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Alexandr
Sokúrov e a morte do mundo

O Segundo Círculo, de Alexandr Sokúrov
O presente texto não saberia ser uma avaliação
puramente objetiva da obra de Alexandr Sokúrov. Antes de tudo
por uma consatação: dentre seus longas, eu não assisti
a justamente os três mais incensados de seus filmes, a saber, Mãe
e Filho, A Pedra e Páginas Ocultas. Pode
ser que a não-visibilidade dessas possíveis obras-primas
me tenha impedido de olhar abertamente as grandes maravilhas da totalidade
de seus outros longas, é uma possibilidade. Mas o motivo da extrema
pessoalidade do texto deriva mais da aproximação que Sokúrov
tem com o cinema, e a maneira que seus filmes parecem nos tomar, antes
de tudo pelo lado afetivo (em seus filmes não há contextualização
geográfica, histórica, luta entre um sujeito e o mundo:
apenas luta de si contra si mesmo rumo à morte), torna absolutamente
inútil uma avaliação de seu cinema à luz dos
modelos clássicos de análise (roteiro, direção,
montagem, luz, etc.). Tampouco se pense que, por escapar à peneira
da análise narrativa, ele cai no terreno de saco de gatos que é
o cinema experimental/poético. O cinema de Alexandr Sokúrov
não é exatamente nem um nem outro, e é os dois ao
mesmo tempo. Mas a lógica de cada um deles escapa profundamente
ao desejo artístico de seu autor.
É o próprio que diz: "O cinema só
conquistará sua dignidade de arte afirmando aquilo que é
próprio dela: o trabalho que substitui uma realidade já
dada por uma realidade inteiramente decidida, por uma superfície
material em que o espírito desenha suas formas". Ora, não
há como ver aí nem cinema narrativo nem poesia, pelo menos
não diretamente. O desejo artístico de Sokúrov não
é de suporte ou gênero artístico, é de filosofia:
há em sua expressão acima e em seus filmes um profundo desejo
de transformar a imagem do cinema, em utilizar mil artifícios (anamorfoses,
lentes deformantes, filtros, esgotamento da duração do plano
cinematográfico são os mais freqüentes) para retirar
do cinema aquela que é a matéria-prima da qual ele tira
toda sua especificidade: o registro do real. Não há propriamente
um desejo de poesia nem de prosa no cinema de Sokúrov, mas um profundo
anti-modernismo de princípio, uma anti-laicização
da experiência artística, uma nova volta à Arte (com
A maúsculo) como objeto de culto, até de adoração
religiosa. Nunca houve artista mais evidentemente anti-Baudelaire, anti-Walter
Benjamin, anti-André Bazin, anti-Hölderlin do que Alexandr
Sokúrov.
Naturalmente, por uma tal diferença de perfil
estético e filosófico, sua obra choca e perturba a qualquer
espectador mais impressionado com as diferentes sensações
de ritmo e cores que o cinema pode dar. Mas se o procedimento de Sokúrov
é dos raros no cinema (só costumam trabalhar assim os cineastas
experimentais), não se pode dizer a mesma coisa na fotografia:
desde o começo do século, os pictorialistas tentavam transformar
a prática fotográfica em arte "pura", fazendo
dela algo próximo da gravura ou das telas dos pintores. Pois o
projeto de Sokúrov não é muito diferente mas, como
o dos pictorialistas, é bastante paradoxal: fazer o cinema imitar
as artes plásticas para enfim atingir um estatuto autêntico
de arte. Assim, tudo nele parece uma proposta vigorosa de cinema: fazer
filmes inteiros com anamorfoses (Mãe e Filho, A Pedra),
realizar filmes com um único plano-seqüência (Arca
Russa), anuviar a imagem para filmar a morte de ditadores (Moloch,
Taurus). Mas não seria esse esforço, mais do que
levar o cinema para onde ele ainda não foi, regredi-lo para aquilo
que as outras artes já foram e, no caminho, perderam todo seu interesse?
Não é isso que acontece em todos os seus
filmes, mas é sem dúvida um questionamento que merece ser
analisado com mais cuidado. À exceção da morte e
da inevitável degenerescência, presentes em toda sua obra,
todos os signos de sua obra negam veementemente o século "laico"
que é o vigésimo: Arca Russa vai até o último
baile da época do czarismo, a imagem "plana" e "já
dada" do cinema é substituída pela imagem tratada pelo
espírito do autor, e o próprio ritmo de seus filmes negam
o ritmo da vida do século XX, levando-nos antes a ambiências
do século XVIII. Também sua visão de história
é pré-Nova História: o que conta do mundo são
os grandes homens e as grandes obras. Não à toa, Sokúrov
sente-se fascinado por Hitler (sobre quem fez dois filmes) e pelos ditadores
ou chefes de estado russos (aos quais dedicou parte de suas Elegias).
E também por grandes artistas, como o cantor lírico Shaliápin
e o pintor francês do século XVIII Hubert Robert, famoso
por pintar grandes complexos arquiteturais todos nascidos de sua cabeça.
Quanto ao século XX, ele não aparece,
ou aparece sempre negativizado. É impossível esquecer o
último movimento de Arca Russa, que abre um travelling para fora
do Museu Hermitage, e nesse momento tudo que era colorido se torna em
preto-e-branco, apontando para uma paisagem nebulosa, entre uma noite
cerrada de nuvens e uma vegetação pantanosa. Esse "fora"
confuso e nojento do Hermitage não é nada mais nem menos
do que o século das multidões, dos sonhos de revolução,
do populacho que tomou o lugar dos nobres na União Soviética,
mas também o século de uma nova sensibilidade, que substituiu
às artes religiosas e grandiloqüentes uma arte que falava
diretamente ao homem, sem necessidade de mediação com a
divindade, uma arte que não precisava mais da boca de Deus para
fingir falar por ela. Os filmes de Alexandr Sokúrov são
incrivelmente parecidos na concepção com os quadros de Hubert
Robert, a quem ele dedicou um pequeno documentário em vídeo.
As telas de Robert admiradas por Sokúrov são grandiloqüentes,
estranhos e gigantescos monumentos, por vezes em ruínas, ao lado
da natureza que cresce. Sempre um cenário de grandeza mais-que-a-vida
associado a uma ânsia de degradação, de morte, indefectivelmente
ligada à concepção religiosa do diretor.
Pode ser que até aqui o leitor esteja bestificado
que se esteja valorando negativamente a obra de Sokúrov quando
se deveria estar simplesmente elencando os signos artísticos de
seus filmes porque, afinal, o que importa não é o "por
trás" do cineasta, mas sim as obras que eles produzem. Pois
digo: passado o furor com quem podem ser recebidas obras como Moloch
ou Mãe e Filho, os outros filmes não complementam
mais grande coisa a respeito da arte ou do artista. Que se procure em
O Segundo Círculo algo que já não se viu em
Não Matarás de Kieslowski, ou em O Dia do Eclipse
algo ainda não presente nos filmes de Tarkóvski, será
em vão. No mais, Sokúrov sempre dilata o tempo cinematográfico
para provocar a experiência do espectador, mas volta e meia confunde
densidade com enfado, lentidão com vagarosidade e, pior que tudo,
gravidade com seriedade. Para tanto, basta dar uma conferida em Dolorosa
Indiferença ou no interminável Salvai e Protegei
(adaptação de Madame Bovary sem o menor interesse detectável).
Resta em Alexandr Sokúrov, contudo, uma indisfarçada
qualidade: seu talento plástico e sua força de composição.
Elas fazem do começo e do fim de O Dia do Eclipse, a despeito
de cenas forçadas de um miserabilismo exploit à maneira
de Sebastião Salgado, uma conjugação poderosa de
imagens amarelas com uma música atonal poderosa. Elas fazem a graça
de A Voz Solitária do Homem, confusa e adorável obra
de um Sokúrov ainda se formando em cinema, ou a crueza visual de
O Segundo Círculo, filme que traça o circuito da
morte de um homem até seu enterro, coordenado pelo filho. Talvez
esse seja, de todos os seus filmes, aquele que mais dá conta daquilo
que de fato interessa em sua obra: a dilatação do tempo,
o trabalho da imagem para que ela não seja de forma alguma naturalista
mas expressionista (ou puntilhista, ou pictorialista), a fixação
na morte como instância limite de nossa existência e abertura
para o questionamento de Deus, a força da paisagem na composição
psicológica do filme (já que os "personagens"
não têm propriamente psicologia).
Outra vantagem de O Segundo Círculo é
não possuir nenhuma das opiniões de Sokúrov acerca
da História e da Rússia. Não que sejam opiniões
que distam das minhas, mas por serem simplesmente pueris e fracas, esvaziadas
de ambigüidade e com um rancor enorme pelos líderes soviéticos.
Justicado, diga-se. Mas não a ponto de realizar um filme para ser
um acerto de contas. Taurus, mais do que a segunda parte da trilogia
dedicada aos "grandes monstros assassinos do Século XX",
filma os últimos momentos de um Lênin já evidentemente
doente, esclerosado e sem forças para continuar mais alguns dias.
Do ponto de vista da direção, requintes de crueldade são
exibidos um após o outro, como numa tardia vingança em relação
a tudo que Lênin fez com sua amada Rússia. Se em Moloch
a fixação pelo momento de morte desses grandes monstros
do Século XX ficava ainda a explicar, em Taurus ela atinge
a decifração. Aparentemente, o interesse de Sokúrov
podia reduzir-se a uma simples mensagem: "Os grandes homens morrem
também, e morrendo somos todos patéticos". Talvez isso
já valesse o filme, mas junto com isso temos que engolir um coquetel
de degradação e partido tomado que por vezes chega ao nível
do pastiche. Numa determinada hora de Taurus, Lênin pergunta-se
sobre o luxo do lustre da casa em que vive. Obviamente com a memória
deteriorada, ele pergunta por que está morando naquela casa se
existe gente passando fome. Segue-se o diálogo: " Ela
não foi construída para você, ela já existia.
É, de quem era a casa? Por que ela agora é minha?
Ela foi expropriada. Expropriada? O que é expropriada?
Roubada, Lênin! Roubada!" Fim de conversa.
Talvez a visão de alguma de suas obras-primas,
repetimos, mude todo o cenário aqui já descrito. Muito embora
me parece de difícil factibilidade, uma visão incompleta
da obra de um artista jamais pode se tomar como ensaio definitivo da visão
de mundo expressa de suas obras, ainda mais se forem as consideradas "menores".
Mas eis minha impressão do que vi, e eis o pensamento que ela evocou
em mim. Cabe a cada um julgar pelo que viu. A este que vos escreve, se
há em Sokúrov um gigante, este tem sem dúvida pés
de barro.
Ruy Gardnier
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