Como se faz uma casa


1994

Estava atrasado. O fato de não saber bem onde era que devia saltar me desviou uns quatro ou cinco pontos do caminho certo, que percorri andando e contemplando a bela "paisagem útil" dos arredores da Cinelândia e de Glória, misturada às árvores da entrada do Parque do Flamengo. Chego enfim ao destino: um estacionamento que dá entrada a uma pequena porta de vidro, com alguns avisos e folhetos anexados. Nada que dê a dimensão do que aquele lugar já tinha sido, considerado por David Neves como o ponto de partida para o cinema novo, e depósito de metade da produção em película disponível no Brasil e algo como a salvaguarda da memória carioca de cinema.

O filme, naturalmente já tinha começado, e, internamente, me puni mil vezes por não ter saído de casa antes, por não ter checado no mapa da cidade o ponto certo de ônibus em que devia saltar, minha inabilidade em caminhar pela cidade, etc. Enquanto a mente me açoitava, o corpo fazia a tarefa habitual, sem muita magia: tirar do bolso o dinheiro e pagar o ingresso ao bilheteiro que, lembro, ainda não estava acostumado a cobrar meia-entrada para estudantes (e eu só tinha o suficiente para pagar a seção dupla com tarifa de estudante).

Um corredor particularmente escuro transmitia a sensação de caverna, e os sons da sala contígua já testemunhavam o filme começado. O tatear a porta no meio do escuro ficou mais sôfrego, cada segundo de fotogramas perdidos significando mais uma série de chibatadas mentais vindas da vontade de um moleque que odiava estar errado. A porta vem, afinal, e a primeira imagem que eu vejo é a de um avião que voa de cabeça para baixo. Sento na cadeira mais próxima, onde eu possa incomodar menos gente pela minha chegada um tanto estabanada, e me dirijo a um assento no fim da sala - espécie de lugar que eu logo abandonaria, tomando cedo o hábito de me sentar sempre nas primeiras fileiras, experimentando a ilusória sensação de estar "a sós" com o filme e, por extensão, com o cinema.

A cena ainda acontecia, e era possível reconhecer Charlie Chaplin brigando com seu avião como se fosse com um cavalo. Era O Grande Ditador, e até hoje não sei quantos minutos perdi. Sei que rapidamente passei a acompanhar a história e pouco a pouco fui entrando nela, com os olhos muito esquisitos, de um aluno entrando numa sala de aula por cuja disciplina tinha uma estranha devoção, não a do simples amor pelo cinema, mas pela vontade de compreender o que tornava certos filmes "clássicos" enquanto outros se perdiam na poeira do tempo. Era isso que antes de tudo gostaria de reconhecer nesse filme, no que fui logo presenteado: uma poderosa mensagem antimilitarista, o incrível charme da figura de Chaplin, uma síntese dialética improvável juntando a figura do palhaço-Chaplin com o demônio-Hitler me bastaram para que elegesse eu mesmo, sem nada ter visto ainda, um clássico.

Acaba o filme e percebe-se a sala muito cheia. A audiência vai saindo, e os rostos parecem ter tido uma experiência semelhante à minha, misto de reverência, de prazer, de comunhão. Afinal, era um filme em película, desses que só podem passar em cinematecas e centros culturais porque não precisam atender a todos os padrões de qualidade de hoje (ausência de riscos na película, cópia em 35mm...). Me vinha logo à cabeça que estar ali era participar de uma estranha cerimônia, de uma ritualística bizarra, de um cemitério onde vinha se celebrar não a morte, mas seu contrário - a continuidade daquilo que estava sempre prestes a ser destruído: a memória, e mais particularmente a memória audiovisual, cinematográfica. Não fazia a menor idéia se as pessoas ali presentes partilhavam de todo esse pensamento comigo ou só acabavam de assistir a um filme que as deixava imensamente contentes, mas uma vez que via aquilo e não me demandava nenhuma prova decisiva, definitivamente senti-me em casa. Não numa casa privada, a minha casa, mas numa casa que era de todos, que todos por sua vontade podiam ir e vir. Uma casa pública.

Minhas elucubrações, porém, tinham que ter um fim. Afinal, como o filme de Chaplin, programado para as 16h30, tinha mais do que duas horas de duração, o filme seguinte, programado para as 18h30, seria exibido imediatamente ao esvaziamento da sala. Compro novamente o bilhete e me posiciono em fila. Não é nada fácil assistir um filme depois de O Grande Ditador, e muito menos o filme que é considerado como a maior obra-prima de todos os tempos em matéria de cinema. Pois a sessão seguinte era Cidadão Kane de Orson Welles.

Sento no mesmo lugar da projeção anterior e fico de olhos bem abertos. Afinal, Cidadão Kane é um verdadeiro monstro para alguém recém saído do colégio e interessado em entender um pouco mais dessa coisa que é cinema. Não só eu tinha que gostar do filme – senão minhas futuras pretensões de pessoa inteligente iriam água abaixo –, como tinha que entendê-lo todo, saber por que o filme era absolutamente revolucionário, por que era melhor do que todos os outros. Eu não lidava nem mais com um filme, mas com um gigante.

E como criança obediente, sentei e vi, devorando tudo desde o primeiro plano, desde as atualidades "News on the march" até o majestoso travelling que vai desde a tabuleta de "No trespassing", ultrapassa a clarabóia de uma casa e vai parar na figura de uma mulher, evidentemente embriagada. Toda a história do filme e sua relação com os gigantes das comunicações americanas - os paralelos com William Randolph Hearst - me interessava muito pouco diante de todo esse uso incrível dos modos de expressão cinematográfica: geniais planos em movimento, narrativa picotada (algo ainda não completamente usual antes de Pulp Fiction, que só seria sensação no ano seguinte), lances geniais de montagem... além de certas coisas, que mais tarde se adicionaram à experiência do filme, como a análise de André Bazin que me ensinava o que era "profundidade de campo" e como Welles e Renoir se utilizavam dela para criar o cinema moderno. Se era o grande filme de todos os tempos, pouco importava - afinal, outros filmes que havia assistido na minha pouca cultura cinéfila desde então, como Hiroshima Mon Amour de Alain Resnais ou Um Corpo Que Cai de Alfred Hitchcock, me criaram choques semelhantes.

Só que alguma coisa se deu no meio da sessão. O aluno estudioso se tornou amante devoto. Ou melhor, menos aluno (nunca me acostumei a anotar os filmes que assistia ou a fazer anotações na sala de cinema) e menos devoto (sempre odiei as comparações entre cinema e religião e entre salas de cinema e templos), mais amante estudioso. De uma hora para outra eu fazia parte daquele mundo, que iria freqüentar assiduamente e considerar minha segunda casa por quatro anos, até que uma vez não pude encontrar a chave de porta: numa seção de meio-de-semana, Fando y Lis de Alejandro Jodorowski, eu era a única pessoa presente e o próprio diretor da sala, com um semblante incrivelmente mais abatido do que eu mesmo, me avisava que a sessão seria cancelada por falta de público, que as novas regras da casa impediam que o filme passasse sem um mínimo de quatro pessoas. Quatro anos depois, a casa me era recusada, resultado de uma política cinematográfica ainda hoje vigente, que quase conseguiu acabar com a cinefilia no Rio de Janeiro.

Mas o amante estudioso persistiu. Na impossibilidade de freqüentar a sala, passou a freqüentar os interiores: tornou-se trabalhador voluntário da documentação. Quanto a arranjar outra casa, decidiu formar um grupo para escrever de cinema, e fez uma revista. A casa se tornou difusa, "virtual", para usar a infeliz palavra que designa a cultura de internet. Mas uma casa para, acima de tudo, abrigar aquilo que eu antes considerava como cinefilia. Sobre cinefilia, muito se falava naquela época, sobre a dificuldade de dimensionar a palavra. Eu, por minha conta, tinha uma definição muito direta e clara dela: "Cinéfilo é quem vai à Cinemateca". Cinefilia, para mim, jamais foi o hábito de ver muitos filmes e, eventualmente, comentar com os amigos. Muito menos o aspecto "programa" que é assistir a filmes e comentá-los na mesa de bar (embora adore fazê-lo). Ser cinéfilo consistia antes de tudo em participar de uma certa comunidade, aproveitando disso o radical "comum" da expressão: uma casa de pessoas preocupadas com o cinema, com tudo aquilo que diz respeito ao cinema: a memória, a imagem, mas acima de tudo aquilo que está do outro lado da imagem - o mundo. Não um gosto pelo cinema, mas uma determinada maneira de ver cinema e ver o mundo a partir do cinema, que - soube mais tarde - é justamente o que Serge Daney caracterizou como cinefilho. Porque não é uma questão de "o quanto" gostar de cinema, mas acima de tudo "como" gostar de cinema.

Seja a palavra qual for, o importante foi a vivência que se criou. Esses filmes, eu não quis jamais vê-los em vídeo. Cidadão Kane, ao menos, eu vi mais duas vezes, sempre na mesma sala. O Grande Ditador permanece invisível, ao menos seu comecinho. Seguiu-se todo meu aprendizado em cinema, sempre lá: Godard, toda a nouvelle vague, todo o cinema brasileiro, da Cinédia aos anos 80, de irmãos Marx e Frank Capra até David Lynch e Fellini, todo o aprendizado nasceu do olhar. Nunca quis fazer curso de cinema porque nunca quis aprender cinema pelos ouvidos, mas pelos olhos. E isso, eu só podia fazer lá, na Cinemateca do MAM.

Ruy Gardnier