Editorial



Mário Benvenutti e Sandra Bréa em Os Mansos de Pedro Carlos Rovai

De nosso passado, a memória da classe cinematográfica (englobando com essa palavra não só os que trabalham com cinema, mas o conjunto amorfo das pessoas que – mesmo desenvolvendo atividades em outras áreas quaisquer – amam e se importam com o cinema brasileiro) guarda principalmente dois ânimos inspirados em dois momentos diferentes. O primeiro é o cinema comercial "de qualidade", e a Atlântida, a Cinédia e a Vera Cruz se tornam modelos de uma possível indústria de cinema com o velho sonho de filmes com padrão técnico suficiente e boa aceitação pela população (se bem que cada vez mais mostra-se que um não deriva do outro, cf. A Partilha). O segundo, de raízes bastante diferentes, é o cinema novo, defendido como a única possível matriz de um cinema mais relevante social e artisticamente, pois preocupado não tanto nos bolsos quanto naquilo que está acima do estômago. Dessa lógica primária da nossa memória, existe um terceiro excluído: a pornochanchada. Detestada por ambos os grupos, ela volta pela janela, como objeto recalcado freudiano. E volta pela televisão, com os onipresentes biquínis dos espetáculos-de-realidade (reality-shows), com a comédia erótica de O Quinto dos Infernos ou com os quadros infames de um Gugu ou de um João Kleber.

Chance, então, para Contracampo pesquisar e recuperar a importância estética, econômica e social desse gênero tão odiado e mal-visto, ao mesmo tempo visto com maus olhos e com nenhum olho, pois é um dos gêneros também mais desconhecidos do cinema brasileiro. Tentamos jogar alguma luz no assunto analisando não só as pornochanchadas típicas, mas também os limites e subgêneros (o pornodrama, o policial-erótico). Aliás, observar que tanto no cinema "elegante comercial" quanto nos engajados do cinema novo a pornochanchada se insinuou de forma bastante mais profunda para que os adeptos de um ou outro possam sustentar o julgamento preconceituoso.

Além disso, pela segunda vez (e esperamos que a tradição se mantenha), a redação se juntou no começo do novo ano para discutir sobre o cinema brasileiro do ano que passou no Cinema Falado. O resultado está aí, em sete partes, dois dias de discussão que tentam cobrir a totalidade de lances, intrigas e realizações por que passou o universo do cinema nacional em 2001.

Por fim, outra tradição é a votação de Melhores do ano, tanto por parte dos redatores quanto dos leitores, que mais uma vez mostraram ressonâncias com as opiniões da revista (caso da inclusão de três filmes chineses: Vive l'Amour, Amor à Flor da Pele e Yi Yi, e do japonês Tabu), francas oposições (Amores Brutos) ou fizeram a justiça de alguns filmes defendidos por poucos redatores (AI, Lavoura Arcaica). Acima de tudo, delineia-se o diálogo, como se vem fazendo. Uma boa leitura.

Ruy Gardnier

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