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Acerca
da crítica de Cidade de Deus, feita por Felipe Bragança
Sou uma "mera amante" de cinema e gosto de ler quem entende de cinema. Gosto muito do site de vocês, mas duas críticas que li me incomodaram muito. Sinceramente não entendi, e gostaria de entender.. Espero que vocês me respondam. Copiei alguns trechos de vocês, com meus "questionamentos" logo abaixo. Então, vamo"s lá. Crítica número 1, sobre Cidade de Deus: 1: "... explosão
estética, uma perfeita caixa-de-bombons, o filme se encarna com
uma coesão 2: outro trecho: 3."baseadas
numa dramatização realista, salpicada de pequenos escapes
cômicos. Talvez para esse cinema, cujo ponto de vista aposta numa
suposta autoconsciência de distanciamento (o diretor, ao se assumir
como um "estrangeiro" acaba tratando seus personagens como alienígena)..." "Cidade de
Deus transforma o espaço da favela numa espécie de Disneylândia
às avessas, onde tudo nos leva ao caos e à violência,
mas não deixa de ser um parque temático de atrações,
sons e imagens..." "Capturado
num cerco estético, que faz de sua narrativa uma atração
de movimentos e pequenos "causos"..." "Transforma-se
a violência e o caos numa comédia dramática cujo maior
objeto de identificação é o crescimento afetivo e
o amadurecimento de um personagem marcado pela violência, e que
dá a volta por cima através do trabalho e do talento. Um
discurso fácil, capaz de acomodar o público após
a enxurrada pirotécnica de tiros e sangue."
"O frenesi
de Cidade de Deus conquista justamente por conseguir explicar de forma
lúdica que diabos é esse tal "resto do Brasil"..." "O sinistro
resultado não é o entrecruzamento entre as verdades sociais
brasileiras, mas o alargamento do abismo, dando novamente à classe-média
brasileira o cetro de poder e de consciência, ela, a poderosa detentora
do olhar cinematográfico, que vem a público prestar seu
pesar diante daquele mundo de violência e miséria. Os pobres
continuam alienados, a imprensa continua interesseira, os policiais continuam
corruptos, a classe-média continua em "Pobre cinema
que se vale da realidade como muleta para sua falta de ânimo. Pobre
realidade dependente de um cinema tão cínico, tão
interesseiro, que lhe suga o sangue, lhe tira o que interessa, e lhe deixa
de lado, à deriva, intocada. Essa educação, esses
bons "Cidade de
Deus é perigoso à medida que dá sinais claros dessa
suposta de compreensão, à medida que pretende fazer política
através da síntese, do mapeamento." "Os personagens,
objetos de uma política externalizada, continuam calados, agindo
como autômatas." "O público,
escondido atrás do espelho falso, se espanta e se diverte diante
de seus anti-heróis...incapazes, ambos, que ainda estão,
de se olhar dentro do mesmo quadro." "Mais um giro
em torno do próprio rabo..." Bom, agora vamos a BEIJANDO JESSICA STEIN Outra crítica de vocês que me irritou foi sobre este filme bobo. Eu não tinha ligado a mínima para este filme. Fui ver como uma sessão da Tarde. Mas enfim, estava escrito: "Aqui, não
se tenta nada: há um conformismo existencial se passando por socialmente
liberal (ao tratar de um tema minoritário como o lesbianismo) que
pressupõe uma visão de mundo tão dócil e pacata
quanto um sábado à tarde sem nada para fazer." Enfim, foi o que o texto de vocês me passou, se eu estiver errada, por favor me corrijam. Um abraço Resposta - Felipe Bragança Oi, Luna Vou comentar ponto a ponto os seus comentários, acho que em certos aspectos discordamos, em outros acho que alguns termos foram entendidos de forma rasteira. O que é mais curioso sobre os efeitos diretos de minha crítica é o fato de incomodar os dois lados da moeda: quem ama o filme se incomoda, quem odeia o filme se incomoda também. O fato é que discordo dos dois posicionamentos diante do filme, tanto os que pregam suas "maravilhas" quanto dos que o condenam como um "lixo". Você parece ter gostado muito do filme, e de certa forma recortou no meu texto ( um pouco por uma pré-disposição, talvez, em achar que eu condenaria o filme), apenas os trechos em que aponto pontos negativos. Só não vou comentar as partes em que você insinua "maldade" de minha parte, acho que essa idéia vai desaparecer conforme você ler meus argumentos. 1- A comparação com Domésticas é pertinente à medida em que ambos os filmes, apesar de ser de gêneros diferentes, têm um aspecto central de motivação narrativa: o descortinamento de um universo estranho à classe média consumidora de cinema, isolando o universo de seus personagens e montando um painel de "causos" que apontam para um mapeamento "sociológico" daquele espaço. Dois filmes já representam uma obra e, nesse movimento de uma cinematografia de descoberta do real, Meirelles dá um passo corajoso com Cidade de Deus. Ambos os filmes têm co-diretores, que contribuem com linguagem e experiências próprias, mas a tônica de Meirelles da apresentação em tour/painel de um universo "marginalizado" é uma marca central. 2-Os atores estão muito bem no filme - digo isso aqui: "Cidade instiga pela força de suas personagens (num belíssimo trabalho de construção de gestos)". A palavra "patéticas" está usada, isso foi erro meu em não deixar claro, no sentido direto do termo dramático: "Patético = 1. Que desperta compaixão, comovente. 2- Trágico, sinistro." O personagem de Zé Pequeno é o resumo disto, por mesclar a presença realista com um tom indiscutivelmente trágico, simbólico de seu personagem morto ao final por crianças armadas que ele mesmo armou... 3-Assumir o distanciamento não é "honesto". É "covarde". Essa postura de se assumir como um alienígena naquele espaço torna-se muito nociva quando transforma aquele espaço num mundo à parte. A grande questão, à qual Cidade de Deus é cego, é o fato de que aquele mundo não está "à parte" do mundo da classe média, mas faz parte do mesmo mundo, são expressões diferenciadas de UMA MESMA realidade. Quando o cineasta aposta nessa suposta imparcialidade, cai no erro de querer se desligar do universo filmado, transformá-lo numa dimensão à parte - esquece que ele, cineasta, é um agente social por si mesmo, e que isolar-se na montanha de trás das câmeras é uma tentativa inútil e infrutífera. Eduardo Coutinho é o único cineasta brasileiro que tem trabalhado sistematicamente com uma postura rica nesse sentido. Beto Brant, em O Invasor, também consegue fazer esse movimento de forma magnífica ( leia minha crítica no arquivo da Contracampo). A classe média não tem que se envergonhar de ser classe média, mas tem que aprender a olhar o outro através de seus próprios (da classe média) gestos - isolar o outro como objeto dá à classe média um status de agente social muito perigoso e equivocado - esse é o limite de Meirelles: Cidade de Deus consegue diretamente dar à classe média o cetro da consciência social, menosprezando a consciência local das pessoas que vivem em Cidade de Deus. 4-Você diz que o filme não faz nenhum discurso...O próprio uso do personagem central como narrador, a dramaturgia em painel e os recursos dinâmicos de linguagem mostram que a imparcialidade é uma opção discursiva como qualquer outra (no que diz respeito à sua necessidade de uma construção). Essa "imparcialidade" que valoriza de forma indireta o valor do talento e da civilização descoberta pelo "caminho do bem" de Buscapé. O problema é que, além de eu considerar esse discurso de "inclusão social pura e simples" uma espécie de ilusão (onde na verdade se submete as pessoas às normas de boa conduta do universo restrito da classe média), o filme faz isso sem assumir seu discurso - taí, novamente, o problema do distanciamento forçado e covarde. Cínico, até, de se querer alienado. O equívoco está na tentativa estética de se procurar uma fórmula de se retratar um universo externo, quando a estética será sempre, de qualquer forma, um esboço de um universo interno do realizador. O único jeito da classe média conseguir se aproximar do espaço do outro é descobrir aquele espaço como um "novo espaço seu", com todas as dúvidas e todas as faltas. Cidade tenta mapear aquilo que não se conhece...A pretensão de mapear é o grande erro. 5- Tenho minhas críticas ao livro de Paulo Lins em alguns aspectos. Esse status do "conhecimento de causa" usurpado por Meirelles é muito perigoso novamente por apontar para uma certa tentativa de não-estética narrrativa - como se as histórias contadas fossem nada mais do que recriações de fatos ocorridos. Cinema (arte) não se faz por conhecimento de uma causa a priori, mas através da descoberta de uma causa do próprio Cinema em relação ao universo pesquisado. Falo em "parque temático", e não em "parque de diversões", leia bem. "Temático" por se tratar de um tour guiado por Buscapé dentro de um universo todo preparado para o público com atrações diversas: tiroteios, drogas, avião, gerente de boca, polícia corrupta, como num grande resumo visual de um mesmo tema. O filme tenta esboçar todo o funcionamento daquele universo, e não consegue fugir de fazer isso através de atrações visuais de movimento e curiosos eventos para entreter o observador. 6- Sobre o Pesadelo: exatamente!!! Temos que perceber que estamos sim integrados com a Cidade de Deus!! Que essa história de Cidade Partida é um equívoco, que o que eu faço na minha casa trancado tem conseqüências diretas na vida de todos, inclusive na violência da Cidade de Deus. Nós estamos sim integrados com a Cidade de Deus, a nossa percepção visual é que não entende isso. E o filme passa longe...Cidade de Deus não é Pesadelo, assim como morar numa mansão não é sonho - são partes integradas sim de uma mesma realidade! Só percebendo isso poderemos nos colocar de forma diferente diante da tal figura do "outro". quando percebermos que o "outro" não sou eu, mas é parte de mim, queira-se ou não... 7-Sobre os outros pontos em geral: você pergunta o que eu faço que me diferencia tanto dos outros...Não, eu não sou um santo. A diferença de que falo é a tentativa de perceber que não se trata de entrar em uma ONG para mudar o universo menos favorecido de pessoas pobres, mas entrar em ONGs, acordar, trabalhar e escrever críticas também para mudar a si mesmo! Não se trata de culpa ou vergonha, visto que são sentimentos que visam o outro como objeto submetido a sua ação - mas de compartilhar com todos, incluídos os "excluídos", a responsabilidade. Todos nós moramos em Cidade de Deus, de uma forma ou de outra, mais ou menos, somos personagens daquele espaço, somos símbolos de seu imaginário, mesmo que admirados por nossas posses ou não...Mudar a Cidade de Deus não é mudar o outro, mas é mudar a nós mesmos. Enquanto o Cinema (como Meirelles) tratar o espaço da miséria como um espaço alheio, de cultura menor, alienado, de caos selvagem; os mais ricos continuarão condenados à cegueira de não perceber que também eles também se tornam, assim, alheios, alienados, selvagens...todos no mesmo barco. 8- Por fim, pulando um ou outro pontinho menos marcante, chegamos ao elogio ao filme como canal de abertura de Questões sobre a realidade Brasileira: é só reler o último parágrafo de minha crítica que isso também está lá: "Um filme essencial para todos os interessados no cinema e no Brasil. Um filme capaz de, através de uma observação crítica e ao mesmo tempo desarmada de sua presença marcante na tela, desnudar as frestas de um novo e revigorado ânimo para o olhar cinematográfico brasileiro. Um passo a mais em direção ao vasto universo de imagens e afecções que se anuncia no corpo imenso e fragmentado das grandes cidades brasileiras". 9-
Sobre o giro em torno do próprio rabo, esclareço: quem gira
em torno do próprio rabo é quem acha que está perseguindo
um objetivo como algo externo e não percebe que o rabo já
está preso à suas costas. Não entende que o problema
está atrelado a você, e não adianta correr atrás
de capturá-lo como um objeto externo. Cidade
de Deus funciona
assim: coloca a classe média novamente em seu movimento secular
de correr atrás do problema da violência e da miséria
quando o problema emerge e constitui justamente seus próprios hábitos
sociais e políticos. Sobre a crítica correr atrás
do próprio rabo, acho que ela faz isso quando acredita ter que
optar entre ser mais "sabedora" do que o público comum
ou ser uma representante direta das "pessoas comuns", dois equívocos
que nós da Contracampo evitamos sempre, apostando num trabalho
sistemático de análise fílmica, mas aberto as afecções
enriquecedoras que o público cotidiano pode nos trazer. Felipe Bragança Resposta - Ruy Gardnier Oi, Luna "Bom, agora vamos
a BEIJANDO JESSICA STEIN Para não
começarmos um embate que, creio, não interessa a nenhum
dos dois sobre "quem sabe mais da situação do lesbianismo
no Brasil", é fácil concluir que o preconceito é
inversamente proporcional à educação que se recebe
e à forma como as pessoas próximas falam do assunto. Assim,
se há Por fim, nós
de Contracampo acreditamos que não é porque um filme é
bobinho que ele deve ser desconsiderado. Muito pelo contrário.
Alguns filmes pretensamente bobinhos escondem por trás de sua modéstia
um vigor muito forte, mesmo que imperceptível à primeira
vista. Ao contrário, há filmes que se supõe serem
muito espertos, muito inteligentes, muito importantes e acabam revelando-se,
esses sim, realmente bobinhos, quando não bobões. Mas Um abraço,
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