Começando pelo começo

Em agosto de 1987, o Plano Cruzado já tinha feito água e a Constituinte ainda estava longe de apresentar resultados. O país estava quebrado, a Embrafilme não tinha dinheiro e enfrentava uma campanha de desmoralização envolvendo políticos, jornalistas e mesmo cineastas.

Ao sul do Mampituba, mais um ciclo regional do cinema brasileiro estava para se esgotar: filmes tinham sido feitos, mas era cada vez mais difícil pagar as contas no fim do mês, fora das perspectivas oferecidas pela publicidade e pela migração. Um bando, umas 10 ou 20 pessoas dependendo do critério, se juntava para fazer cada filme, mas se dispersava em seguida. As 5 ou 6 produtoras não tinham sede própria, telefone, arquivo, nem mesmo uma máquina de escrever elétrica. Eu, que era um dos mais velhos do bando, tinha recém completado 30 anos, e era duro encarar a possibilidade de voltar pra casa da mamãe. E, como costuma acontecer nesses casos, o bando começou a se reunir pra conversar.

Claro que cada um tinha uma idéia diferente do que fazer, mas já na primeira reunião se chegou a um consenso mínimo: iríamos alugar uma casa grande, com telefone, numa zona residencial de Porto Alegre, e essa casa passaria a ser o nosso local de trabalho. Parecia óbvio que não daria certo uma produtora com tanta gente, mas ninguém sabia direito como criar e manter uma cooperativa. Na segunda reunião, alguns duvidaram da longevidade do projeto, mas a resposta já vinha pronta de casa: "Se durar dois anos, vai ser a coisa mais importante que nós já fizemos." Na terceira reunião se falou pela primeira vez num "condomínio de produtoras", na quarta alguns resolveram cair fora, na quinta o projeto todo entrou em crise, na sexta foi aprovado o endereço.

Finalmente, dia 24 de outubro de 1987, 13 sócios de 4 produtoras transferiram seus poucos pertences para a avenida Lajeado 776, para instalar o tal condomínio, que na verdade iria funcionar mais ou menos como uma cooperativa, e que mais tarde se tornaria uma produtora. Os sócios eram Ana Luiza Azevedo, Angel Palomero, Carlos Gerbase, Christian Lesage, Giba Assis Brasil, Heron Hugo Heinz, Jorge Furtado, José Pedro Goulart, Luciana Tomasi, Monica Schmiedt, Roberto Henkin, Sérgio Amon e Werner Schünemann. O nome, óbvio, foi sugestão de um amigo publicitário e talentoso, o Roberto Philomena: Casa de Cinema.

Primeiro parêntese: A inauguração oficial da Casa aconteceu dois meses depois, em 22 de dezembro, numa festa de ano novo que passou a se repetir todos os anos. A Festa da Casa cresceu tanto que se tornou referência no calendário da cidade. Alguns, de sacanagem, dizem que a Festa foi a nossa principal contribuição pra cultura gaúcha. Quem sabe?

Segundo parêntese: Dois anos depois fomos perceber que já existia uma Casa de Cinema, em São Paulo, desde 1982. Mudamos a razão social para "Casa de Cinema de Porto Alegre", mas acho que o cineasta Paulo Rufino, dono da marca original, nunca nos perdoou por isso.

Terceiro e último parêntese: No período Collor, a barra voltou a pesar e, aos poucos, o bando foi se dispersando: Amon e Christian foram fazer publicidade em São Paulo, Angel foi fazer teatro no Rio, Henkin foi morar em Paris, Zé Pedro abriu uma produtora de publicidade em Porto Alegre mesmo, Monica e Werner abriram outra, Heron era Replicante em tempo integral. Em março de 1992, depois de uma longa negociação, os 5 sócios remanescentes do bando original, mais a Nora Goulart, criaram a produtora Casa de Cinema de Porto Alegre, primeiro na Miguel Tostes 317, depois na Miguel Tostes 860, onde funciona até hoje.

Giba Assis Brasil