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O
Monstro Caraíba, uma provocação


Carlos Imperial em O Monstro Caraíba de
Julio Bressane
De O Monstro Caraíba,
há uma leitura possível, muito adequada até. Logo
no começo do filme, Wilson Grey vê um sujeito deitado na
varanda de uma casa, e trata de acordá-lo: "Levanta, Brasil!".
Esse sujeito, interpretado por Carlos Imperial, exibindo uma barriga majestosa
de imponência e adiposidade, já é de primeira associado
à figura nacional. As possíveis interpretações
abundam: a volta do velho mito do gigante adormecido em berço esplêndido,
da potência que precisa dar certo, todos os mitos que fundaram boa
parte da arte "engajada" de meados do século XX (pensemos
em Monteiro Lobato, Jorge Amado e nos mais ferrenhos nacionalistas como
Plínio Salgado), e principalmente os clichês do cinema novo
do período exatamente anterior à produção
de O Monstro Caraíba, 1975. Ressurgiria, parece, o velho
repertório: a parábola como forma velada de falar dos problemas
do país, o questionamento dos rumos da nação, os
velhos símbolos, etc.
Naturalmente, esses
traços são identificados no filme, mas alguma coisa parece
não se encaixar com tanta facilidade nesse discurso pronto de apologeta
do CPC. Ademais, é de se notar como Julio Bressane sempre desconfiou
bastante das interpretações politizantes e culturalizantes
em cima de obras-de-arte que se furtam a essas atribuições.
Pois bem: o cinema de Júlio Bressane puxa freqüentemente,
e isso parece inegável, o signo-Brasil como objeto privilegiado
de questionamento através de seus filmes. Mas a maneira como faz
é sensivelmente diferente das preocupações e do repertório
estético e estilístico da geração anterior,
a do cinema novo. Geralmente, no cinema de Julio Bressane a questão
nacional aparece transfigurada e filtrada pela posição do
artista, pelo discurso interno com a língua portuguesa (Vieira),
com a literatura (Machado, Oswald), com a canção popular
(Lamartine Babo, Mário Reis, Dorival Caymmi) e, sobretudo, com
o cinema brasileiro (que, do ciclo do Recife até o cinema novo,
passando pelo Major Tomás Reis e pela chanchada, é colocado
em revista e retrabalhado criticamente). Subtitulado "nova antiga
história do Brasil", O Monstro Caraíba é
o único filme de Bressane que afronta, aparentemente, a questão
nacional de frente, sem mediação.
Dir-se-ia: aparentemente.
Mesmo em O Monstro Caraíba, a questão nacional não
passa (imediatamente) por política. Em todo caso, não passa
pelas grandes ideologias sociológicas e/ou culturais ou
ainda das grandes totalizações que fizeram a fama
de grande parte dos filmes do cinema novo. O tecido de O Monstro Caraíba,
os signos que ele nos traz o homem gordo, a terra virgem, uma procura
pelo tesouro, uma garrafa flutuando na água, a marca de um pé
na pedra da Gávea e as comparações com inscrições
no Oriente Médio, o Buda afegão destruído pelos talibãs
não são tanto um clamor por um Brasil possível,
mas a evocação poética e lírica de um Brasil
mítico, inatual, extermporâneo e impossível. Um Brasil
mítico, mas não utópico ou conceitual: uma visão
a-significante, sem nenhuma determinação positiva do destino
(o país do futuro) ou da sociedade (a revolução,
a conscientização das classes operárias). É
um filme sobre o Brasil profundo, não o Brasil como sociedade,
estado ou vivência; é um filme sobre um Brasil geológico,
pré-histórico e pré-lógico. Poderia muito
bem se chamar A Idade da Terra.
Mas qualquer filme
é acima de tudo um filme sobre o cinema. Visto dessa forma, O
Monstro Caraíba não poderia ser mais um filme de Julio
Bressane. Pois seu cinema não é, antes de tudo, tentar operar
os signos recorrentes do cinema (aquilo que ele chama inequivocamente
de clichês) de modo a liberá-los de toda carga de redundância
e reatividade? O tal monstro caraíba não seria o próprio
Julio, à procura de um tesouro (a vocação artística?),
em meio a seu verdadeiro terreno, o terreno do cinema sem estradas narrativas,
sem arranha-céus plotpoints, sem a planificação
urbana da interioridade psicológica dos personagens. As peripécias
do monstro caraíba, suas perambulações por uma praia
virgem evocam, antes do Brasil, as próprias perambulações
artísticas de um cineasta em constante atrito e, por que não
dizer, luta contra o cinema papai-mamãe, produzido sem gosto, sem
gozo e sem aventura. A geografia que apareceu em O Monstro Caraíba,
por si só, já nos evoca todo esse terreno pantanoso, incerto,
perigoso, divino e maravilhoso que Julio Bressane abra para si e para
todos aqueles que se dão o direito de embarcar junto com ele nessa
aventura. E que as possíveis citações à Ilha
do Tesouro e aos filmes de pirata sejam levadas a sério: a
aventura especulativa do artista pode ser tão interessante quanto
os livros e filmes de aventuras infantis à Kipling, Stevenson e
Mark Twain. O Monstro Caraíba comprova.
Ruy Gardnier
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