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Uma
razão para o cinema digital (finalmente...)

Qualquer pessoa razoavelmente
informada sabe que nos últimos 10 anos nenhum assunto tomou tamanhas
proporções na discussão sobre cinema no mundo do
que a tal da "revolução do digital". Uma tecnologia que
barateava a realização dos filmes, que permitia maior democratização
no acesso, que permitia uma filmagem mais livre de regras, mais próxima
da experimentação, etc.
Pois bem, quase 6 anos depois do Dogma 95
(que, a bem da verdade, começou a dar frutos -ou melhor, filmes-
mais adiante), é da opinião deste escriba aqui que apenas
dois filmes fizeram crer que o digital pudesse representar algo de novo
no cinema mundial: o próprio Idiotas de Lars Von Trier e,
por incrível que pareça, A Bruxa de Blair. Foram
os únicos filmes que apresentavam reais mudanças que apenas
o digital tonasse possível, seja em linguagem, seja em organização
da produção. Claro, há inúmeros outros belos
filmes feitos em digital (como No Quarto da Vanda ou Festa de
Família), mas estamos falando de revoluções,
de algo radicalmente novo que a película não permitisse
antes de jeito algum.
Porque com a manutenção da
película como suporte de exibição, obrigando o filme
a passar pela kinescopagem para ser exibido em salas de cinema e, portanto,
ainda possuir um custo alto, o cinema de fato não se democratizou
tanto assim. Da mesma forma, ter a câmera livre para se mover, ou
reduzida para ser escondida, mostrou-se na enorme maioria das vezes muito
mais um flagelo na mão de cineastas sem propósito do que
uma benção na mão de grandes diretores. Finalmente,
a idéia de que o digital facilitava a realização
documentária ao libertar o realizador do custo da película
nos forçou a ver nos cinemas uma quantidade enorme de documentários
cujo lugar efetivamente era a TV, enquanto um gênio como Wiseman
continua realizando épicos de 4 horas em película.
É, portanto, com justificada desconfiança
que eu encaro qualquer conversa em torno do digital como revolucionário.
Ou melhor, encarava. Até que no último Festival de Curtas
de SP uma singela sessão especial no MIS jogou com a força
de uma bomba a verdade na minha cara.
Levemente escondida numa extensa programação,
tratava-se da sessão que exibiria o resultado de 3 oficinas de
realização cinematográfica mantidas em comunidades
carentes da cidade de SP pela mesma Kinoforum que organiza o festival.
Confesso culpadamente que num primeiro momento não havia nem me
agendado para ver a sessão. Tinha a tendência de achar que
seriam ou trabalhos constrangedoramente toscos os quais o público
do MIS aplaudiria piedosamente ou obviedades documentais sobre a realidade
das periferias. Fui ver simplesmente porque não tinha nada melhor
no horário, e porque havia uma penca de amigos pessoais relacionados
com o projeto. A estes, meu "mea culpa". Devia ter confiado que com os
nomes envolvidos, meus temores não podiam mesmo se confirmar.
Porque, meus amigos, o que eu assisti naquela
sessão restaurou não somente minha fé no cinema digital
como alternativa viável de realização democrática,
mas, acima de tudo, restaurou talvez minha fé no cinema de curta
metragem brasileiro. Cheio até a medula de seguidos curtas nacionais
cada vez mais gelados e engessados pelos concursos de roteiro, que cada
vez menos permitem experimentações, paixões, erros,
e cada vez mais produzem em quantidade caras brincadeiras vazias de realizar
um filme, nesta sessão vi 12 curtas melhores que toda a produção
brasileira do ano.
Num primeiro momento, tentei policiar meu
paternalismo. Ou seja, não queria ser "bondoso", perdoando trabalhos
fracos pelo não domínio da técnica ou da linguagem.
Não fazer aquela "defesa da miséria", de que a pobreza é
linda na sua criatividade, este canalha discurso de dominador. Não
precisava temer isso. Num segundo momento, me preocupou o nível
de interferência da equipe muito bem formada na ECA-USP que ministrava
as oficinas. O quanto os trabalhos são deles, o quanto são
dos alunos. Mas, nos discursos de abertura da sessão onde os alunos
apresentaram o trabalho ficou claro o potencial daqueles para realizarem
por si mesmos (com assessoria técnica, claro) qualquer tipo de
trabalho. E, digo mais, se eles sofreram interferência dos que ministram
as oficinas, o fato é que desta mistura saiu algo muito melhor
do que os professores jamais fizeram sozinhos.
E a revolução é de fato
dupla. Primeiro, de produção. Porque com os R$40.000,00
de patrocínio do projeto seriam realizados 16 curtas, ou seja,
pelo preço de cada um dos exercícios de futilidade que saem
dos concursos de roteiro que vemos a cada ano. Segundo porque realiza
em 4 dias o equivalente de troca e ensino que muitas faculdades de cinema
em 4 anos não conseguem colocar na prática de seus alunos.
Terceiro, porque da colisão cinematográfica de mentes e
corpos virgens de produzir suas próprias imagens com professores
formados, emerge um aprendizado de mão dupla que acaba criando
um resultado terceiro inesperado. E quarto porque finalmente podíamos
ver uma parcela da população como fazedora de imagens, e
não mais como objeto ou como consumidora. E como muda nossa impressão
sobre qual a sua imagem ao assistirmos.
Coletivamente os filmes impressionavam pelo
domínio de linguagem que pode sim ser atribuído aos professores,
mas isso seria diminuir o que é mais óbvio. Que, como consumidores
constantes (especialmente via TV, claro) estes jovens já possuem
um muito maior domínio da sofisticação audiovisual
do que queremos crer no nosso paternalismo. Os filmes impressionavam ainda
mais pela urgência do tema, pela necessidade de falar de si mesmo,
do que está à sua volta, o que o cinema brasileiro (de qualquer
bitola ou duração) parece se abster a cada dia de fazer.
Ou seja, com estes meninos e meninas aprendemos não só que
é possível filmar barato e rápido, mas acima de tudo,
aprendemos que filmar com um motivo, com um porquê, é muito
mais nobre e útil ao próprio autor e ao público.
Para falar mais, preciso me referir a trabalhos específicos.
Entre os do primeiro grupo de realizadores,
da comunidade de Monte Azul, impressiona o documentário Vira
Vira que esbanja criatividade e humanidade para tratar do alcoolismo
com uma falta de moralismos e de sisudez que envergonha qualquer GNT,
Rede Globo ou BBC. A estes todos e seu discurso que distribui culpa falta
assumir o óbvio: que toda droga oferece prazer, senão não
seria usada. A negação deste fato como algo secreto e proibido
torna qualquer outra observação parcial e errônea,
e precisa um jovem desta comunidade para nos mostrar isso por A mais B.
Temos ainda de lá a surpresa do uso subversivamente ácido
e crítico da câmera como objeto político em Tato
que acompanha um jovem que procura emprego, numa sofisticada brincadeira
de ficção e realidade que mostra o quanto tempo temos perdido
assistindo Faustão. Temos ainda uma incursão pela linguagem
poética tornada simples e popular em Uma Menina Como Outras
Mil cujo título não podia ser mais exato; e um passeio
rápido pelo experimental como forma de mostrar um errante garoto
pelo mundo da periferia, em Rumo.
Tomada a porrada, dos quatro primeiros exemplares
que jogaram por terra qualquer esperança ainda paternalista de
minha parte, os olhos e ouvidos estavam abertos para ver o que mais eu
tinha a aprender de cinema com aqueles moleques, já que os adultos
dos curtas em película não tinham nada a aprender aparentemente
ao realizar seus filmes, e por isso mesmo acabavam não ensinando
nada.
A próxima leva era da Cohab de Raposo
Tavares. Começamos com uma primeira incursão mais direta
pelo documental, chamada Maravilha Tristeza, que é o tipo
de sacada cotidiana que as câmeras viciadas dos donos das imagens
jamais permitiriam perceber nos documentários sobre este local,
e não feito por ele. Cheio de frescor e graça, tornava engraçado
e simpático o banal do dia a dia. Depois um trabalho menos interessante,
justamente por querer ser "sério", ou seja, usar da periferia como
objeto de denúncia moralista, que acaba diminuindo seu alcance.
Sem dúvida reflexo de muitas horas de Globo Repórter e Fantástico
na cabeça, foi um certo alívio ver e achar um trabalho mais
fraco para me liberar de preocupações de estar sendo por
demais condescendente. Depois mais um breve ensaio poético sobre
o circo, chamado Fascinação; e por último
o mais impressionante dos trabalhos da comunidade, o surpreendente As
Causas Impossíveis do Santo Expedito, que usa sofisticada montagem
paralela e jogos de enquadramento para falar um pouco de religiosidade
e pobreza.
Já estava agora preparado e maravilhado,
mas ainda havia surpresas a serem proporcionadas pelo pessoal da Freguesia
do Ó (que eu só conheço da música do Gilberto
Gil...). Começou menos interessante com o Mangue Paulistano,
um exercício de denúncia do dia a dia de um jovem da periferia
que não se diferencia muito do olhar que costumamos ter. Mas a
sequência da sessão foi memorável. Primeiro com o
fenomenal pseudo-documentário Super Gato contra o Apagão
que mistura um discurso subversivo e político inexistente no
cinema brasileiro atual com uma irreverência do nosso melhor cinema
marginal. E, na sequência, os inesperadamente libertários
Impulso (muito mais avançado sexualmente do que qualquer
cinema atual) e Mentiras Verídicas, que força um
pouco a barra no início no simbolismo direto de suas imagens, mas
consegue uma carga poética e anárquica fortíssima.
Ao fim da sessão, convencido de que
havia assistido, de longe à melhor coleção de curtas
daquele Festival, corri para propagar o que continua sendo meu brado maior:
finalmente foi encontrada a vitalidade que o cinema brasileiro precisa
receber via transfusão o mais urgente possível. É
esta garotada que precisa começar a nos ensinar a fazer cinema
do zero, como supostamente aqueles professores estiveram fazendo com eles.
É o momento de rever tudo, de espalhar, de disseminar. É
o momento de perceber, finalmente, em que medida o digital pode de fato
representar algo novo, jamais visto. É hora do cinema mudar de
lado, e assistir um pouco seus objetos tornando-se sujeitos, e, com DVs
em mãos, nos mostrarem tudo que nós perdemos após
anos e anos de cinefilia e elitização vazias. Viva!
Eduardo Valente
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