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O Inventor da Mocidade,
de Howard Hawks

Monkey Business, EUA, 1952

Cary Grant em O Inventor da Mocidade de Howard
Hawks
O Inventor da Mocidade
foi o último dos filmes que Howard Hawks rodou com Cary Grant, 14 anos
depois do primeiro Levada da Breca. Para quem já viu os dois é
difícil não deixar de perceber as semelhanças. São tantas que não dá para
deixar de encarar O Inventor da Mocidade como uma releitura.
Grant é novamente um cientista
tão absorvido pelo trabalho que mal parece se relacionar com o mundo exterior;
ele acaba se vendo obrigado a encarar este mundo (e toda loucura contida
nele) e no processo é destruído e revivido. Desta vez, o agente que detona
tudo é o macaco que descobre a fórmula da juventude que o próprio
Grant tentara em vão descobrir. O macaco veio antes do homem na cadeia
evolutiva, e para se redescobrir Grant tem que regressar à infância
e brincar de índio escalpando o advogado sisudo (Hugh Marlowe) que tenta
roubar sua esposa (Ginger Rogers).
Se
as semelhanças são muitas, há uma diferença de tom essencial. Levada
da Breca é tão frenético que muitos reclamam que o filme é histérico
(Hawks dizia que o fracasso do filme à época do lançamento ocorrera porque
todos os personagens eram igualmente loucos). Em O Inventor já
não há mais lugar para isso. A câmera registra calmamente o percurso de
Grant sem pressa ou qualquer desespero de fazer o público rir das piadas
(não que o filme não seja engraçado, ele o é, quase ou tanto quanto outras
belas comédias de Hawks como o próprio Levada da Breca ou Suprema
Conquista).
O
Inventor da Mocidade já começava a explicitar com mais intensidade esta qualidade,
na verdade presente desde o início, que destacaria o período mais
impressionante de sua obra (o que se inicia com Onde Começa o Inferno).
Na primeira vez que Grant toma a fórmula por exemplo, o cineasta
nos convida a acompanhar calmamente o cotidiano da tarde subseqüente.
Não há nada de especial nele (ele corta o cabelo, compra um carro usado,
paquera a bela secretária), o humor está justamente em Grant enfrentar
todas estas atividades como se tivesse voltado aos seus dezoito anos.
A
beleza do cinema de Hawks, como bem já sacara Jacques Rivette, é justamente
mostrar as coisas, a vida. Só isto. Toda a destruição e ressurreição de
Grant está bem ali na nossa frente. Tão na nossa frente que nós, como
o sisudo Hugh Marlowe, acostumados com o olhar critico a procurar o que
está oculto, o deixamos escapar. O Inventor da Mocidade é o mais
fácil e o mais difícil dos filmes; talvez por isto seja tão importante
resgatá-lo. Num momento em que o cinema mais do que nunca está preocupado
com o brilhareco fácil, é sempre bom retornar a Howard Hawks que preferia
filmar a simplicidade da vida.
Filipe
Furtado
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