Editorial



Em Femme Fatale, Brian De Palma expõe algumas de suas mais mirabolantes imagens num filme em que conquistar o olho do espectador é o grande objetivo.
   
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fotos da edição: Fernando Duarte

Olhares de Brian De Palma. Um simples erro de digitação com seu nome nos daria, ao invés de Brian, "brain". Cérebro seria a melhor maneira de descrever o trabalho desse cineasta que desde meados dos anos 60 tentou através de seus filmes compreender os cérebros tão disparatados das irmãs siamesas em Sisters, da(o) assassina(o) em Vestida Para Matar, da menina Carrie e dos protagonistas de Síndrome de Caim? Ou será que é muito mais difícil compreender as monstruosidades não dos loucos, mas dos seres humanos ditos "normais" que conseguem realizar as crueldades inomináveis dos personagens de Pecados de Guerra ou A Fogueira das Vaidades? Qualquer que seja a resposta, no entanto, jamais vai fazer de Brian De Palma um cineasta cerebral. Seu cinema, se não é muito físico dentro da tela (o átimo de uma espera sempre valerá para ele muito mais do que meia hora de corpos lutando), mexe sempre com o físico do espectador, do pulmão em espera enquanto o suspense não acaba até o frio no estômago quando algo inesperado surge diante de nós. Continuando um pouco mais na analogia entre o corpo e as grafias, "palma" é uma pista mais verdadeira, pois ele consegue fazer com que cada imagem que vemos na tela lhe pertença, que esteja na palma de sua mão, como que já pensada muito antes mesmo de o filme ter atores, equipe técnica, iluminação, etc. Mas talvez a melhor analogia seja a mais escondida, a mais subterrânea função fisiológica que seu nome possa sugerir, e ao mesmo tempo a mais óbvia quando se vê cada um de seus filmes: o olho. É ele o grande beneficiário dessa fortuna que só existe para ele, que são as seqüências e os planos isolados desse cineasta para quem "cinema" é antes de tudo uma arte de como transformar idéias em visualidade. Num cinema como o de hoje, formatado para agradar a partir de esquemas de roteiro e de uma psicologia que em nada favorece o olho, Brian De Palma nos propõe uma outra experiência, tão táctil (palma) quanto cerebral (brain), onde os recursos expressivos dessa arte devem ser levados até o cabo, o som e a imagem. A esta última esse verdadeiro cineasta (poucas vezes esse substantivo é tão bem usado quanto para designá-lo) dedicou sua carreira, e é justo que ela lhe pague um tributo renomeando-o br(eye)an.

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Seguindo a ordem natural das coisas, você nasce, vive em família e depois vive em sociedade. Como fazer para ter as duas sem ser acusado de regressão, de criança grande? A resposta quem tem que dar é a Casa de Cinema de Porto Alegre, uma família (eles juram que não começaram como família) que se uniu, cresceu, e hoje é a mais importante companhia produtora fora do circuito Rio-São Paulo. Importante pela qualidade de sua produção (entre seus filmes está Ilha das Flores, o curta-metragem brasileiro mais importante de todos os tempos), pela sua força dentro da região (a ponto de realizar projetos inéditos como as produções regionais em plena TV aberta do Rio Grande do Sul, menina dos olhos dos movimentos contra a descentralização audiovisual) e por sua veemência política (fazem por prazer e senso de cidadania as campanhas políticas para o PT, não por leilão). No momento em que Houve Uma Vez Dois Verões, de Jorge Furtado, é lançado no Rio de Janeiro, nada mais justo do que fazer um tour pelo sul (e aqui agradecemos todos os colaboradores sulistas que toparam a idéia) e encontrar os habitantes dessa Casa tão particular.

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Melhores do ano 2002. Em todo final de ano, a lista de melhores é uma espécie de ritual no jornalismo cultural. Mais do que retrospectar o ano, as famosas listinhas ganham mais interesse se pensadas do ponto de vista da modulação final, de saber se há coesão interna dentro da revista, se há diálogo entre leitores e redatores, de jogar um pouquinho para cima os filmes que foram sub-avaliados, de esquecer um pouco de filmes que receberam talvez uma apreciação por demais favorável... Esse ano, a maior surpresa foi a semelhança entre a lista dos leitores e a dos redatores. Nada menos que sete (!) filmes figuram nas duas listas, e os que ficaram fora da lista dos leitores (Elogio ao Amor, Vou Para Casa, Tenenbaums) mesmo assim tiveram votações expressivas. Na lista dos leitores e não na dos críticos, dois filmes que dividiram a redação entre admiradores e detratores (Cidade de Deus e Lúcia e o Sexo figuram em mais de uma lista de nossos redatores) e apenas um filme que não encontra acolhida nenhuma pela equipe (Amélie Poulain). Impossível não notar a força do cinema brasileiro em 2002 com quatro filmes na lista de público e três na da crítica (além de Cidade de Deus, Edifício Master, Madame Satã e O Invasor), façanha só atingida anteriormente por Coutinho (Santo Forte e Babilônia 2000) e Sganzerla (Tudo É Brasil), em anos diferentes. O momento de declarar a importância de 2002 para o cinema brasileiro? Em fevereiro, a continuação...

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Completam a edição uma pauta retrospectiva a propósito do lançamento em DVD de diversos filmes dos Trapalhões e a voz de dois dos mais importantes cineastas do período udigrudi brasileiro no Plano Geral: Carlão Reichenbach volta a nos encontrar para uma entrevista em que fala de seus próximos projetos e Luís Rosemberg Filho nos manda dois artigos nos quais distila sua pena sempre poética e militante. Boa leitura.

Ruy Gardnier

ça

fotos da edição: Fernando Duarte