Fragmentos do espetáculo
World Trade Center, Televisão e Terrorismo



Num país de proporções continentais como os Estados Unidos, a presença de uma unidade nacional, assim como a de uma imagem de identificação norte-americana, está ligada diretamente aos meios de comunicação de massa. Falar de um evento nos EUA é também falar do modo como esse evento chega até as demais partes do país, de como se cria uma unidade, seja através da TV, seja da Internet. Diante dos ataques sofridos no World Trade Center (WTC) pelos intitulados grupos terroristas, a opinião pública americana tem se mostrado extremamente radical em sua defesa de uma pronta resposta violenta à fontes de seu horror. Cerca de 90% da população norte-americana apoia uma retaliação imediata. Se não podemos diretamente ter contato com a percepção física da tragédia e da comoção norte-americana, minuciosas observações, ou pequenos comentários, podem servir para gerar a discussão e as insinuações de rastros do como e através de quê imaginário suas opiniões estão sendo formadas, transformadas e refletidas. A cobertura dos eventos pela rede CNN de Televisão é um dos espaços de maior destaque para a reflexão de como as notícias se embrenham na sociedade norte-americana. Partindo de fragmentos de idéias e imagens transmitidas nos últimos dias pela CNN, talvez seja possível não ainda um encaminhamento linear das questões, mas um mosaico de idéias que se intercalam em uma forma reveladora:

O "Ao Vivo" – 11/09

As transmissões Ao Vivo de todos os acontecimentos daquela terça-feira ganhou uma proporção ainda mais radical nas telas da TV – por um raro momento, espectadores e jornalistas se encontraram no mesmo espaço de percepção: as imagens das explosões se lançavam violentamente diante dos olhos não ainda por suas consequências humanas, mas por seus efeitos visuais e físicos. A queda das duas torres do WTC diante das câmeras se mostrou ainda mais radical como experiência: como poucas vezes, tivemos a oportunidade de observar a imagem do vídeo ainda não dirigida pelos comentários objetivos do jornalismo. As imagens das explosões, da chegada do segundo avião tiveram um efeito ainda mais avassalador diante da ignorância dos repórteres e jornalistas em explicar o que ali se via. Via-se, assim, um evento catastrófico sem que seus parâmetros fossem mastigados a nossos olhos. No Ao Vivo dos atentados esteve grande parte de todo o Terror que os ataques conseguiram espalhar – naquela presença de uma imagem semi-crua, não-mastigada, em que os próprios jornalistas exclamavam onomatopéias de medo, houve um dos espaços mais diretamente livres da transmissão de imagens: A sensação de que aquelas imagens não estavam guardadas em algum lugar, mas estavam livres, numa sucessão ainda futura de acontecimentos que fugiam ao alcance do espectador e das câmeras, fazia-as ainda mais assustadoras...

Imagens de Cabul – 11/09

No início da noite, imagens de Cabul, capital do acusado Afeganistão, eram transmitidas por uma tecnologia precária anunciada pela CNN como um Videophone: as imagens mostravam um possível ataque americano ao Afeganistão. A capital Cabul não passava de um conjunto de borrões de luz salpicadas pelas luzes dos disparos não identificados. Ao contrário da clareza e da visualidade da presença norte-americana na chamada tragédia de NY – a aparição de Cabul era a de um negro borrão de luzes em movimento sob a tentativa interpretativa de um repórter americano. Descoberto o equívoco (os ataques eram frutíferos da guerra civil vivida no país e não de uma ofensiva dos EUA) o repórter se desculpou: não havia o quê ser mostrado ali, naquele borrão de imagem não havia nada a ser mostrado. As explosões ali filmadas eram indiferentes aos acontecimentos. Estavam se matando no Afeganistão, mas nada havia mesmo de interessante num país e numa cidade cuja imagem era a de um conjunto de luzes inexpressivas...

Comemorações Palestinas – 11/09

As comemorações de grupos de Palestinos pelo ataque sofrido pelos EUA foram mostrados em seguida nas tvs de todo o mundo: grupos de homens e mulheres cantavam e gritavam nas ruas com suas bandeiras. Uma mulher recebe um close-up da imagem, destacando o movimento de sua língua sendo batida no ceú da boca (uma sonoridade característica das línguas árabes): esse movimento parecia mostrado como um gesto um asqueroso, debochado, repugnante. Impossibilitado de entender o que cantavam, devido a minha ignorância da língua árabe, fui obrigado a acreditar na firme e taxativa versão da voz off em belo inglês americano: They are saying their God is stronger. Essa frase dita assim, isolada, seca, como um desafio ao Deus americano desmoralizado por aquela aparente algazarra nas ruas da Palestina. Ao fundo de um bar onde o dono distribuía comida pelas comemorações, uma geladeira da Pepsi-Cola gelava as bebidas...

Bush retorna ao lar – 11/09

Ainda sem nenhuma declaração oficial sobre os acontecimentos, o presidente Bush volta à Casa Branca: em silêncio, desce do helicóptero, caminha solitário por um gramado. A câmera abre seu enquadramento – mostra-nos o homem andando solitário, em diagonal em direção à câmera e à casa. O quadro vazio, os passos firmes, a câmera vê as portas se abrirem – corta...

Bin Laden em silêncio – 12/09

Acusado diretamente, o inimigo ganha um rosto, Bin Laden é mostrado diversas vezes em sua entrevista dada à um repórter americano há alguns anos. Não ouvimos, porém, nenhuma de suas palavras. Bin Laden é um homem cercado de soldados, de olhos esbugalhados e feição séria. Bin Laden está sempre em silêncio na CNN – apenas a legenda explicava: Osama Bin Laden, Terrorista acusado.

Repetição da imagem – hipnose – 12/09

A repetição da imagem do avião se chocando contra a segunda torre repetia-se incessantemente ilustrando todas as novas informações ditadas pelos jornalistas. Como uma espécie de perplexidade e tentativa de digestão do acontecimento, as fitas eram rebobinadas inúmeras vezes mostrando as mesmas imagens. Em cerca de cinco minutos de transmissão da CNN pude contar mais de 20 aparições do momento da explosão. Uma superesposição da imagem que gerava uma espécie de hipnose cada vez que era transmitida, um suspense a cercava: embora soubéssemos exatamente o que iria acontecer, uma tensão era infinitamente formada diante das tvs enquanto ilustravam todas as informações. Todas as frases informadas pelos jornalistas eram ouvidas sob a tensão ditada pela repetição das imagens da explosão e dos prédios ruindo como uma imagem sem fim... A imagem da explosão e dos prédios ruindo deve ter durado cerca de 2 minutos juntas... Minutos infinitesimados pela repetição esmagadora da TV.

Pessoas dão entrevistas nos EUA – 13-14/09

Ao contrário da algazarra palestina, os cidadões americanos pareceram ser bastante civilizados... Ao menos foi o que apareceu nas dezenas de entrevistas individuais e de telefonemas num programa chamado de Your Story que se seguiram à cobertura factual dos eventos. Americanos têm nomes, amigos, parentes. Americanos têm amor, orgulho e, principalmente, falam inglês... Inúmeras são as pessoas dando entrevistas com fotos de seus parentes desaparecidos. Não é exatamente clara a intenção dessas pessoas, aparentemente seu efeito é muito mais sua presença na TV do que a busca de seus parentes. Um gesto de imaginação dos nomes, aos poucos, os números vão ganhando nomes e profissões... Enquanto isso, uma algazarra continuava a agitar as ruas da Palestina...

Inúmeros ângulos da explosão – 13/09

Os dias seguinte ao ataque foram marcados por um festival de novos ângulos dos ataques ao WTC. Diversas câmeras amadoras haviam observado os acontecimentos – a tremedeira de suas imagens, aliada à qualidade das câmeras digitais portáteis e populares nos EUA facilitaram a mistura e confusão entre as imagens captadas por profissionais e amadores. A tragédia parecia ser inflada e crescer quanto mais crescia em visualidade. Quanto mais eram os ângulos mostrados, mais estarrecidos pareciam estar os repórteres e, curiosamente, os enquadramentos mais reveladores surgiram em uma sequência crescente. Cada vez se via com mais qualidade e precisão os movimentos do segundo avião. Quanto mais imagens surgiam, maior parecia ter sido a explosão – maior parecia ter sido o evento. As imagens não se repetiam, elas se acumulavam como um fortalecimento dos acontecimentos. A presença das imagens foi admitida como o detonador principal da massa de e-mails de todos os EUA recebidas pelo exército, vindos de jovens querendo se alistar para a guerra...

Vozes de desespero sobre as imagens de destroços – 13/09

Ao fim das reportagens, espécies de videoclips dos acontecimentos se repetiam com uma diferença: ao invés de música, a trilha sonora era a dos inúmeros telefonemas desesperados gravados por todo o país. Os juramentos de amor eterno, os medos de morte, tudo sobreposto à imagem dos prédios ruindo como se ouvíssemos as vozes dos ali presentes. Numa das seqüências mais impressionantes, a CNN conseguiu editar um telefonema de modo que o desligar brusco do telefone se ritmasse perfeitamente com a queda da torre número dois. Como uma reconstituição de fatos se aproveitando de rastros de ao vivo perdido – uma tentativa de recriar o momento da queda dos edifícios de forma a impressionar os espectadores e fazê-los represenciar o evento.

Repórter chora – 13/09

Dois choros marcaram a quinta-feira pós ataques na CNN: o do presidente Bush, em meio a um discurso na Casa Branca e o de uma repórter (Elisabeth Cohen) ao trasmitir uma entrevista com alguns parentes de desaparecidos. O choro do presidente e da repórter refletem esse sentimento de individualidade humana que parece estar permeando a reação norte-americana. Não apenas a força política, mas o sentido de auto-proteção, um forte fator de proteção de indivíduos ditos inocentes... A nação norte-americana dá sinais de uma unidade baseada nessa supervalorização de cada indivíduo: a cidadania americana parece estar diretamente ligada a um perfil de boa personalidade, de boa conduta individual, de bons amigos e parentes queridos. Mais do que defender cidadãos, Bush parece passar a idéia de estar defendendo mães, pais, amigos, irmãos, etc... A questão da cidadania como uma transformação do indivíduo em fator determinante das ações públicas abrangentes de um país, parecem não existir. Os "cidadãos americanos" são muito mais "indivíduos americanos" – todos inocentes, todos pacatos trabalhadores que não são culpados pelas questões políticas em que seu país se intromete...

Subtítulos: Under Atack x New War – 14/09

Na sexta-feira, uma mudança radical aconteceu na transmissão da CNN sobre os fatos ocorridos nos EUA, e isso se deu pela mudança de três palavrinhas... O título America Under Atack que permeava as notícias do atentado foi substituída pela marcante titulação: America`s New War. A simples titulação onipresente dos diversos acontecimentos ocorridos servem como ferramenta para o direcionamento perceptivo da imagens mostradas. A América atacada, abalada, reage e muda o título de suas manchetes: agora os EUA têm uma nova guerra... A realidade mastigada, direcionada aos efeitos diretos esperados. A América está em guerra, já titula a CNN. Desde a Guerra do Golfo, cujas transmissões ao vivo foram o grande boom comercial da CNN, a rede americana não tinha um prato cheio tão claro nas mãos. Transmitir as imagens dessa nova guerra não é apenas observar os fatos, mas, principalmente, a primeira trincheira erguida pelos EUA. A América está em guerra, avisa a CNN, e os primeiros passos para a Guerra anunciada estão sendo dados justamente nessa superexclamação de sua proveniente vinda...

Ataque visual – 14/09

Uma das forças maiores desse ataque aos WTC é, claramente, sua força imagética enquanto demolição de um ícone. Embora se pudesse imaginar um ataque mais destrutivo tecnologicamnte aos EUA, a derrubada de um dos símbolos de presença norte-americana no imaginário mundial, foi atacado com precisão. A arma maior dos atacantes foi definitivamente sua força imagética – seu ataque se baseou na demolição de símbolos de identificação nacional dos EUA. Assim, uma das armas de contra-ataque mais importantes para os EUA é justamente o caminho da televisão: é a partir da absorção da destruição de seu ícone que as imagens da CNN são capazes de remodelar e devolver ao imaginário americano ícones novos que remetam a uma reconstrução do poderio americano. Imagens como a dos bombeiros pendurando a bandeira dos EUA sobre o Pentágono atacado, ou a dos bombeiros erguendo a bandeira sobre os destroços do WTC são armas de força impressionante. Enquanto os ataques derrubaram duas torres de imaginário, a CNN e demais TVs norte-americanas parecem ter pego com unhas e dentes a missão de remodelar os ícones de força da reação do povo dos EUA. Ruas lotadas de bandeiras, fotos das pessoas mortas, tudo é usado como essa fonte de reconstrução de imagens que tenham o poder de desfazer o caráter de derrota em um momento de retomada de uma força e unidade nacional ainda maior. As imagens da TV ditam nossos medos e expectativas, vemos aquilo que ela constrói enquanto é transmitido: um país se preparando para a guerra...

Por início de um fim – 14/09

É uma pena que a democracia de nosso mundo livre não nos permita assistir a televisões como a Rede Nacional do Afeganistão ou mesmo as transmissões na íntegra das comemorações palestinas do ataque. Ficamos a mercê dos EUA e de seus binóculos vingativos a observar o mundo livre pelo olhar aprisionado em uma rede de TV e meia dúzia de Agências de notícias... O que deve haver de imagens brutais e reveladoras nas fitas de TV guardadas nas, aparentemente, inalcançáveis planícies do Afeganistão... O simples fato de estarmos virgens dessas imagens já nos mostra a fragilidade de nossas percepções. O dia em que Cabul for transmitida com a clareza imagética da dor americana, talvez possamos discutir sobre os conteúdos de suas imagens. Por enquanto, estamos obrigados a ver o mundo das TVs americanas e desconfiar, desconfiar sempre, da maneira poderosa com que redes como a CNN tem para recriar nossas próprias imagens. Não posso chegar a conclusões, apenas a de que há algo de incompleto no que vejo, há algo ali ainda não visto, as imagens não vistas serão sempre mais numerosas e é delas que devemos nos lembrar num momento de unilateralidade como esse... Fechando os olhos por alguns instantes, tentemos nos lembrar das imagens que ainda não vimos... O que estaremos vendo serão sempre fragmentos do espetáculo, recortes inóspitos de realidade. Entre os fragmentos, em seus intervalos, haverá sempre muitos sentidos inalcançáveis – sentidos que devem ser lembrados em seu esquecimento, em nossa ignorância. Apenas nos admitindo ignorantes, questões como essas do ataque a NY poderão ir além de nossas percepções primárias e de nossas reflexões limitadas. É a tentativa de onisciência norte-americana, bem representada por redes de TV como a CNN, que causam grande parte da incompreensão diante do sofrimento não alcançado, do sofrimento do outro. Não pode ser preciso compreender a dor do outro para reconhecê-la como tal – não podemos querer compreender tudo e dividir realidades em bons e maus (um dos maiores absurdos pronunciados pelo brucutu e presidente G. W. Bush)... Mas esse tipo de pensamento parece passar longe, bem longe, das lentes objetivas e limitadoras da Bondade panóptica dos Norte-Americanos. Se depender dos pedidos de vingança dos norte-americanos, e se lembrarmos que vingança nesse caso quer dizer um revide de imagens de destruição do inimigo – talvez tenhamos a guerra mais plasticamente preparada e organizada que as TVs de todo o mundo já sonharam mostrar...

Por enquanto é só...

Felipe Bragança