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Yoda e paisagem (um recomeço
em espiral) Dois olhares díspares passaram a resumir a postura da maior parte da crítica e dos espectadores diante do novo episódio da saga de estelar de George Lucas: de um lado os senhores do desprezo, do simplismo analítico (ávidos por desmerecer todo e qualquer fenômeno de massa norte-americano como "o sinal dos tempos"...), de outro, os admiradores confessos, os fãs encantados do universo de Lucas, incapazes de ir muito além da euforia infantil. Mesmo que os segundos sejam mais dignos do que os primeiros, é valioso que se vá além: * * * Se na virada dos anos 80 (primeira trilogia de 1977 a 1983), a emergência da cultura do videografismo e dos "efeitos especiais", atualizou os conceitos de ilusionismo e do espetáculo no cinema narrativo clássico; hoje , no início da primeira década do século XXI, Star Wars, mais uma vez, torna inegável o potencial gigantesco de um novo futuro: O cinema gerado digitalmente, baseado num mínimo de registro exterior ao HD do computador, e um mínimo de aparatos óticos, salta das particularidades dos PCs pessoais e torna-se a principal ferramenta para o cinema narrativo ilusionista norte-americano. Com cerca de 80% de imagens geradas por "imaginação digital" e 100% de imagem captada diretamente em suporte eletrônico, a segunda trilogia de George Lucas se apresenta como a nau capitânea de uma nova jornada do cinema narrativo mundial. Contemporânea da cultura do fliperama, do ATARI e do pinball, a primeira trilogia estelar de George Lucas expressava toda a admiração frenética pelas luzes em movimento e pela aceleração expressiva, comum a um cinema revirado pela descrença artística trazida pelos movimentos de ruptura das décadas anteriores. Um primeiro boom dos "efeitos especiais" era marcado pelo estigma dos filmes de ação e do espetáculo físico. "Efeitos Especiais" como uma nova ordem de elementos a serem inseridos no corpo do filme, associados a uma ditadura da pirotecnia e do frenesi. (É importante lembrar que todo o aparato técnico-ótico da animação de bonecos já tinha atravessado a história do cinema como espécies de "truques", mas a categoria "Special FX" só se torna única no final dos 70: quando são criados os primeiros setores de Efeitos Especiais nos estúdios norte-americanos). Hoje porém, 20 anos depois, o quadro é outro: Quando as imagens captadas pelas câmeras digitais de George Lucas transmutam em imagem virtual o rosto de seus atores e os transporta para o mesmo patamar imagético das criações originalmente digitais, não é a realidade física apenas que morre diante de nossos olhos. Nesse novo universo digital inaugurado de uma vez por George Lucas, não há separação técnica entre a realidade fisicamente captada e aquelas geradas por computador. Os atores e a realidade é que passam a fazer parte do universo amplo dos efeitos digitais, e não mais o contrário. Dessa forma, após uma década de 90, conturbada e apinhada de reações marcantes do "realismo físico" (como a cinematografia da violência de Tarantino ou da presença corporal contemplativa do cinema iraniano), o "realismo digital" se anuncia através de Ataque dos Clones como a grande arma estética-tecnológica para renovação do ilusionismo narrativo cinematográfico. Depois de todo o agito estetizante e histérico do cinema "indie" norte-americano e da simplicidade física do humanismo iraniano que marcaram a década de 90, o titubeante cinema narrativo se reconfigura. Se durante as décadas de 80 e 90, o cinema ocidental parecia padecer de seu Deus (passando por frenéticas crises de identidade), hoje, na virada do século XXI, o que George Lucas alcança e anuncia não é nem a morte nem a sobrevivência daquele velho Deus, mas sua fusão com a realidade. Como a pintura e as artes plásticas do final do séc. XIX, o cinema digital se anuncia como a nova paleta de cores - capaz de ser tão real quanto falsa, tão palpável quanto intangível. Não é mais Yoda que tem de ser representado por um boneco físico (apesar de ser um ente de fantasia), é Ewan Mcgregor que se torna computação gráfica para se adaptar ao dinamismo das cenas de Ataque dos Clones. Se na primeira trilogia, os personagens da fantasia, viviam num espaço estrangeiro a seus corpos (sendo virtualmente representados por bonecos mecânicos), em Ataque dos Clones são os atores que se inserem no universo amplo da imagem digital. O cinema de George Lucas se redefine num realismo cinematográfico inédito: num diálogo em que se perde definitivamente o triste fardo de "canal da realidade", e se entrega, definitivamente, a composição gráfica das imagens. A realidade física se insere numa composição maior de grafia em movimento. Perde finalmente seu caráter de matriz definitiva, a qual o cinema (segundo a tradição do cinema físico) devia reproduzir ou negar... Se a constituição de cinema como "a realidade a 24 quadros por segundo" nunca conseguiu se sobrepor à tradição mimética do cinema narrativo clássico, hoje, é esse mesmo cinema clássico a inaugurar a nova possibilidade de um fim da representação física da realidade como seu papel central. Porque, ao contrário dos efeitos expressionistas de Matrix ou da fantasia isolada de animações como Monstros S.A, Yoda existe. Sua movimentação ao lado de Ewan McGregor não são a metáfora de uma movimentação (como a já clássica representação de velocidade dinâmica da personagem de Keanu Reeves), mas são tão verídicas quanto as ações do ator. Yoda existe. E Lucas guarda para esse Episódio 2 justamente a revelação de suas habilidades físicas de Jedi: pois se antes Yoda era uma representação mecânica, em Ataque dos Clones não há nada que difira sua presença da de qualquer outro elemento imagético do filme. Lucas cria pela primeira vez um personagem digital que não se presta apenas ao espetáculo frenético do movimento - Yoda tem expressões, fica calado, pensa. Alma. Mais do que a tentativa de simulação proposta por Final Fantasy, a arte digital de George Lucas não se presta a ser a uma cópia menor da realidade. Não: a arte digital de Lucas é justamente aquela que existe enquanto expressão única, impronunciável em qualquer outra linguagem a não ser a do cinema digital. Nem mesmo o sucesso digitalizado de Homem-Aranha se compara a isso, visto que todo o carisma do personagem se baseia na persona de Tobey McGuire. Ataque dos Clones é o sinal de uma nova possibilidade do cinema narrativo clássico instaurar sua aura diante das platéias. A mitologia de Star Wars, baseada justamente no encantamento cíclico diante dos ícones em movimento, se anuncia como a ameaça fantasma de regeneração de um cinema norte-americano desgastado, que retoma seu formato em planos elegantes, distantes do frenesi geralmente associado às imagens digitais. Liberta a linguagem digital de seu período embrionário de histeria. Yoda não repete o tique nervoso de Matrix. Salta, mas não mais como um simulacro. Caminha verdadeiro como imagem de si mesmo - o público vibra, o mito refundado, reinventado, indo além da mera imitação. * * * Uma nova geografia de imagens se configura sob o olhar imenso, opaco e "justo" da gigantesca Hollywood. Caberá a nós (os desajustados) aceitar ou não o desafio; e tratar para que tal reinvenção desvie, finalmente, de sua rota em espiral.
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