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Aspectos
do curta-metragem brasileiro.
Produção extremamente grande, importante não
só do ponto de vista da extensão mas também
da qualidade e da diversificação dos filmes,
o curta-metragem brasileiro entretanto não tem seu
reconhecimento devido. Se isso se dá de certa forma
em todo mundo raros são os periódicos
que se dignam a falar até de curtas recentes de Jean-Marie
Straub, Jean-Luc Godard ou de jovens realizadores ,
no Brasil o esquema é ainda mais viciado. À
mercê das cinco ou seis empresas produtoras que conseguem
fazer passar e captar os projetos de longa-metragem, os jovens
realizadores e produtores acham no curta a chance de se expressar
no cinema com mais liberdade, coração e ousadia,
uma trinca que patentemente faz falta na produção
média de filmes longos. Por mais numerosa e expressiva
que seja, a produção de curtas não encontra
ressonância fora do circuito atualmente atribuído
a ela: festivais, mostras especiais, Canal Brasil (uns poucos!)
e sessões de amigos. "Como eu posso ver Meu
Compadre Zé Keti?", se perguntava uma de nossa
leitoras em carta à redação a propósito
de um texto da revista sobre o curta de Nelson Pereira dos
Santos. A resposta seria impossível dar: "Quando
der a sorte de passar!" Se a exibição do
curta-metragem nacional é um fracasso (e comercialmente
sua carreira é nula), a repercussão crítica
também vai de mal a pior. O curta só ganha espaço
em jornais e revistas quando passa junto de longas em festivais
(Gramado, Brasília), quando é de autor consagrado
já no longa-metragem ou quando ganha prêmios
fora do Brasil ("Um Sol Alaranjado ganha prêmio
em Cannes"). Se nos quatro anos de sua existência
a própria Contracampo dedicou algum espaço ao
curta, nunca ficou aquela sensação de dever
cumprido, seja nas coberturas dos festivais (Festival do Recife)
ou nas mostras dedicadas exclusivamente aos curtas (Festival
Universitário, Curta Cinema, Festival Internacional
de Curtas SP). Era preciso, então, ao menos inicialmente,
como que para empurrar o barco, dedicar barba, cabelo e bigode
ao curta, da capa da revista às análises de
conjunto, das críticas (positivas e negativas, quando
antes só falávamos extensamente dos filmes que
gostávamos) às enquetes. Esperamos com isso
seguir mais atentamente a produção nacional
de curtas, pois ela definitivamente está na ordem do
dia da revista (e nas listas dos melhores... Resgate Cultural
quase entrou nos 10+ em 2001, Juvenília e Ilha
das Flores estiveram nas listas dos redatores para melhores
filmes brasileiros de todos os tempos).
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Entre
a cobertura da produção anual de curtas (filtrada,
obviamente, pela seleção da Curta Cinema), veremos
um questionário destinado a diversos realizadores de
curtas. Entre eles, alguns que já fizeram longa, alguns
veteranos, outros iniciantes, outros que fazem parte de coletivos
de realização e "mais outros que perseguem
uma carreira mais individual. O objetivo, como não
poderia deixar de ser, foi traçar um painel das influências,
dos interesses e da formação desses realizadores
no que tange a estética e produção. E
embora nesse painel haja um esforço de contemplar a
diversidade de modelos estéticos e de produção
(naturalmente, na medida em que eles nos interessam), essa
lista não poderia ser nem exaustiva nem ter um pretenso
valor de "panteão", de que é o happy
few admirado pela revista que é chamado a responder.
Tencionamos somente realizar uma radiografia, com seus defeitos
(pouco matizada, só serve para certos fins) e com seus
acertos (permite detectar tendências, encontrar lugares
e observar melhor lugares lesionados ou quebrados).
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Completam
a edição uma pauta mais voltada para o amor
cinéfilo juvenil, aquele que vê tudo com uma
tolerância maior às vezes porque está
aprendendo, às vezes porque a fascinação
do cinema é maior do que os filtros críticos
e o distanciamento que porventura surgem após os muitos
filmes e leituras tornarem-se hábito. Uma pequena volta
ao tempo em que uma trama muito esquemática, uma composição
espaço/temporal cafona ou metida a besta, uma pieguice
eram levados para segundo plano em nome de uma força
maior que existe em todo começo e, na medida do possível
deve prosseguir em todo tipo de agenciamento: amor, no caso,
o amor do cinema. Engana-se quem acha que o crítico
não ama; só vai depurando seu amor. Para terminar,
a seção de DVD/VHS investiga o cinema de José
Mojica Marins, a propósito do lançamento da
excelente caixa de seis títulos com seus filmes. Boa
leitura.
Ruy Gardnier
ça
fotos da edição: Fernando Duarte |