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Segredos de Família, de
Kjell-Ake Andersson
Familjehemligether, Suécia, 2000
Já nos primeiros planos,
enquanto os créditos passam, o espectador começa a perceber onde este
filme quer chegar: lá vem mais uma crônica familiar desconstruindo a instituição
familiar, mesmo a que pareça mais harmônica possível. Esta é a primeira
constatação do filme, mas a segunda vem da direção de arte, figurinos
e maquiagem: estamos nos anos 70. Enquanto o filme se desenrola nesta
introdução da trama, fica sempre a pergunta: será isso relevante? A resposta,
num primeiro momento, é que não. Os temas, as discussões, as relações
entre os personagens parecem atemporais. O espectador não pode nem negar
uma certa simpatia com a bela interpretação dos atores, e a condução íntima
e próxima que o filme tem com seus personagens. É fato que já desde este
início a sensação é de um certo déjà vu mas pelo
menos há algo de agradável na estrutura. Afinal pelo menos o registro
busca um tom um pouco mais naturalista do que os mais recentes exemplares,
na escola Beleza Americana, onde fica difícil qualquer tipo de
identificação com a caricatura clichê de estrutura familiar que nos é
apresentada. Aqui não, realmente a família em jogo é "gente como a gente".
Só que, de repente,
lá pela metade do filme, aquela ambientação dos anos 70 começa a fazer
um certo sentido, e de repente o que era um agradável déjà
vu vira a constatação de um filme-clone: Segredos de Família pode
ser considerado uma refilmagem de Tempestade de Gelo, de Ang Lee.
Não é brincadeira, era caso para processo por plágio. Não só a estrutura
familiar é absolutamente semelhante, como algumas cenas, em especial o
crucial momento de uma noite que inclui meninos brincando com energia
elétrica, uma festa de "swing", e o rompimento da relação entre marido
e mulher.
Não só a história e
seu desenvolvimento começam a ter esta semelhança quase assustadora:
também a mensagem do filme começa a andar na corda bamba de limites tênues
entre o moralismo mais rasteiro em defesa do núcleo familiar "apesar de
tudo" e o retrato da dificuldade daquela geração, naquele momento, em
conseguir romper com esta idéia. É difícil mostrar esta dificuldade sem
ser moralista, e neste sentido o filme talvez sirva até para redimir um
pouco mais Ang Lee, mostrando que ele acertou na mão, se comparado a este
clone. Inclusive porque há aqui uma "barriga" final de uns 25 minutos onde
a trama só faz se repetir, o que o domínio de linguagem de Lee não
permitiu no filme americano.
Com esta semelhança
impressionante, o filme acaba perdendo o pouco de original e refrescante
que seu início insinuava, e torna-se apenas uma burocrática reafirmação
de algo visto. Esta sendo a fronteira do agradável déjà
vu para o tédio repetitivo.
Eduardo
Valente |
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