha experiência empresarial na publicidade quase redundou em concordata. Quando saí da Jota Filmes, vivi alguns dos melhores anos da minha vida. Fui trabalhar na Boca-do-Lixo como diretor de fotografia de filmes alheios (foram quase 30 longas metragens fotografados para terceiros). Não trocaria o convívio sincero e libertário com o pessoal da Boca-do-Lixo (em especial, a turma do cinema primitivo e popular) por nenhuma fortuna advinda do cinema publicitário. Saí da Jota Filmes em 75 e logo iniciei uma parceria (fundamentada na amizade) com o Galante Ele produzia os filmes com o dinheiro dos exibidores e eu escrevia, dirigia e fotografava em ritmo de urgência. Para você ter uma idéia, eu estava na terceira semana de filmagem de A Ilha dos Prazeres Proibidos, em Peruíbe (litoral de São Paulo) quando o Galante telefonou para o hotel avisando que tinha acabado de assinar um contrato para a estréia do filme, no cine Marabá, daqui a sessenta e cinco dias!!!!! E assim foi, sem nenhum dia de atraso. Na seqüência, fiz dois longas metragens em regime de produção coletiva; um deles, Amor, Palavra Prostituta, juntou Eder Mazini, Cláudio Cunha, Jean Garret, Alfredo Cohen, a Fama Filmes e eu. O filme foi rodado com negativo vencido, duas kombis e uma equipe de quinze pessoas, contando os atores centrais. Ficou dois anos interditado na censura por mostrar sangue menstrual e ser a favor da liberação do aborto. Quando foi lançado nos cinemas (com seis minutos de cortes) pagou o seu custo na primeira semana de exibição. Cláudio Cunha conta até hoje que Amor, Palavra Prostituta foi o maior furo na água em suas previsões financeiras: ele havia dado o dinheiro (do negativo vencido) como perdido, mas acabou vendo lucro no primeiro borderô. Amor, Palavra Prostituta fez furor no Festival de Rotterdam de 1984 e acabou sendo premiado pela Cinemateca Real de Bruxelas, em 1985. Fui um dos dez sócios da Embrapi, uma empresa que reunia técnicos de cinema e que produziu oito longas metragens no espaço de um ano. Nenhum dos filmes da Embrapi custou mais de 300 mil dólares. Todos eles tinham a parceria de exibidores na co-produção, o que garantia o seu bom lançamento comercial. Nesta empresa fotografei o longa do sócio Luís Castellini (Instinto Devasso) e escrevi, dirigi e fotografei Extremos do Prazer. A Embrapi tinha tudo para se tornar a maior empresa produtora de São Paulo. Aí veio o filme pornográfico e ela acabou fechando. Em 1986 fiz meu único filme produzido pela extinta Embrafilme: Filme Demência. No início dos nebulosos anos Collor eu me juntei com cinco cineastas e fundamos a Casa de Imagens. Apesar desta empresa só ter produzido meu episódio de vinte minutos no filme internacional City Life, ela serviu para pesquisar e desenvolver a idéia de pacote de filmes econômicos, projeto que foi apresentado como modelo no European Script Fund. Inclusive, a formatação básica de todos os orçamentos que são usados oficialmente até hoje foi copiada dos orçamentos da Casa de Imagens. Finalmente, em 1991, eu resolvi abrir um pequeno estúdio de música (eu estava quase mudando de profissão na época) em casa, quando fui procurado pela amiga e diretora de produção Sara Silveira. Ela tinha umas economias e se ofereceu para entrar como sócia comigo. Assim nasceu a Dezenove Som e Imagens, que nunca chegou a produzir música para terceiros. Estimulados por um concurso instituído pela Secretaria Municipal de Cultura, em São Paulo (na época a prefeita era Luiza Erundina), fomos produzir Alma Corsária. Todo esse histórico serve para dizer que no Brasil é impossível sonhar com investidores desvairados que caem do céu para oferecer dinheiro para você produzir filmes deslumbrantes. É preciso aprender a arregaçar as mangas ainda na faculdade.
Por experiência própria afirmo categoricamente que os cursos de cinema existem (ou deveriam existir) para estimular a criação e permitir que identidades se encontrem e se afinem entre si.

Aurélia Schwarzenêga conta a história de uma moça negra que namora um skinhead do ABC. Os temas deste filme – racismo, neo- nazismo etc – vieram à tona por algum motivo específico?

O filme poderia se resumir assim: "Uma linda e jovem tecelã negra, fã confessa do astro Arnold Schwarzeneger, mantém uma relação apaixonada com um neonazista do ABC". Mas não é isso. O filme trata das relações de trabalho e tempo livre de dez tecelãs; por
isso o subtítulo "Garotas do ABC". A ação transcorre em cima de três eixos centrais e narrativos: a família de Aurélia (a casa), as colegas dela (as tecelagem e o clube que freqüentam) e o bando racista que acompanha o namorado da protagonista. Nestes três
grupos trafegam vários outros personagens. O desafio do filme é que ele parte de uma premissa marxista: partir do individual para falar do coletivo. Na prática, vai dar um trabalho danado distribuir os nomes dos atores nos letreiros do filme e no cartaz porque são mais de vinte protagonistas. Nos primeiros tratamentos do roteiro, que escrevi sozinho, fui "guiado" por um intenso trabalho de pesquisa. Através da Bolsa Vitae de Artes pude dedicar oito meses da minha vida a visitar o ABC e ouvir as operárias têxteis; digo ouvir porque foi isso o que fiz, indo e voltando para o centro de São Paulo de ônibus com elas. Foi um autêntico trabalho de espionagem, claro que por uma boa causa. Quando Fernando Bonassi, o escritor, dramaturgo e cineasta, veio trabalhar comigo no roteiro definitivo nós reescrevemos todos os incidentes envolvendo os personagens masculinos e incorporamos alguns acontecimentos recentes à narrativa.

Como está a luta pelos direitos de se usar este nome, "Aurélia Schwarzenega", no título? E qual a previsão de estréia?

Nossa idéia (por enquanto) é acrescentar um sub-título, "Garotas do ABC", e assumir "Aurélia Schwarzenega". Vamos ver o que vai dar... Neste exato momento, eu e a montadora Cristina Amaral estamos concluindo o segundo corte (a primeira versão ficou com quase três horas), Nelson Ayres está compondo alguns temas musicais que não foram usados como referência na filmagem e Eduardo Santos Mendes está iniciando a edição sonora. Acredito que em maio nós tenhamos a primeira cópia.

Fale um pouco mais de Bens confiscados (sinopse, como surgiu o projeto, a participação da Betty Faria...)

Bens Confiscados é a história de um lento, cruel e gradativo processo de despersonalização de uma mulher madura, bela, forte, altruísta e independente, que se permite ser destruída, por seu poderoso amante ausente, um senador da república. É também a melancólica história de um amor quase impossível entre uma enfermeira madura e o filho bastardo de um senador, um adolescente. Bens Confiscados trata essencialmente de um momento histórico e político do país; da cultura da corrupção, do tráfico de influências e do abismo ético, mas enxergado, à distância, por personagens que jamais atravessarão "a porta da cozinha" do poder. Uma história sentimental que segue à risca as lições do escritor e ideólogo Leon Tolstoi e do falecido e extraordinário cineasta italiano Valério Zurlini, para os quais: "Toda história afetiva, essencial e intimista só se torna grande e eterna quando é contada tendo como pano de fundo um momento traumático da história do país onde ela acontece". Bens Confiscados, o protagonista central deste drama é um personagem-oculto: o senador Américo Baldani, que, como toda a eminência parda, nunca tem seu rosto revelado. É este ser humano, tão ignóbil quanto fascinante, tão torpe quanto sedutor, que irá manipular insidiosamente o destino e os sentimentos dos dois principais personagens em cena: a enfermeira Serena e o traumatizado, frágil e psicologicamente desestruturado, Luís Roberto. A personagem Serena foi concebida, desde a gênese do projeto, para a atriz Betty Faria, retomando, assim, a minha parceria com a protagonista do filme Anjos do Arrabalde (melhor filme e melhor atriz no Festival de Gramado - 87). Em Bens Confiscados, a atriz é também produtora do filme, através de sua empresa, a Supernova. A produção será realizada em parceria com a
Riofilme, a Dezenove Som e Imagens (de Sara Silveira e Carlos Reichenbach) e a Casa de Cinema, de Porto Alegre (já que o filme terá a maior parte de suas cenas filmadas no Rio Grande do Sul).
Outra parceria a ser retomada neste filme, vai me reunir novamente a Ivan Lins, que já deve estas compondo as músicas do filme. Já estão confirmadas também as participações de Werner Schünemann, Beth
Goulart, André Abujamra, e duas das atrizes que protagonizaram as "Garotas do ABC" (Aurélia Schwarzenega): Márcia de Oliveira e a gaúcha Fernanda Carvalho Leite.

E quanto a As Paulistinhas? O que você acha de filme de episódios, já que não foi das suas melhores experiências em As Libertinas?

As Paulistinhas é um projeto que nasceu da minha vontade em trabalhar junto com outros dois diretores de São Paulo: Ugo Giorgetti e André Klotzel. O engraçado é que a idéia surgiu revendo As Cariocas (1966), três histórias de Stanislau Ponte Preta, filmadas por realizadores paulistas: Roberto Santos, Walter Hugo Khouri e Fernando de Barros. Não tenho nada contra o filme em episódios, ao contrário. A questão é que quando eu filmei o meu episódio em As Libertinas (1967), eu não entendia nada de gramática cinematográfica. As Paulistinhas vai sair no dia que (finalmente) os três diretores conseguirem se reunir numa mesma ocasião. Vontade é que não falta!

O que mudou em sua concepção de cinema depois de suas pontes de safena? Não me parece coincidência você ter feito o Equilíbrio e Graça...

O projeto Equilíbrio e Graça já existia há seis anos, desde o momento que produzi Olhar e Sensação, um curta metragem que realizei por ocasião do evento multimídia "Arte-Cidade". Sempre o enxerguei como parte de um tríptico; três filmes conceituais sobre a inspiração. Falta filmar o terceiro destes curtas Arquitetura e Fineza, sobre a criação imóvel e o sentido da permanência na arte. O que eu trouxe da experiência cardíaca para Equilíbrio e Graça foi a concepção pictórica, o meu fascínio por Odilon Redon, o maior de todos os pintores simbolistas. As cores das minhas visões no leito do hospital remetiam às cores de Redon; por isso, eu pedi ao fotógrafo Jacob Solitrenick para reproduzi-las no meu curta. Mesmo correndo o risco do exagero, eu afirmo que as cores de Redon são cores de Deus.

Oriente será o projeto mais ambicioso de sua carreira. Como será misturar o Novo Evangelho com suas concepções budistas?

Eu fui internado no INCOR com seis horas para morrer. Ninguém irrompe de uma ressurreição impunemente. Foram três semanas sob o efeito da morfina, graças a um nervo deslocado na espinha por causa do choque no peito que me fez renascer. Neste período eu tive muitas visões. Sou um privilegiado porque as minhas visões vieram no sistema IMAX, Dolby Stereo Surround e Odorama. Eu jurei que um dia iria reproduzir estas visões com a minha câmera e imaginação. Pretendo fazer isso em 2004, com Oriente, quando vou transformar Dois Córregos numa novíssima Jerusalém.
Apesar de ter freqüentado assiduamente templos budistas nos anos 60, eu nunca me considerei um seguidor fiel. Minha formação religiosa foi anárquica: fui batizado como católico mas fui
educado na igreja luterana. Nos anos 60 e 70 eu freqüentei e fui fundo em todas as experiências com as várias linhas do espiritismo.
Fui e continuo sendo apaixonado por todos os poetas místicos, sobretudo Murilo Mendes e Jorge de Lima, porque são os que menos separaram a arte da vida. Embora eu raramente freqüente, tenho pela igreja católica uma admiração irrestrita porque é uma das únicas que deixa a porta permanentemente aberta. Quando no desespero ou no êxtase eu busco me isolar da humanidade, entro numa igreja ou num cemitério e espero entrar no prumo. Sempre fui um devoto do culto ao silêncio; por isso, também, a minha admiração aos budistas.
Hoje, tenho o músico Kristoff Penderecki quase como uma eferência: "Da religião não me interessam os dogmas, mas o mistério e a liturgia."

Quando você fala "de leituras heterodoxas do Novo Evangelho", o que quer dizer exatamente? Alguma semelhança com A última tentação de Cristo? O que implica pôr Jesus sendo interpretado por uma mulher?

Oriente é uma leitura ultrapessoal dos evangelhos apócrifos. Como fio condutor, narra a história de uma cineasta que vai a Dois Córregos (interior de São Paulo), com sua assistente (uma jovem recém convertida ao islamismo), um teólogo de 60 anos, e um homem simples do local com muita lição de vida a oferecer, procurar locações para seu próximo filme, "A Protestante", uma versão nada ortodoxa da infância e adolescência contestatória de Jesus, interpretada só por mulheres. A diretora atravessa uma traumática experiência emocional com a perda de um filho no segundo mês de vida. Nos locações que lhe são apresentadas, a cineasta é acometida de visões espantosas do calvário de seu Cristo feminino.
Os filmes que me suscitaram a idéia de Oriente foram Evangelho Segundo Mateus, de Pier Paolo Pasolini; Ordet, de Carl Th. Dreyer; e também, é claro, Je Vous Salue, Marie. Ao invés de Mateus, o evangelista que me interessou foi Marcos, por oferecer uma visão da história de Cristo narrada por sua mãe, Maria. No entanto, nenhum dos evangelhos se detém na adolescência de Jesus; só alguns apócrifos. Nenhum deles oferece respostas simples a questões óbvias. De qualquer maneira, mesmo os apócrifos só foram importantes para estimular a minha imaginação. Não quero realizar uma obra herética; ao contrário, quero imaginar como os nossos melhores poetas e pintores místicos retratariam, a partir de sua fé imensa, a sugestão de um Cristo feminino.

(Entrevista realizada por e-mail por Christian Caselli)