A Última Ceia- ou Como Dois Loucos Fizeram um Filme,
de Vojko Anzeljc


Zadinja vecerja, Eslovênia, 2001

Quão inovadora e refrescante pode parecer esta premissa: um filme feito em primeira pessoa por dois loucos fugitivos de um manicômio. Fantástico, não? Poderia até ser, dependendo de um detalhe fundamental: qual o conceito, entre inúmeros possíveis, usado para definir a loucura? E aí encontra-se o grande problema desta comédia, no fundo despretensiosa. Os seus loucos na verdade são pouco mais do que adultos com mentes infantis (isso tomando a palavra infantil como infantilizada). Portanto, para permitir a identificação com tal projeto, é pedido da platéia que faça o mesmo movimento: infantilize seu olhar. Nem todo mundo tem esta capacidade, e para os que não tenham, vai ser uma longa sessão a deste filme. Porque, a partir desta premissa, o filme dá voltas e voltas sobre o mesmo ponto, onde a graça principal esteja nos equívocos, gafes e piadas involuntárias destas "crianças grandes". É preciso um esforço para conseguir achar graça da vigésima vez que o personagem vira para a câmera e faz alguma piada com Hugo, o câmera.

Mas, o mais grave talvez seja o fato do filme compreender a loucura como uma forma inocente de buscar-se os mesmos ideais comuns na sociedade. Este realmente pode ser considerado seu maior pecado, na medida em que podemos pensar em definições que são o exato contrário disso: a loucura como não-aceitação das convenções sociais, a loucura como anarquia personalizada, a loucura como outra realidade que não a nossa. Aqui, não é o caso: a loucura é, tão somente, a nossa realidade pelos olhos de uma criança. O que leva a uma estrutura narrativa extremamente tola. O único ponto de maior interesse do filme, que poderia ser a sua câmera em primeira pessoa, assumida o tempo todo como presente na narrativa, também é renegado pelo diretor com o desnecessário e incompreensível uso eventual de uma câmera em terceira pessoa, do alto, um certo "olhar de Deus". Este olhar mostra no máximo uma covardia do diretor em abraçar completamente o olhar de suas criaturas, e este tipo de covardia e ingenuidade é o que marca, no fim das contas, o filme como um todo.

Eduardo Valente