Elementos para uma visão


História(s) do Cinema de Jean-Luc Godard

Não resta dúvida de que a importância de Godard no cinema compara-se à de Picasso na pintura. Mas como o trabalho do genial cubista, sua obra pode parecer de difícil compreensão. Pode-se, e deve-se, assistir a um filme dele sem maior conhecimento. E como se estivéssemos diante de um quadro, devemos então deixar falar a nossa sensibilidade. E talvez ver mais de um filme antes de começar a apreciá-los. Porém, possuir algumas noções, permite compreender melhor a importância de um quadro de Picasso. Da mesma forma, apresento aqui algumas pistas para uma reflexão em torno do trabalho de Jean-Luc Godard e da sua evolução em mais de quarenta anos de carreira.

1. Montagem: A preocupação de Godard com a montagem, remonta aos tempos de crítico na lendária Cahiers du Cinéma. Na fase da Nouvelle Vague, o jóvem Godard propõe um novo uso da montagem, baseada na ruptura entre os planos, na repetição, na disjunção entre som e imagem. Ao levar a herança neo-realista às suas últimas consequências, coloca a pedra definitiva do cinema moderno. Um cinema que se anuncia como tal, preferindo à transparência da narrativa clássica, sua manifestação explícita pela presença de elementos da filmagem (câmera, microfone, fotômetro...), pelas elipses e rupturas temporais, pelo uso da película em negativo. Um cinema que terá grande influência mundo afora, inclusive no Brasil, como é possível constatar nas primeiras obras de Glauber ou Sganzerla. A partir de Pierrot le fou, esboça-se uma mudança. No filme, Godard explicita seu interesse pelo que há "entre as coisas". Articula-se então um trabalho mais sutil, no qual a junção entre dois planos passa a ter um papel essencial. É nessa passagem de um plano para o outro que pode manifestar-se algo inexistente em cada um. Da junção de duas imagens nasce uma terceira, no espectador. Aos poucos vemos aparecer o estilo godardiano atual, baseado em blocos de imagens, muitas vezes um plano só, confrontando-se uns aos outros, dialogando entre si e tecendo uma estrutura ao mesmo tempo simples e terrivelmente complexa. Uma complexidade que se apóia também no trabalho cada vez mais sutil do som, e se manifesta de modo deslumbrante nas suas Histoire(s) du cinéma.

2. Ideologia: O percurso político de Godard espelha-se nas suas obras. O Godard da Nouvelle Vague é um homem politicamente ambíguo, como fica claro em Le Petit Soldat, que fala da guerra da Argélia. Na maior parte de seus filmes da época, parece mais interessado num olhar sociológico ou poético sobre o mundo. Mas aos poucos vai se antenando com a sua época e seu discurso começa a se radicalizar em direção a uma visão de esquerda a partir de Deux ou trois choses que je sais d’elle. A opção maoista, patente em La Chinoise, o levará a formar o grupo Dziga Vertov, com o qual realiza filmes políticos coletivos. A volta ao cinema tradicional em Sauve qui peut (la vie) dará lugar a um Godard mais distanciado, mais filosófico, profundamente preocupado pelo lugar do homem, porém numa perspectiva histórica. Esta visão histórica e engajada, como em Forever Mozart, está no centro do seu cinema atual. Na visão de Godard, a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto são o ponto traumático do século vinte, a partir do qual nada mais pode ser como antes, nem mesmo o cinema.

3. Arte X cultura: A presença da arte erudita e popular é constante na obra de Godard. No entanto, se na fase Nouvelle Vague há um fascínio pelos produtos da sociedade de consumo (musica pop, quadrinhos, publicidade), este fascínio acaba dando lugar a uma visão crítica que utiliza tais produtos para denunciar a sociedade que o produz. Deste ponto de vista, Deux ou trois choses que je sais d’elle é exemplar, retratando de maneira visionária o homem como derradeiro objeto de consumo. Em contrapartida, o amor de Godard por todas as formas de arte erudita começa com a coleção de citações em Acossado, que vão desde Mozart até Picasso. Mas esta simples erudição aos poucos transforma-se numa verdadeira reflexão sobre a arte, como em Passion, até chegar a uma visão profundamente pessimista. Pensar a pintura, ou a música, é pensar também o cinema. Para o Godard dos últimos tempos, o final do século vinte é testemunha do inelutável desaparecimento da arte, tal como concebida no ocidente desde a Renascença, e o cinema não foge a este destino. Seu cinema aparece então como um cinema de resistência, ao mesmo tempo combativo e desiludido.

4. O escrito: A palavra escrita, o sinal gráfico, começam a aparecer em Alphaville e Pierrot le fou. Godard é um dos raros cineastas (excluo aqui o caso à parte do cinema experimental) a empregar o escrito como elemento fundamental na composição visual, rítmica de um filme. O aspecto reflexivo dos seus filmes encontra aí sua mais pura forma de expressão. Com o vídeo, Godard leva essa prática ao seu limite, mesclando imagem e texto, brincando com as palavras, num trabalho de montagem dentro do plano. Sempre com essa filosofia de provocar uma terceira imagem/idéia da confrontação das duas primeiras.

5. Religião: A cultura protestante de Godard só vem a manifestar-se de maneira óbvia depois da fase maoista. Antes disto, sua visão do mundo é pouco influenciada pela religião. A partir das obras dos anos oitenta, instaura-se um pessimismo, uma visão melancólica do homem e do mundo em perdição. Um mundo em que a palavra perdeu sua força e ameaça derrotar a palavra sagrada em Je vous salue Marie. Um mundo que espera pela redenção. Uma redenção que virá talvez pela imagem. É ao menos o que Godard quer crer.

Carim Azeddine