O fascínio do imperfeito



Meia noite no jardim do bem e do mal, de Clint Eastwood
Midnight in the garden of good and evil, EUA, 1997
Cine América 3, 1997

Escolher uma única sessão de cinema como aquela que marcou a sua formação como cinéfilo é algo complicado para qualquer um. No meu caso selecionar uma sessão fica ainda mais difícil. Explicando: até pouco mais de 2 anos atrás eu morava em Cuiabá onde as poucas salas de cinema passavam só os lançamentos maiores do circuitão.

Minha relação com cinema nesta época se dava muito mais através do vídeo. Eu locava cerca de sete filmes por semana, era daqueles que passava mais de hora checando cada prateleira da locadora mesmo já conhecendo elas melhor do que quem trabalhava por lá. Às vezes acho que naquela época o ritual de ir até a locadora para escolher os filmes me interessava mais do que os filmes em si. O resultado é que boa parte dos filmes que mais mexeram comigo neste período foram vistos em vídeo. Não que não fosse ao cinema. Eu ia uma ou duas vezes nos fins de semana (dependendo do que entrasse em cartaz) mas nesse período o cinema me era mais um complemento, uma forma de me manter atualizado com o que estava sendo produzido.

Eu estava bastante interessado em ver Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal que vinha tendo o seu lançamento seguidamente adiado desde o fracasso nos Estados Unidos. Eu já era nesta época fã do Clint Eastwood por conta de Os Imperdoáveis e Um Mundo Perfeito e, o mais importante, esse era um filme "sério" de Clint Eastwood. Minhas lembranças da sessão não são das mais precisas. Tenho certeza de que fui acompanhado do meu irmão caçula que era meu companheiro de cinema na época (e continua sendo sempre que estou em Cuiabá). Sei também que vi o filme no Cine América 3 que fica dentro de um shopping center onde originalmente havia só uma sala e que depois foi expandido com a demanda; o resultado é que as outras salas (em especial essa 3 que sempre foi a sala dos filmes "pequenos") tem uma acústica deplorável, ao ponto de às vezes se escutar o barulho do lado de fora. O mais importante, o que realmente ficou foi uma sensação de estranhamento. Por que exatamente eu tinha gostado tanto deste filme?

Até ali eu achava que o filme tinha que ter um roteiro redondo e sem furos, que as atuações deviam ser uniformes, que cada cena deveria ter uma função bem clara, que cada personagem devia ser muito bem construído psicologicamente. Ou seja, que tudo no filme tinha que obedecer um padrão que eu enxergava como bom ou certo.

Por que então eu tinha gostado de Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal? A direção de atores me parecia incerta, o ritmo era tão lento que as cenas caíam na redundância de tempo em tempo, o filme acabava e o protagonista continuava sendo uma figura ambígua. E eu continuava achando o filme ótimo; tinha algo errado ali.

Não vou dizer que o filme abalou completamente minha idéia do que seria um filme "bom", mas certamente ajudou a colocá-la em questão. Foi uma das primeiras vezes (com certeza a primeira na tela grande e nela que esta sensação costuma ser mais forte) em que percebi que o cinema é algo muito mais complicado, que ele não podia ser reduzido a uma formula, que às vezes um plano perdido no meio de uma cena aparentemente sem importância te diz mais do que a trama dele.

Shohei Imamura costuma dizer que faz questão de garantir que os filmes dele tenham pequenos defeitos, porque um filme perfeito é algo enfadonho. Foi vendo Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal que esta afirmação começou a me fazer sentido. Vi o filme algumas outras vezes depois e continuo achando-o ótimo. Hoje já não me sinto desconfortável com minha reação diante dele, não me incomoda mais o ritmo ou a ambigüidade do protagonista, mas ainda vejo uma série de pequenas imperfeições: ele não seria o mesmo sem elas.

Filipe Furtado