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Olhares
de Brian De Palma.
Um simples erro de digitação com seu nome nos
daria, ao invés de Brian, "brain". Cérebro
seria a melhor maneira de descrever o trabalho desse cineasta
que desde meados dos anos 60 tentou através de seus
filmes compreender os cérebros tão disparatados
das irmãs siamesas em Sisters, da(o) assassina(o)
em Vestida Para Matar, da menina Carrie e dos protagonistas
de Síndrome de Caim? Ou será que é
muito mais difícil compreender as monstruosidades não
dos loucos, mas dos seres humanos ditos "normais"
que conseguem realizar as crueldades inomináveis dos
personagens de Pecados de Guerra ou A Fogueira das
Vaidades? Qualquer que seja a resposta, no entanto, jamais
vai fazer de Brian De Palma um cineasta cerebral. Seu cinema,
se não é muito físico dentro da tela
(o átimo de uma espera sempre valerá para ele
muito mais do que meia hora de corpos lutando), mexe sempre
com o físico do espectador, do pulmão em espera
enquanto o suspense não acaba até o frio no
estômago quando algo inesperado surge diante de nós.
Continuando um pouco mais na analogia entre o corpo e as grafias,
"palma" é uma pista mais verdadeira, pois
ele consegue fazer com que cada imagem que vemos na tela lhe
pertença, que esteja na palma de sua mão, como
que já pensada muito antes mesmo de o filme ter atores,
equipe técnica, iluminação, etc. Mas
talvez a melhor analogia seja a mais escondida, a mais subterrânea
função fisiológica que seu nome possa
sugerir, e ao mesmo tempo a mais óbvia quando se vê
cada um de seus filmes: o olho. É ele o grande beneficiário
dessa fortuna que só existe para ele, que são
as seqüências e os planos isolados desse cineasta
para quem "cinema" é antes de tudo uma arte
de como transformar idéias em visualidade. Num cinema
como o de hoje, formatado para agradar a partir de esquemas
de roteiro e de uma psicologia que em nada favorece o olho,
Brian De Palma nos propõe uma outra experiência,
tão táctil (palma) quanto cerebral (brain),
onde os recursos expressivos dessa arte devem ser levados
até o cabo, o som e a imagem. A esta última
esse verdadeiro cineasta (poucas vezes esse substantivo é
tão bem usado quanto para designá-lo) dedicou
sua carreira, e é justo que ela lhe pague um tributo
renomeando-o br(eye)an.
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Seguindo
a ordem natural das coisas, você nasce, vive em família
e depois vive em sociedade. Como fazer para ter as duas sem
ser acusado de regressão, de criança grande?
A resposta quem tem que dar é a Casa de Cinema de
Porto Alegre, uma família (eles juram que não
começaram como família) que se uniu, cresceu,
e hoje é a mais importante companhia produtora fora
do circuito Rio-São Paulo. Importante pela qualidade
de sua produção (entre seus filmes está
Ilha das Flores, o curta-metragem brasileiro mais importante
de todos os tempos), pela sua força dentro da região
(a ponto de realizar projetos inéditos como as produções
regionais em plena TV aberta do Rio Grande do Sul, menina
dos olhos dos movimentos contra a descentralização
audiovisual) e por sua veemência política (fazem
por prazer e senso de cidadania as campanhas políticas
para o PT, não por leilão). No momento em que
Houve Uma Vez Dois Verões, de Jorge Furtado,
é lançado no Rio de Janeiro, nada mais justo
do que fazer um tour pelo sul (e aqui agradecemos todos
os colaboradores sulistas que toparam a idéia) e encontrar
os habitantes dessa Casa tão particular.
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Melhores
do ano 2002. Em todo final de ano, a lista de melhores
é uma espécie de ritual no jornalismo cultural.
Mais do que retrospectar o ano, as famosas listinhas ganham
mais interesse se pensadas do ponto de vista da modulação
final, de saber se há coesão interna dentro
da revista, se há diálogo entre leitores e redatores,
de jogar um pouquinho para cima os filmes que foram sub-avaliados,
de esquecer um pouco de filmes que receberam talvez uma apreciação
por demais favorável... Esse ano, a maior surpresa
foi a semelhança entre a lista dos leitores e a dos
redatores. Nada menos que sete (!) filmes figuram nas duas
listas, e os que ficaram fora da lista dos leitores (Elogio
ao Amor, Vou Para Casa, Tenenbaums) mesmo
assim tiveram votações expressivas. Na lista
dos leitores e não na dos críticos, dois filmes
que dividiram a redação entre admiradores e
detratores (Cidade de Deus e Lúcia e o Sexo
figuram em mais de uma lista de nossos redatores) e apenas
um filme que não encontra acolhida nenhuma pela equipe
(Amélie Poulain). Impossível não
notar a força do cinema brasileiro em 2002 com quatro
filmes na lista de público e três na da crítica
(além de Cidade de Deus, Edifício
Master, Madame Satã e O Invasor),
façanha só atingida anteriormente por Coutinho
(Santo Forte e Babilônia 2000) e Sganzerla
(Tudo É Brasil), em anos diferentes. O momento
de declarar a importância de 2002 para o cinema brasileiro?
Em fevereiro, a continuação...
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Completam
a edição uma pauta retrospectiva a propósito
do lançamento em DVD de diversos filmes dos Trapalhões
e a voz de dois dos mais importantes cineastas do período
udigrudi brasileiro no Plano Geral: Carlão Reichenbach
volta a nos encontrar para uma entrevista em que fala de seus
próximos projetos e Luís Rosemberg Filho
nos manda dois artigos nos quais distila sua pena sempre poética
e militante. Boa leitura.
Ruy Gardnier
ça
fotos da edição: Fernando Duarte |