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Perpétua
664,
de Claudia Neubern
Perpetua 664, França,
2001
O ponto de partida
é bonito: uma mulher (a diretora, afinal trata-se de um documentário)
descobre numa fita o único registro da voz de sua mãe, morta
quando ela tinha apenas um ano de idade. Resolve perseguir a memória
desta mulher, em busca do que sua ausência possa ter significado
em sua vida. Por acaso, a diretora é uma brasileira que mora em
Paris, portanto sua busca vai trazê-la ao Brasil, São Paulo,
para uma odisséia de conhecimento em português mesmo.
Infelizmente pouco
mais se pode dizer de interessante do filme. Porque faltou à diretora
o mais essencial neste tipo de projeto: conseguir transcender o fato de
que se trata de um assunto tão pessoalmente forte, e torná-lo
não só interessante, mas acima de tudo emocionante, para
qualquer espectador. O distanciamento num caso como este é difícil,
claro. Mas deve ser exigido, como no exemplo recente do estupendo curta
Helicopter, de Ari Gold, que partia da morte da mãe do diretor
para prestar uma homenagem como poucas já vistas no cinema. Se
não houver este distanciamento, fica tênue a fronteira entre
algo de consumo interno e pessoal e um filme para exibição
pública.
E esta é a
maior impressão que fica ao final do filme: que ele não
deveria sequer ser exibido para os de fora da família, porque não
possui interesse para tal. Claro, dá para ouvirmos a história,
como ouviríamos a de uma vizinha simpática contando sua
vida. Mas nada mais há. Num certo momento, uma entrevistada pergunta
"Mas, afinal, o que você quer com este filme??" A diretora corta
a palavra da mulher, sem oferecer uma resposta clara, assim como o filme
não o faz. O que quer que fosse o objeto de sua busca, só
possuiu interesse e utilidade para ela mesma, num nível muito pessoal.
Nós não "temos nada a ver com isso".
Talvez seja a demonstração
de que a frase-clichê "Minha vida dava um filme" é tão
mentirosa quanto sempre imaginávamos. Um filme é um filme,
uma vida é uma vida. Para transformar um no outro, ou vice-versa,
é preciso sim talento. E talento é o que falta na condução
das entrevistas (a primeira com o pai chega a ser ofensiva), é
o que falta no uso da trilha sonora, é o que falta na narração
em off, é o que falta para transcender um discurso que nunca escapa
ao mais óbvio psicologismo de auto-ajuda. Um assunto caro à
diretora, sem dúvida, e por isso mesmo filmado com muita entrega.
Mas esta entrega impediu que ela pudesse ver que sua caminhada pelo passado
conseguiu muito pouco que pudesse ser de fato algo novo, algo que tenha
validade para todos os que possam ver o filme.
Eduardo Valente
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