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Rodar Muito Prazer significou, para mim, um retorno em muitos sentidos gratificante. Não é possível negar que o cinema, além de arte e indústria, tenha uma outra conotação básica: a de satlsfazer o emissário de certas idéias, senão novas, ao menos pessoais. Apesar de viver dele há quase 20 anos, levo-o um pouco na brincadeira; meu recado básico é que, se a vida é aula, um filme deve ser o retrato dela, apesar de admirar todos os retoques mais graves que por esse mundo afora lhe têm sido aplicados. Complicar a vida, porém, jamais. Deixo essa missão cinematográfica para pessoas mais pacientes e/ou disponíveis. Em Muito Prazer, duas vidas, ou melhor, dois tipos de vida se confrontam e se interpenetram. Não há propriamente uma reação química com a combinação desses dois elementos, mas é nítida a diferença das valências, no caso de esse termo específico poder ser usado, aqui, num sentido comunitário. Três arquitetos trabalham em um escritório diante de um cruzamento onde três pivetes vendem suas mercadorias típicas. Essa idéia me veio por via bastante diferente da que se pode, à primeira vista, imaginar. De início, parti da concepção de um orçamento baixo, isto é, um filme concentrado praticamente no mesmo lugar, o que me possibilitou um controle mais acurado das despesas. (O mar não está para peixe: o mercado cinematográficá brasileiro está saturado até mesmo para seus caciques, e de celulóides caros, como de boas intenções, o inferno está pegando fogo). E afinal, uma incursão nesse campo mercadológico seria válida até mesmo como experiência. Tenho hoje a consciência nítida de que a aventura surtiu efeito, e de que é possivel fazer-se entre nós um cinema mais econômico sem que o resultado final seja gravemente comprometido: um filme não vale necessariamente o que ele pesa em ouro, e há outros sistemas de pesos e medidas para que seu valor real seja aferido. Várias pessoas de todas as tendências viram Muito Prazer, desde a saída de sua primeira cópia até esta parte, e as opiniões vão desde a curiosa "trata-se de um gigantesco Super-8", lisonjeira sobretudo pelo adjetivo gigantesco, àquela outra, dita de modo algo perplexo: "Era para ser uma tragédia, não é?" Todas elas, entretanto, constituíram-se num respiradouro para as minhas aflições e agonias. Para quem não filmava há nove anos, Muito Prazer transformou-se num reencontro, num auto-reconhecimento: o corpo estranho, exterior a mim, virou coisa familiar, íntima, e em momento algum o sentimento de rejeição deu o ar da sua graça. Pode ser que Muito Prazer tenha um lado ameno; ameno ao ponto de ser comparado a um home movie, mas é inegável que nessa amenidade estejam contidas algumas provocações. Certo tipo de displiscência provoca, ou melhor, intriga. Isso se explica pelo que André Gide chamava de "parte de Deus": certas particularidades geradas pelos antes e pelos depois de qualquer trabalho artístico, como coisas próprias e autônomas e das quais o autor toma conheciménto a posteriori. Isso existe em qualquer filme que se propõe como tal e é o que faz da atividade de filmar uma cachaça (em permanente estado de fermentação). A situação dos pivetes em confronto com os arquitetos, seu existencialismo, longe de ser estilização, cristaliza-se provocadoramente através não só do roteiro, ou da direção, mas no modo particular de ser dos atores que os representam na tela. Nesse particular, Muito Prazer foge ao corriqueiro, assumindo o realismo (ou a realidade) à sua maneira. Muito Prazer visto (ou lido através deste depoimento) é muito mais um trabalho de equipe e esse dado não pode faltar aqui. Falar só da "parte de Deus" seria parcialmente injusto com a troupe que me acompanhou durante todo o tempo da realização, do roteirista, da equipe técnica aos atores. Declarei, no pressbook do filme, que o cinema é arte coletiva (e a comparação mais contundente é com a construção das antigas catedrais, que mobilizava uma quantidade enorme de pessoas). Continuo achando que não vou fazer charme de modesto se disser, na mesma linha de pensamento, que Muito Prazer mais parece uma aconchegada e liberal capela ecumênica construída num simpático mutirão que sofreu inúmeras influências* e contou com a colaboração de vários amigos. David Neves * Basicamente, os pivetes de Muito Prazer derivam de uma projeção no tempo dos moleques de Rio Quarenta Graus, de Nélson Pereira dos Santos e de Couro de Gato, de Joaquim Pedro de Andrade. Mas não nego que, dentro da ótica da visão do adulto pela criança, outros filmes (como os Mistons de François Truffaut) e livros (como as Nine Stories de J. D. Salinger) participaram de minhas divagações sobre o filme.
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* Basicamente, os pivetes de Muito Prazer derivam de uma projeção no tempo dos moleques de Rio Quarenta Graus, de Nélson Pereira dos Santos e de Couro de Gato, de Joaquim Pedro de Andrade. Mas não nego que, dentro da ótica da visão do adulto pela criança, outros filmes (como os Mistons de François Truffaut) e livros (como as Nine Stories de J. D. Salinger) participaram de minhas divagações sobre o filme. |