Editorial



No Passo da Véia, de Jane Malaquias, está entre o melhor da produção de curtas-metragens do Brasil no ano de 2002.
   
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fotos da edição: Fernando Duarte

Aspectos do curta-metragem brasileiro. Produção extremamente grande, importante não só do ponto de vista da extensão mas também da qualidade e da diversificação dos filmes, o curta-metragem brasileiro entretanto não tem seu reconhecimento devido. Se isso se dá de certa forma em todo mundo – raros são os periódicos que se dignam a falar até de curtas recentes de Jean-Marie Straub, Jean-Luc Godard ou de jovens realizadores –, no Brasil o esquema é ainda mais viciado. À mercê das cinco ou seis empresas produtoras que conseguem fazer passar e captar os projetos de longa-metragem, os jovens realizadores e produtores acham no curta a chance de se expressar no cinema com mais liberdade, coração e ousadia, uma trinca que patentemente faz falta na produção média de filmes longos. Por mais numerosa e expressiva que seja, a produção de curtas não encontra ressonância fora do circuito atualmente atribuído a ela: festivais, mostras especiais, Canal Brasil (uns poucos!) e sessões de amigos. "Como eu posso ver Meu Compadre Zé Keti?", se perguntava uma de nossa leitoras em carta à redação a propósito de um texto da revista sobre o curta de Nelson Pereira dos Santos. A resposta seria impossível dar: "Quando der a sorte de passar!" Se a exibição do curta-metragem nacional é um fracasso (e comercialmente sua carreira é nula), a repercussão crítica também vai de mal a pior. O curta só ganha espaço em jornais e revistas quando passa junto de longas em festivais (Gramado, Brasília), quando é de autor consagrado já no longa-metragem ou quando ganha prêmios fora do Brasil ("Um Sol Alaranjado ganha prêmio em Cannes"). Se nos quatro anos de sua existência a própria Contracampo dedicou algum espaço ao curta, nunca ficou aquela sensação de dever cumprido, seja nas coberturas dos festivais (Festival do Recife) ou nas mostras dedicadas exclusivamente aos curtas (Festival Universitário, Curta Cinema, Festival Internacional de Curtas SP). Era preciso, então, ao menos inicialmente, como que para empurrar o barco, dedicar barba, cabelo e bigode ao curta, da capa da revista às análises de conjunto, das críticas (positivas e negativas, quando antes só falávamos extensamente dos filmes que gostávamos) às enquetes. Esperamos com isso seguir mais atentamente a produção nacional de curtas, pois ela definitivamente está na ordem do dia da revista (e nas listas dos melhores... Resgate Cultural quase entrou nos 10+ em 2001, Juvenília e Ilha das Flores estiveram nas listas dos redatores para melhores filmes brasileiros de todos os tempos).

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Entre a cobertura da produção anual de curtas (filtrada, obviamente, pela seleção da Curta Cinema), veremos um questionário destinado a diversos realizadores de curtas. Entre eles, alguns que já fizeram longa, alguns veteranos, outros iniciantes, outros que fazem parte de coletivos de realização e "mais outros que perseguem uma carreira mais individual. O objetivo, como não poderia deixar de ser, foi traçar um painel das influências, dos interesses e da formação desses realizadores no que tange a estética e produção. E embora nesse painel haja um esforço de contemplar a diversidade de modelos estéticos e de produção (naturalmente, na medida em que eles nos interessam), essa lista não poderia ser nem exaustiva nem ter um pretenso valor de "panteão", de que é o happy few admirado pela revista que é chamado a responder. Tencionamos somente realizar uma radiografia, com seus defeitos (pouco matizada, só serve para certos fins) e com seus acertos (permite detectar tendências, encontrar lugares e observar melhor lugares lesionados ou quebrados).

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Completam a edição uma pauta mais voltada para o amor cinéfilo juvenil, aquele que vê tudo com uma tolerância maior – às vezes porque está aprendendo, às vezes porque a fascinação do cinema é maior do que os filtros críticos e o distanciamento que porventura surgem após os muitos filmes e leituras tornarem-se hábito. Uma pequena volta ao tempo em que uma trama muito esquemática, uma composição espaço/temporal cafona ou metida a besta, uma pieguice eram levados para segundo plano em nome de uma força maior que existe em todo começo e, na medida do possível deve prosseguir em todo tipo de agenciamento: amor, no caso, o amor do cinema. Engana-se quem acha que o crítico não ama; só vai depurando seu amor. Para terminar, a seção de DVD/VHS investiga o cinema de José Mojica Marins, a propósito do lançamento da excelente caixa de seis títulos com seus filmes. Boa leitura.

Ruy Gardnier

ça

fotos da edição: Fernando Duarte