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Isenção
e transparência na Riofilme

À
Revista de Cinema Contracampo:
Estamos entrando em
contato com vocês - assim como com outros
representantes da imprensa e da crítica cinematográfica
- por
constatar graves problemas na relação que foi estabelecida
pela
empresa Riofilme conosco, por ocasião da apresentação
do projeto de finalização de um longa-metragem, "Conceição
- Autor Bom é Autor Morto". Cabe então contar o caso
com algumas minúcias, adiantando logo que esta carta discute a
política da empresa Riofilme, em defesa de maior clareza e isenção
por parte desta junto aos projetos a ela apresentados - e relata também
casos pouco transparentes, como o reconhecimento público, da parte
de um jurado de uma comissão, de que não teve acesso a um
projeto rejeitado.
Somos um grupo de
realizadores que, formandos na UFF, conseguiu o apoio para rodar o primeiro
longa-metragem feito no curso de cinema da Universidade, nomeado "Conceição
- Autor Bom é Autor Morto". Já em 1998, no início
das filmagens (que foram terminadas em 2000), entramos em contato com
a Riofilme, apresentando o projeto em busca de um acordo prévio
de distribuição - foi-nos dito que isso só seria
possível após o filme ser rodado.
Uma vez rodado e quase
inteiramente montado o filme, voltamos à
empresa para apresentar o projeto de finalização. Entregamos
o
projeto, com diversos documentos em papel e com uma fita em vídeo
de "clipping", no final de maio de 2001, e fomos recebidos pelo
diretor Luís Fernando Noel, que nos contou ser da comissão
julgadora e pediu para ver o filme. Como nós montamos em uma moviola,
e não em Avid, sugerimos que os jurados assistissem ao filme diante
de uma moviola. Noel nos garantiu que isso seria inviável, e que
era preciso fazer uma versão em vídeo. A pedido da Riofilme,
então, postamos uma câmera diante de uma moviola e fizemos
uma cópia precária da versão montada do filme. Tendo
em vista a necessidade de explicar o que faltava editar e adicionar ao
filme, Noel nos sugeriu entregar, em conjunto com a fita de vídeo,
uma carta explicando as alterações que serão feitas.
Esta carta e esta
fita foram entregues no final de 2001, uma vez que
a empresa assegurava que o projeto não seria julgado até
então por
estarem todas as verbas já comprometidas. Foram entregues após
aviso prévio a Noel e a garantia de sua secretária de que
a fita lhe seria entregue em mãos. Não sendo possível
a partir de então o contato senão com as gentis secretárias
da empresa, só viemos a ter notícias do projeto quando,
em busca de informações sobre o andamento do projeto, um
de nós soube por uma destas gentis secretárias que, ao conferir
o projeto, esta não havia encontrado a carta que teria acompanhado
a fita. Depois de consultado Noel e de ter se confirmado o desaparecimento
da carta, ainda em abril de 2002, uma nova cópia dela foi entregue
via e-mail.
Novamente então
os contatos se tornaram inviáveis, até que uma
assessora, em meados de julho, nos comunicou que a comissão teria
considerado o material apresentado insuficiente para análise. Depois
de alguns mal-entendidos, percebeu-se que a fita vista pelos jurados era
a que continha o "clipping" do projeto, tendo se extraviado
a fita com a versão do filme diante da moviola, juntamente com
a carta inicial, justamente a fita feita a pedido da própria empresa.
Entregue uma nova
fita no dia 13/07, tivemos o resultado final no dia
23/07, dez dias depois. A resposta, definitiva, soberana e irrecorrível,
era não.
Pedimos pareceres
da parte dos jurados - cujas identidades eram
sigilosas (em nome de uma pretensa isenção...), muito embora
tivessem seus nomes publicados no DO e nas conversas particulares dos
diretores da Riofilme - e nos foi dito que a comissão não
emite pareceres, apenas define a aprovação ou não
dos projetos. É Sim ou Não, ou o projeto é adequado
ou não - à Riofilme parece que não há necessidade
de justificar ao distinto público os motivos de suas decisões.
Pedimos então
que nos devolvessem os documentos por nós enviados que não
fossem necessários à Riofilme, e pedimos também um
documento oficial dando conta da resposta negativa e listando quaisquer
documentos que a Riofilme necessitasse manter a título de arquivo.
Pedimos verbalmente que, caso os documentos do projeto não fossem
imprescindíveis, este nos fosse devolvido - a resposta da gentil
secretária era de que isso era responsabilidade de Luís
Fernando Noel, e que ela trataria de nos ajudar na questão. Recebemos
a carta assinada pelo próprio Noel, mas o projeto não foi
devolvido - nem nenhuma explicação nos foi dada. Só
quem poderia explicar, segundo a secretária, era Noel - que, para
azar de todos, acabara de entrar de férias...
Alguns dias depois,
um de nós procurou para uma conversa José Carlos Monteiro,
crítico e pesquisador, reconhecido pela Riofilme no Diário
Oficial como jurado da comissão de finalização. Perguntado
sobre o projeto, o comentário foi: "Conceição,
ninguém sabe, ninguém viu...". Contou que não
havia sido chamado para nenhuma reunião e que nunca tinha recebido
o projeto, tampouco a fita de vídeo com a versão do filme.
Diante da pouca clareza,
todas as hipóteses podem ser imaginadas - pode-se imaginar razões
jurídicas que justifiquem a postura da
empresa, assim como se pode imaginar as piores hipóteses e intrigas.
Tendo se perdido a fita, as cartas e tendo um jurado afirmado que não
teve contato com o projeto, não nos parece absurdo imaginar que
o projeto foi julgado sem ter sido examinado - talvez até tenha
se extraviado também. Por mais inaceitável que isso seja,
não é uma hipótese improvável - ao contrário,
condiz perfeitamente com os fatos já conhecidos.
A única maneira
de evitar isso é mostrando clareza nas ações e
decisões. Sendo assim, vamos listar algumas propostas em público,
aqui nessa lista, em carta ao prefeito, em cartas à imprensa e
em
carta aberta à Riofilme. Tendo em vista a necessidade de
transparência e isenção por parte da Riofilme no julgamento
de
projetos a ela apresentados, sugerimos mudanças essenciais:
- Que os nomes de
todos os jurados de comissões de julgamento da
Riofilme sejam tornados públicos - não somente através
do Diário
Oficial, mas sobretudo através de publicação na página
na internet da empresa, onde tais informações não
constam;
- Que cada jurado
faça um parecer justificando sua decisão sobre cada projeto
apresentado à Riofilme (prática usual em concursos públicos
dessa natureza), e que todos estes pareceres, favoráveis ou não,
sejam tornados públicos e divulgados no site oficial da empresa;
- Que as comissões
de seleção, renovadas periodicamente, não estejam
ligadas à diretoria da Riofilme, separando a parte burocrática
da empresa dos méritos de seleção.
- E que, enfim, a
Riofilme adeqüe seu estatuto de forma a permitir a
reapresentação dos projetos, tanto para possibilitar uma
revisão de
julgamento em novas circunstâncias como para permitir a
requalificação do projeto a partir da correção
de problemas apontados pelos pareceres dos jurados.
Estaremos entregando
nos próximos dias na Riofilme uma carta aberta - um pequeno abaixo-assinado
- endereçada à empresa e à Secretaria das Culturas,
requerendo a revisão do projeto, levando em consideração
todos estes incidentes, e apresentando abertamente estas propostas. Além
disso, estamos enviando cartas semelhantes a essa a outros representantes
da imprensa e ao prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, que é
em última instância o responsável pelas políticas
adotadas pela Riofilme.
Não nos parece
que caiba discutir muito, em nenhuma de nossas cartas, a questão
do filme em si. É um filme de baixíssimo orçamento,
foi feito basicamente com uma equipe de alunos e formandos do curso de
cinema da UFF, já está filmado e montado, teve o investimento
das verbas da Universidade e foi feito com estas verbas e com apoios e
cachês cedidos por todos. Mas do nosso filme nós vamos cuidar.
E da Riofilme? As
nossas perguntas são simples: é do interesse dos
contribuintes do Rio de Janeiro que a situação continue
assim? É do
interesse dos cineastas que apresentam ou um dia apresentarão
projetos à Riofilme que este tipo de tratamento seja usual? É
de
interesse de todos que, se dentro de alguns anos um projeto
semelhante aportar na empresa, ele tenha o mesmo tipo de tratamento? Ou
é preciso fazer alguma coisa para que as opções da
empresa sejam transparentes e isentas? Para que se tenha certeza que os
jurados tomaram conhecimento integral do material apresentado e fizeram
seus julgamentos com clareza?
Por isso trazemos
nosso caso a público. Porque a Riofilme, com
quaisquer problemas que possam ser apontados, é o órgão
governamental que mais apóia o cinema brasileiro - não há
uma Sampafilme, uma Recifilme, uma POAfilme, uma Beagáfilme. E
é por uma Riofilme ativa, eficiente e transparente na sua política
de apoios que estamos lutando, porque basta olhar para o panorama do cinema
brasileiro na última década que podemos perceber que um
órgão dessa natureza é imprescindível. Da
mesma maneira, basta olhar para o mesmo panorama para vermos que, embora
imprescindível, este apoio está muito aquém da demanda
que se faz presente. Num caso desses, isenção e transparência
são critérios fundamentais. Para não dar margem a
fofocas, teses conspiratórias, suposições de toda
natureza, enfim.
É isso. Uma
vez que levamos o caso a público, estaremos aguardando respostas
à nossa requisição de revisão do projeto e
às nossas propostas.
Abraços,
Daniel Caetano
André Sampaio
Guilherme Sarmiento
Samantha Ribeiro
Julia Moraes
Márcio Menezes
Cynthia Sims
Miguel Viveiros de Castro
Fernando Donan Tunes
Pedro Moreira
Auíra Ariak
Renata Reis
Carlos Sanches
e demais componentes da equipe do filme "Conceição
- Autor Bom é
Autor Morto"
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