Slogans,
de Gjergj Xhuvani


Slogans, Albânia/França, 2001

Vamos lá, cite de cabeça: quantos filmes você já assistiu sobre a Albânia, ainda mais feitos por um albanês? Certamente não muitos podem dizer terem visto sequer um. Pois bem, este é de longe o maior ponto de interesse deste Slogans: apresentar uma realidade pouco conhecida, uma geografia pouco vista, um olhar pouco mostrado. A segunda pergunta: é um bom filme? Não podemos responder que sim.

O filme parte de alguns pontos complicados. Primeiro, tasca na tela aquela frase que é um dos maiores complicadores do cinema mundial: "Baseado em fatos reais". Esta frase é usada a torto e a direito para ganhar uma certa adesão dramática do espectador, no sentido de "pôxa, mas isso aconteceu de verdade". Geralmente são filmes que denunciam alguma injustiça e querem ganhar a simpatia incontestável do espectador, por ser além de uma injustiça, algo de verdade! No fundo, é uma falácia, uma impossibilidade, já que nada "aconteceu de verdade" no mundo, tudo é a mediação de um olhar. Já não simpatizo muito com o uso desta frase. Mas, vamos ver a que ela serve. Aí, a porca torce o rabo de novo: outro letreiro aparece dizendo, "Albânia, 1979". Portanto, o filme remete a um momento histórico passado. Isso é grave nos "fatos reais" porque ninguém pode levantar agora e dizer: "Não é assim!" Estamos falando de um momento congelado no passado, portanto difícil de contestar, e ainda mais de mostrar ser diferente. Não é um bom começo para um filme.

E o que vem depois não vai negar um segundo destas impressões. O filme é, no fundo, uma imensa denúncia do sistema comunista como um modelo governamental ditatorial, injusto, falho. Pôxa vida, mas estamos em 2001, isso não é bater em cachorro morto? Pior, isso possui uma profunda covardia porque ninguém a estas alturas vai negar ou contestar nada disso. É como bater nos nazistas, ora, quem vai levantar e dizer que não era assim? Não há dúvida de que o comunismo foi uma experiência confusa, contraditória, e em inúmeras instâncias, injusta e ditatorial. Não se discute nada disso. O que se discute são duas coisas. Primeiro, por quê isso hoje? Por que não denunciar o que a entrada do capitalismo causou na Albânia, cujas histórias são tão soturnas quanto? E, em segundo lugar, discute-se o modo desta denúncia ser apresentada.

Porque a única coisa que os comunistas não fazem neste filme é comer as criancinhas, mas de resto eles fazem tudo. Espancam criancinhas, as injustiçam e humilham em público, manipulam a verdade, e pior dos piores pecados, separam o amor entre os protagonistas do filme. Isso, como se sabe, no cinema clássico americano principalmente, é maior pecado do que qualquer crime político. E tudo isso é encenado sem qualquer meio tom: os comunistas são maus e perversos o tempo todo, os que não concordam com eles são bons e gentis o tempo todo, e os segundos são humilhados e injustiçados o tempo todo pelos primeiros.

Aí, o espectador pergunta: mas será que isso não aconteceu assim mesmo? Hmmm... difícil de acreditar, mas de fato não importa. Porque no cinema de ficção importa muito menos o que aconteceu "de fato" e sim como se opta por retratar uma realidade. E a opção aqui foi a mais fácil: bater em quem não vai mesmo se defender, da forma mais maniqueísta possível, usando todos os artifícios mais chavões do cinema de ficção clássico. E chamar isso de "fatos reais".

O filme não possui nenhum interesse? Possui, como disse acima, revela uma geografia e uma paisagem humana desconhecidas, independente da sua proposta. E tem até sacadas que em mãos menos pesadas podiam render um bom filme, como a própria simbologia dos slogans que dão nome ao filme. E podia ser uma boa denúncia, por quê não? Como está é apenas uma denúncia fácil e vazia e um filme fraco.

Eduardo Valente