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Cama
de Gato,
de Alexandre Stockler
Brasil,
2002
Temos que admitir: o que Alexandre Stockler conseguiu com este Cama
de Gato é uma proeza. È preciso estar muito atento a
produção contemporânea para conseguir fazer um filme
que consiga em pouco mais de noventa minutos juntar com tamanha precisão
todas as piores tendências da mesma.
As duas seqüenciais
de abertura dão a deixa: na primeira uma série de jovens
dão depoimentos sobre assuntos do momento como a indicar a "atualidade,"
a "relevância" do que está por vir (e como não
podia deixar de ser num projeto como este as respostas variam das inarticuladas
as que são ridicularizadas). A segunda seqüência com
seus planos de câmera na mão tremida e colada ao rosto dos
protagonistas enquanto estes proclamam o seus "discursos" (devidamente
ridicularizados pelo diretor) é ainda mais direto: não haverá
em Cama de Gato qualquer possibilidade de diálogo entre
espectador e filme, não haverá espaço para dúvida,
para qualquer afeição para com os personagens e seu universo.
Daí em diante
se sucedem uma série de equívocos cada vez maiores enquanto
acompanhamos a jornada de seus protagonistas, três jovens debilóides
(o filme não nos permite outro visão deles), enquanto eles
se revelam progressivamente mais monstruosos e burros. O que chega a seu
primeiro clímax numa suruba transformada em estupro (transmitida
via internet, é claro) que é seríssima candidata
ao pior momento da Mostra. Como sempre neste cineminha que se crê
"moderno", "esperto", etc, mas no fundo é bastante
conservador, sexo só pode ser algo sujo que traz a queda dos protagonistas.
Mesmo que o objetivo
do filme fosse o já discutível de ridicularizar os protagonistas,
teria errado completamente o alvo já que Stockler sequer tem a
sensibilidade de se tocar de que as personagens humilhadas por eles (o
porteiro, os travestis, os pedintes, a mãe, a garota estuprada)
são retratadas de forma patética. Não há qualquer
desculpa do tipo "o filme é contado de forma subjetiva"
já que a câmera permanece sempre onisciente vendo tudo de
cima. O que só se confirma na cena final em que Deus (ou melhor,
o diretor) os absolve, afinal já que o mundo é uma merda
o que são três delinqüentes assassinos incompetentes
a mais?
Nada, em suma, do
precário uso da DV até as cenas de metalinguagem "espertas"
onde os personagens de dentro de um cinema ridicularizam os clichês
do filme, funciona. O que resta é justamente um nada e consolo
para o espectador de que ele e o diretor são os únicos escolhidos
para se elevarem acima da mediocridade, como se vê discurso mais
"crítico" impossível.
Filipe Furtado
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