Isenção e transparência na Riofilme (2)

Descaso, prepotência e demência parecem marcar o perfil da empresa municipal de filmes cariocas, Riofilme. Seu atual presidente, o ex-diplomático - mas sempre patoteiro - Arnaldo Carrilho, age agora como algoz dos jovens cineastas. Antigamente, os censores proibiam os filmes realizados. Hoje, a censura atua pela raiz. Não deixa sequer que um filme venha a ser produzido, finalizado e lançado. É a censura econômica, que nestes tempos globalizados veio substituir a censura policial. A Riofilme, que deveria significar transparência, já que se trata de uma empresa pública, representa justamente essa censura econômica . Trata-se da continuação do velho lema: "farinha pouca, meu pirão primeiro".

Quando se trata de questionar os critérios obscuros de seleção de projetos, com suas comissões fantasmas, a reação da Riofilme é a mais autoritária possível. No dia 22 de agosto, um grupo de jovens cineastas fez uma visita cívica à sede da Riofilme para contestar sua política de exclusão. Não só o Doutor Arnaldo não apareceu como mandou chamar a polícia militar, que, por sinal, foi mais diplomática do que os bem-nutridos burocratas culturais, outrora radicais cinemanovistas.

O Cinema Novo, aliás, é parte do mesmo projeto de Brasil que inventou Fernando Henrique. Arnaldo Carrilho, travestido de democrata e socialista de araque, segrega os jovens, beneficiando sem nenhum critério os seus eleitos. Donde se conclui que, no Brasil, até a polícia evoluiu mais do que a máfia cinemanovista e neoliberal.

Bem, vamos aos fatos: em 1998, alunos da Universidade Federal Fluminense entraram em contato com a Riofilme, apresentando o projeto Conceição - Autor Bom é Autor Morto, em busca de um acordo prévio de distribuição. O acordo só seria possível após o filme ser rodado.

Uma vez rodado e editado, Conceição... foi inscrito em 2000 no edital de finalização da Riofilme, seguindo todos os procedimentos exigidos pela empresa. De nada adianto os cuidados tomados pelos proponentes: a Riofilme perdeu em seus corredores e gavetas a carta de apresentação, a fita com o filme e o projeto. Descaso total.

Entregue uma nova fita, o que não foi julgado em um ano o foi em dez dias: a resposta, definitiva, soberana e irrecorrível, era NÃO. O parecer da Comissão Julgadora, auto-denominada "soberana", vinha com apenas uma assinatura, a do funcionário Luiz Fernando Noel, espécie de Tony Blair da Rainha Elizabeth Carrilho.

O protesto do dia 22 foi motivado por essa situação absurda: uma empresa pública que se dá o direito de não responder publicamente por suas ações e julgamentos. As comissões são fantasmas - ninguém sabe quem julga, pois os nomes não são divulgados e só correm na boca-miúda do mesquinho meio cinematográfico. E são esses fantasmas que comem o dinheiro público para proteger seus eternos apaniguados. Este sim, Doutor Arnaldo, é um caso de polícia.

Paulo Ferreira dos Anjos