Acerca da crítica de Cidade de Deus, feita por Felipe Bragança


Olás,

Sou uma "mera amante" de cinema e gosto de ler quem entende de cinema. Gosto muito do site de vocês, mas duas críticas que li me incomodaram muito. Sinceramente não entendi, e gostaria de entender.. Espero que vocês me respondam. Copiei alguns trechos de vocês, com meus "questionamentos" logo abaixo.

Então, vamo"s lá.

Crítica número 1, sobre Cidade de Deus:

1: "... explosão estética, uma perfeita caixa-de-bombons, o filme se encarna com uma coesão
interna que logo o transforma no estereótipo da obra-prima.
Talvez para o cinema de Meirelles, responsável pela desconjuntada comédia de costumes
(dos outros...) Domésticas, Cidade de Deus seja mesmo o ápice de sua expressão".
Digo uma coisa: domésticas é mesmo ruim, domésticas é mesmo patético, mas a comparação aqui é pertinente? Um filme não tem nada a ver com outro, e domésticas foi co-dirigido com Nando Olival, creio que tem mais a marca dele. Ou não poderia ser visto
uma "evolução" do Fernando? É um filme só que o cara fez, um filme equivocado, não dá para falar como se fosse toda a "obra" do cara. Me parece tão maldoso e desnecessário isto.

2: outro trecho:
"Observação social distanciada, de deslocamento espacial, de interpretações realistas e patéticas..."
Patéticas quando????? A maioria dos atores me pareceu excelente, e o trabalho de direção de atores muito competente, visto que se trata praticamente da estréia deles no cinema.

3."baseadas numa dramatização realista, salpicada de pequenos escapes cômicos. Talvez para esse cinema, cujo ponto de vista aposta numa suposta autoconsciência de distanciamento (o diretor, ao se assumir como um "estrangeiro" acaba tratando seus personagens como alienígena)..."
"para esse cinema de fotografia amena/sépia, cujo corpo dos negros brilha épico diante do mar de sangue, Meirelles tenha chegado ao limite da expressão...Um limite corrosivo, nocivo, perigoso."
Acho que assumir o distanciamento é honesto e diz mais ainda sobre a nossa realidade.quem de nós, classe média, conhece aquilo de perto, de perto mesmo??? Alienígenas????? quando? Acho que é legítimo o que o cara fez, a classe média não tem que se envergonhar de ser classe média!!!! E toda tentativa de aproximação é uma tentativa de inclusão. porque o limite é corrosivo, nocivo, perigoso????

4. "A centralidade da narrativa nesse personagem "bom", nesse personagem marcado pela descoberta dos atalhos para "um outro mundo" fora da Cidade de Deus, reafirma um dos maiores equívocos de análise praticado estética e politicamente por esse cinema dito
"engajado"."

Parece "engajado" a você??? Pelo jeito que vocês escrevem, parece mais um caça níqueis.. O filme não faz nenhum discurso.. não entendo, se é publicitário, é engajado, se tenta se aproximar da realidade, é pretensamente engajado, então qual é o tom certo
do seu ponto de vista? O manifesto de glauber rocha? Pergunto porque, se alguém fala de um equívoco, deveria saber explicar porquê, ou então fazer o "contraponto".

"Cidade de Deus transforma o espaço da favela numa espécie de Disneylândia às avessas, onde tudo nos leva ao caos e à violência, mas não deixa de ser um parque temático de atrações, sons e imagens..."
Naquela mortandade toda? Não sei de onde vem a noção de "parque temático" de vocês.

"Capturado num cerco estético, que faz de sua narrativa uma atração de movimentos e pequenos "causos"..."
o livro é assim, e é verídico!!! Ou pelo menos escrito com conhecimento de causa.

"...o espaço da Cidade de Deus se "desespacializa" e se transfere para a dimensão perigosa do pesadelo. Como num universo paralelo, Cidade de Deus permanece intocado pelo pequeno mundo da classe-média produtora de imagens."
Acho que a dimensão do pesadelo é realista ali.e é um universo paralelo mesmo, ou você, eu, e toda a classe média estamos integrados à cidade de deus?

"Transforma-se a violência e o caos numa comédia dramática cujo maior objeto de identificação é o crescimento afetivo e o amadurecimento de um personagem marcado pela violência, e que dá a volta por cima através do trabalho e do talento. Um discurso fácil, capaz de acomodar o público após a enxurrada pirotécnica de tiros e sangue."
Comédia dramática??? E não sei se Buscapé acomoda a ninguém.


"O que assusta é o cinismo, a incapacidade de olhar através de si mesmo: a classe-média observa suas periferias com cautela. Olha-a como um espaço externo a ser "curado", a ser "cuidado". A classe-média produtora de imagens se mantém incapaz de enxergar. Se há
doença a ser curada, ela, a classe-média, faz parte dela. O universo paralelo não é o da Cidade de Deus! Mas o da própria classe-média que filma. Os excluídos socialmente somos nós, enjaulados numa estética que ainda enxerga o espaço da pobreza com pesar,
com piedade, como se a cultura da violência e da fome não fosse também a nossa cultura. Não a nada a ser descoberto "lá fora", sem que para isso se atravesse o olhar por dentro de nossos próprios corpos bem alimentados."
Eu entendo o distanciamento do diretor como um tipo de autocrítica.e uma crítica à toda a nossa sociedade..acho isto positivo.Eu posso fazer parte de Ongs e colaborar contra a violência, mas isso acaso me faz "imune", ou me livra disto, ou redime minha culpa? A classe média tem que se envergonhar de cidade de deus??? O que mais a classe média deveria fazer, e o que
você faz que te diferencia tanto disto???

"O frenesi de Cidade de Deus conquista justamente por conseguir explicar de forma lúdica que diabos é esse tal "resto do Brasil"..."
Lúdica aonde?????

"O sinistro resultado não é o entrecruzamento entre as verdades sociais brasileiras, mas o alargamento do abismo, dando novamente à classe-média brasileira o cetro de poder e de consciência, ela, a poderosa detentora do olhar cinematográfico, que vem a público prestar seu pesar diante daquele mundo de violência e miséria. Os pobres continuam alienados, a imprensa continua interesseira, os policiais continuam corruptos, a classe-média continua em
Ipanema..."
Poder aonde????? Que poder??? Detentora do olhar cinematográfico, porque fez um filme???? E se Os pobres continuam alienados, a imprensa continua interesseira, os policiais continuam corruptos, a classe-média continua em Ipanema, isto não pode ser
mostrado, mesmo sendo redundante?? a culpa e solução está apenas na classe média???? Ou no seu direito de denunciar, reivindicar, expor, se posicionar diante disto tudo???? Claro que tudo continua, o filme não é uma revolução, deveria ser???!!!

"Pobre cinema que se vale da realidade como muleta para sua falta de ânimo. Pobre realidade dependente de um cinema tão cínico, tão interesseiro, que lhe suga o sangue, lhe tira o que interessa, e lhe deixa de lado, à deriva, intocada. Essa educação, esses bons
modos entre o criar de imagens e a estetização realista dos fatos resulta de uma profunda incapacidade de se deixar levar pela energia própria daquele espaço. Cidade de Deus se faz sobre a estética milimétrica, exata, pré-fabricada por demais para ir além do que já lhe era projetado; tornando-se incapaz de, além de se debruçar sobre aquele espaço, deixar que o espaço de debruce sobre ele."

Muleta, falta de ânimo, interesseiro? Pobre cinema, cinema tão cínico, tão interesseiro, que lhe suga o sangue, lhe tira o que interessa, e lhe deixa de lado, à deriva, intocada.???? O
que você entende por cinema? Que o diretor salvasse a todos, que aparecesse com a capa do Zorro? Acho que muitos aspectos do debate sobre aquele espaço foram abertos.basta ler os jornais. Que estética milimétrica é esta, como se deve medir a violência, no centímetros dos canos usados???? Nos 35 mm? Não entendo. Não
escrevo para você para te contestar simplesmente, não tenho nenhum ganho com isto, mas é que o filme me tocou pura e simplesmente por ser o que é, e não entendo o que você diz, me parece rancoroso por vezes..

"Cidade de Deus é perigoso à medida que dá sinais claros dessa suposta de compreensão, à medida que pretende fazer política através da síntese, do mapeamento."
Que tipo de política???? E que tipo de mapeamento?

"Os personagens, objetos de uma política externalizada, continuam calados, agindo como autômatas."
C
alados?? Autômatos? Em que caso???

"O público, escondido atrás do espelho falso, se espanta e se diverte diante de seus anti-heróis...incapazes, ambos, que ainda estão, de se olhar dentro do mesmo quadro."
Como assim? Como você fala pelo público??? Quem é capaz de se divertir com este filme????

"Mais um giro em torno do próprio rabo..."
E aí? Quem mais está girando em torno do próprio rabo? E a crítica brasileira, está girando em torno de quê?

Bom, agora vamos a BEIJANDO JESSICA STEIN

Outra crítica de vocês que me irritou foi sobre este filme bobo. Eu não tinha ligado a mínima para este filme. Fui ver como uma sessão da Tarde. Mas enfim, estava escrito:

"Aqui, não se tenta nada: há um conformismo existencial se passando por socialmente liberal (ao tratar de um tema minoritário como o lesbianismo) que pressupõe uma visão de mundo tão dócil e pacata quanto um sábado à tarde sem nada para fazer."
O que quer dizer isto? Você acha ainda que a aceitação homossexual é tão penosa ainda, sempre? Você não conhece nenhuma lésbica que tenha contado à sua família e etc e esteja tudo bem? Tem gente que vive exatamente como aquela mulher. Claro que há ainda algumas controvérsias, ainda mais no Brasil, mas há muita mulher ok com isto!!! Tudo bem que era uma mulher de origem judia, longe da minha realidade, mas é isso que eu acho que o filme tenta "problematizar": algumas dificuldades vividas pelas lésbicas. Mas não com o moralismo que sua crítica tende a mostrar sobre quem fez o filme.

Enfim, foi o que o texto de vocês me passou, se eu estiver errada, por favor me corrijam.

Um abraço
Luna

Resposta - Felipe Bragança

Oi, Luna

Vou comentar ponto a ponto os seus comentários, acho que em certos aspectos discordamos, em outros acho que alguns termos foram entendidos de forma rasteira. O que é mais curioso sobre os efeitos diretos de minha crítica é o fato de incomodar os dois lados da moeda: quem ama o filme se incomoda, quem odeia o filme se incomoda também. O fato é que discordo dos dois posicionamentos diante do filme, tanto os que pregam suas "maravilhas" quanto dos que o condenam como um "lixo". Você parece ter gostado muito do filme, e de certa forma recortou no meu texto ( um pouco por uma pré-disposição, talvez, em achar que eu condenaria o filme), apenas os trechos em que aponto pontos negativos. Só não vou comentar as partes em que você insinua "maldade" de minha parte, acho que essa idéia vai desaparecer conforme você ler meus argumentos.

1- A comparação com Domésticas é pertinente à medida em que ambos os filmes, apesar de ser de gêneros diferentes, têm um aspecto central de motivação narrativa: o descortinamento de um universo estranho à classe média consumidora de cinema, isolando o universo de seus personagens e montando um painel de "causos" que apontam para um mapeamento "sociológico" daquele espaço. Dois filmes já representam uma obra e, nesse movimento de uma cinematografia de descoberta do real, Meirelles dá um passo corajoso com Cidade de Deus. Ambos os filmes têm co-diretores, que contribuem com linguagem e experiências próprias, mas a tônica de Meirelles da apresentação em tour/painel de um universo "marginalizado" é uma marca central.

2-Os atores estão muito bem no filme - digo isso aqui: "Cidade instiga pela força de suas personagens (num belíssimo trabalho de construção de gestos)". A palavra "patéticas" está usada, isso foi erro meu em não deixar claro, no sentido direto do termo dramático: "Patético = 1. Que desperta compaixão, comovente. 2- Trágico, sinistro." O personagem de Zé Pequeno é o resumo disto, por mesclar a presença realista com um tom indiscutivelmente trágico, simbólico de seu personagem morto ao final por crianças armadas que ele mesmo armou...

3-Assumir o distanciamento não é "honesto". É "covarde". Essa postura de se assumir como um alienígena naquele espaço torna-se muito nociva quando transforma aquele espaço num mundo à parte. A grande questão, à qual Cidade de Deus é cego, é o fato de que aquele mundo não está "à parte" do mundo da classe média, mas faz parte do mesmo mundo, são expressões diferenciadas de UMA MESMA realidade. Quando o cineasta aposta nessa suposta imparcialidade, cai no erro de querer se desligar do universo filmado, transformá-lo numa dimensão à parte - esquece que ele, cineasta, é um agente social por si mesmo, e que isolar-se na montanha de trás das câmeras é uma tentativa inútil e infrutífera. Eduardo Coutinho é o único cineasta brasileiro que tem trabalhado sistematicamente com uma postura rica nesse sentido. Beto Brant, em O Invasor, também consegue fazer esse movimento de forma magnífica ( leia minha crítica no arquivo da Contracampo). A classe média não tem que se envergonhar de ser classe média, mas tem que aprender a olhar o outro através de seus próprios (da classe média) gestos - isolar o outro como objeto dá à classe média um status de agente social muito perigoso e equivocado - esse é o limite de Meirelles: Cidade de Deus consegue diretamente dar à classe média o cetro da consciência social, menosprezando a consciência local das pessoas que vivem em Cidade de Deus.

4-Você diz que o filme não faz nenhum discurso...O próprio uso do personagem central como narrador, a dramaturgia em painel e os recursos dinâmicos de linguagem mostram que a imparcialidade é uma opção discursiva como qualquer outra (no que diz respeito à sua necessidade de uma construção). Essa "imparcialidade" que valoriza de forma indireta o valor do talento e da civilização descoberta pelo "caminho do bem" de Buscapé. O problema é que, além de eu considerar esse discurso de "inclusão social pura e simples" uma espécie de ilusão (onde na verdade se submete as pessoas às normas de boa conduta do universo restrito da classe média), o filme faz isso sem assumir seu discurso - taí, novamente, o problema do distanciamento forçado e covarde. Cínico, até, de se querer alienado. O equívoco está na tentativa estética de se procurar uma fórmula de se retratar um universo externo, quando a estética será sempre, de qualquer forma, um esboço de um universo interno do realizador. O único jeito da classe média conseguir se aproximar do espaço do outro é descobrir aquele espaço como um "novo espaço seu", com todas as dúvidas e todas as faltas. Cidade tenta mapear aquilo que não se conhece...A pretensão de mapear é o grande erro.

5- Tenho minhas críticas ao livro de Paulo Lins em alguns aspectos. Esse status do "conhecimento de causa" usurpado por Meirelles é muito perigoso novamente por apontar para uma certa tentativa de não-estética narrrativa - como se as histórias contadas fossem nada mais do que recriações de fatos ocorridos. Cinema (arte) não se faz por conhecimento de uma causa a priori, mas através da descoberta de uma causa do próprio Cinema em relação ao universo pesquisado. Falo em "parque temático", e não em "parque de diversões", leia bem. "Temático" por se tratar de um tour guiado por Buscapé dentro de um universo todo preparado para o público com atrações diversas: tiroteios, drogas, avião, gerente de boca, polícia corrupta, como num grande resumo visual de um mesmo tema. O filme tenta esboçar todo o funcionamento daquele universo, e não consegue fugir de fazer isso através de atrações visuais de movimento e curiosos eventos para entreter o observador.

6- Sobre o Pesadelo: exatamente!!! Temos que perceber que estamos sim integrados com a Cidade de Deus!! Que essa história de Cidade Partida é um equívoco, que o que eu faço na minha casa trancado tem conseqüências diretas na vida de todos, inclusive na violência da Cidade de Deus. Nós estamos sim integrados com a Cidade de Deus, a nossa percepção visual é que não entende isso. E o filme passa longe...Cidade de Deus não é Pesadelo, assim como morar numa mansão não é sonho - são partes integradas sim de uma mesma realidade! Só percebendo isso poderemos nos colocar de forma diferente diante da tal figura do "outro". quando percebermos que o "outro" não sou eu, mas é parte de mim, queira-se ou não...

7-Sobre os outros pontos em geral: você pergunta o que eu faço que me diferencia tanto dos outros...Não, eu não sou um santo. A diferença de que falo é a tentativa de perceber que não se trata de entrar em uma ONG para mudar o universo menos favorecido de pessoas pobres, mas entrar em ONGs, acordar, trabalhar e escrever críticas também para mudar a si mesmo! Não se trata de culpa ou vergonha, visto que são sentimentos que visam o outro como objeto submetido a sua ação - mas de compartilhar com todos, incluídos os "excluídos", a responsabilidade. Todos nós moramos em Cidade de Deus, de uma forma ou de outra, mais ou menos, somos personagens daquele espaço, somos símbolos de seu imaginário, mesmo que admirados por nossas posses ou não...Mudar a Cidade de Deus não é mudar o outro, mas é mudar a nós mesmos. Enquanto o Cinema (como Meirelles) tratar o espaço da miséria como um espaço alheio, de cultura menor, alienado, de caos selvagem; os mais ricos continuarão condenados à cegueira de não perceber que também eles também se tornam, assim, alheios, alienados, selvagens...todos no mesmo barco.

8- Por fim, pulando um ou outro pontinho menos marcante, chegamos ao elogio ao filme como canal de abertura de Questões sobre a realidade Brasileira: é só reler o último parágrafo de minha crítica que isso também está lá: "Um filme essencial para todos os interessados no cinema e no Brasil. Um filme capaz de, através de uma observação crítica e ao mesmo tempo desarmada de sua presença marcante na tela, desnudar as frestas de um novo e revigorado ânimo para o olhar cinematográfico brasileiro. Um passo a mais em direção ao vasto universo de imagens e afecções que se anuncia no corpo imenso e fragmentado das grandes cidades brasileiras".

9- Sobre o giro em torno do próprio rabo, esclareço: quem gira em torno do próprio rabo é quem acha que está perseguindo um objetivo como algo externo e não percebe que o rabo já está preso à suas costas. Não entende que o problema está atrelado a você, e não adianta correr atrás de capturá-lo como um objeto externo. Cidade de Deus funciona assim: coloca a classe média novamente em seu movimento secular de correr atrás do problema da violência e da miséria quando o problema emerge e constitui justamente seus próprios hábitos sociais e políticos. Sobre a crítica correr atrás do próprio rabo, acho que ela faz isso quando acredita ter que optar entre ser mais "sabedora" do que o público comum ou ser uma representante direta das "pessoas comuns", dois equívocos que nós da Contracampo evitamos sempre, apostando num trabalho sistemático de análise fílmica, mas aberto as afecções enriquecedoras que o público cotidiano pode nos trazer.
grande abraço, obrigado pelo diálogo,

Felipe Bragança

Resposta - Ruy Gardnier

Oi, Luna
Ficando a parte "arrasa quarteirão" para o Felipe, me resta comentar sobre um mero parágrafo de um filme que, como você mesma disse, é pra lá de bobinho... mas vamos lá:

"Bom, agora vamos a BEIJANDO JESSICA STEIN
Outra crítica de vocês que me irritou foi sobre este filme bobo. Eu não tinha ligado a mínima para este filme. Fui ver como uma sessão da Tarde. Mas enfim, estava escrito: "Aqui, não se tenta nada: há um conformismo existencial se passando por socialmente liberal (ao tratar de um tema minoritário como o lesbianismo) que pressupõe uma visão de mundo tão dócil e pacata quanto um sábado à tarde sem nada para fazer." O que quer dizer isto? Você acha ainda que a aceitação homossexual é tão penosa ainda, sempre? Você não conhece nenhuma lésbica que tenha contado à sua família e etc e
esteja tudo bem? Tem gente que vive exatamente como aquela mulher. Claro que há ainda algumas controvérsias, ainda mais no Brasil, mas há muita mulher ok com isto!!! Tudo bem que era uma mulher de origem judia, longe da minha realidade, mas é isso que eu acho que o filme tenta "problematizar": algumas dificuldades vividas pelas lésbicas. Mas não com o moralismo que sua crítica tende a mostrar sobre quem fez o filme."

Para não começarmos um embate que, creio, não interessa a nenhum dos dois sobre "quem sabe mais da situação do lesbianismo no Brasil", é fácil concluir que o preconceito é inversamente proporcional à educação que se recebe e à forma como as pessoas próximas falam do assunto. Assim, se há
"muita mulher ok com isso", isso não quer dizer que a maioria seja. Pelo contrário: o lesbianismo ainda é entrave para muitas coisas, sobretudo nas carreiras mais carregadas de códigos, como a advocacia. Ou nas famílias em que os códigos são mais ortodoxos, como as judias. E da mesma forma, para cada Ipanema liberal há 300 Ramos e pequenos municípios que não estão preparados nem aceitam muito bem quem foge da Lei Moral. Eis o que queria
significar "minoritário". Creio que foi essa expressão que fomentou seu desejo - sempre válido, e sugerimos que o faça sempre que sentir vontade - de escrever para tirar qualquer dúvida. Quanto à frase, por ela mesma ela só diz "O filme acha que a felicidade é um vazio sábado à tarde", coisa com a qual provavelmente concordamos, e condena esse valor acusando-o de conformista.

Quanto a meu conhecimento de lésbicas que vivem como aquela mulher, sim, conheço diversas, algumas delas minhas amigas, mas creio que isso por si só não quer dizer nada. Ou quer?

Por fim, nós de Contracampo acreditamos que não é porque um filme é bobinho que ele deve ser desconsiderado. Muito pelo contrário. Alguns filmes pretensamente bobinhos escondem por trás de sua modéstia um vigor muito forte, mesmo que imperceptível à primeira vista. Ao contrário, há filmes que se supõe serem muito espertos, muito inteligentes, muito importantes e acabam revelando-se, esses sim, realmente bobinhos, quando não bobões. Mas
Jessica Stein não é nada disso. É apenas um pequeno filme pequeno. Passemos ao próximo.

Um abraço,
Ruy Gardnier