Como se estivesse pescando no rio Blackfoot



Nada é Para Sempre
(A river runs through it), de Robert Redford (EUA,1992)


Eu não sei qual foi minha primeira paixão cinematográfica. Mas sei que antes dos dez anos, época de uma certa inocência estética, o meu critério para gostar de um filme era o do instinto. Ou seja, nada de critério: viu o filme, gostou, não gostou, se emocionou, se entediou. Acho que com todo mundo foi assim, com duas fases marcadas, a da emoção pura e a da razão. A pré-critério e a pós-critério. Quando você começa a questionar a validade de um filme, começa a perceber que existem diferentes maneiras de concebê-lo, quando começa a prestar a atenção numa coisa que nunca tinha se dado conta antes, e que ouviu falar que se ela se chama enquadramento, é porque está florescendo em sua mente a fase da razão. Parece muito mais sofisticado, mas às vezes você se cansa e se pergunta se por acaso não está ficando fresco, querendo ver magia onde não há. Tem dias que, se sentindo cada vez mais sozinho e cansado de não poder compartilhar com sua gente os prazeres fáceis da visão cinematográfica consumista, você já começa a idealizar os áureos tempos da pureza inocente. Mas a ruptura, no entanto, é irreversível, e, na maioria dos casos, se agrava a cada dia. Logo você vai se surpreender tentando corrigir visualmente o que você acha que o diretor do filme fez de errado, trocando uma grua por um travelling, tentando imaginar um plano-sequência muito mais ousado e emocionante do que aquele simples diálogo picotado. Ou então se vê chorando de emoção diante de um plano impossível, admitindo que nunca conceberia algo igual, se segurando para não levantar da cadeira e sair gritando para toda a sala que o artista é "o" cara .

Assim você prossegue, entre esse misto de razão e emoção, frieza calculada e paixão. A partir desse momento assistir um filme, para o bem, ou para o mal, vira um equilíbrio entre esses dois. Mas sempre fica, no fundo do coração, aquele desejo de entrar no cinema e se desligar do próprio discernimento, aquele desejo de se entregar totalmente a um filme que lhe traga os sentimentos mais espontâneos, imediatos. Eu procurei algum tempo por esse filme, até que, numa tarde de 1992, quando tinha 11 anos, o encontrei. Naquela tarde, as luzes da sala se desligaram e eu relaxei. Talvez tenha sido o momento que ajudou, ou apenas o filme, ou então uma combinação dos dois. Eu fiquei fascinado com Nada É Para Sempre, patético título brasileiro de um filme chamado A river runs through it. Pois, desde as primeiras cenas resolvi me entregar. Me sentia inebriado por uma espécie de "paz", um relaxamento mental que ajudava a me livrar de todo e qualquer critério.

Nada É Para Sempre é uma adaptação de um livro cult de Norman McLean, uma autobiografia que narra os conflitos de Norman com seu irmão e seu pai em Missoula, pequena cidade da Montana dos anos 30. O pai é um pastor presbiteriano que educa os filhos com o rígido moralismo americano. Paul, o irmão, é impetuoso e vive a vida como se não houvesse amanhã. A relação de Norman com os dois é delicada, mas, apesar das diferenças, há uma paixão que une os três: a pesca. Não há duvida que, por se passar num paraíso florestal como Missoula, o filme é uma coleção de imagens maravilhosas da natureza. E eu relaxava na minha poltrona com as imagens do rio, da floresta, da pesca... É claro que percebia que a genial fotografia de Phillippe Rousselot escravizava o filme, limitando a maioria das imagens a uma contemplação vazia da beleza natural do cenário; claro que notava os personagens ocos, as interpretações fracas...

Uma análise fria do que estava na tela não poderia ter outro veredicto: ruim - mas eu não queria nem saber: me sentia pescando nos rios da pequena Montana do inicio do século, respirando o ar puro de uma tarde de verão. É a típica sedução que tantos críticos sérios tentam evitar a qualquer custo. O grande barato, no entanto, é que essa "indulgência"(nesse sentido mesmo, com tudo que a palavra possa ter de arrogante)não vinha apenas por causa da beleza das imagens. Eu realmente me identifiquei com o filme, realmente mergulhei nessa história que o diretor Robert Redford não conseguiu fechar, desenvolver. Está certo que as imagens eram de tirar o fôlego, mas é, também como se, apesar da inconsistência do filme, elas contassem a história por si só, como se o próprio efeito do plano, o próprio artifício, fosse o assunto do plano. Me emocionei no momento em que a namorada de Norman aparece de carro na casa dele; um pôr-do-sol bíblico decora a cena – mas não é só isso: é a serenidade melancólica de um fim-de-tarde, é a inquietação da existência, o último fôlego de dois corpos expirando a energia diurna... E a cena da pesca? Por trás do tecnicismo exagerado da concepção visual, ficou impossível não me comover com a cumplicidade dos dois irmãos pescando no rio Blackfoot.

O mais engraçado é que cada vez que eu revejo o filme é a mesma sensação – a de que estou assistindo a uma obra de tantas formas fracassada, mas francamente comovente. O que é um terrível soco no estômago na convenção dos gostos - afinal, por que um filme ruim não pode ser bom?

Bolívar Torres