O que ainda não vimos


Encerradas as maratonas de 14 dias no Rio e 21 em São Paulo (incluindo aí as chamadas "repescagens"), o cinéfilo está cansado, mas realizado. Quer dizer, realizado nunca porque ele sabe que perdeu muitos filmes, sempre, fez opções erradas vendo filmes que não queria e perdendo outros, mas isso é parte do jogo dos festivais. O mito do cinéfilo-total, aquele que verá todos os filmes do mundo, não passa disso, um mito. Mas, brigar com esta impossibilidade é o que move o espectador assíduo dos festivais sempre.

Por isso mesmo, a Contracampo faz questão de dar uma geral e aumentar um pouquinho mais o sofrimento de todos, levantando o que não foi exibido no Rio e São Paulo (que com as mostras funcionam um pouco como microcosmos do Brasil). Na verdade o intuito é um pouco mais nobre do que este sadismo, é uma tentativa de chamar a atenção das pessoas para os outros filmes aos quais devemos estar atentos. Até porque a experiência diz que os próprios Festivais podem se animar a trazê-los no futuro. Este ano, por exemplo, pudemos tirar o atraso com pelo menos quatro títulos de 1999 que pareciam já sumidos do Brasil: O Fio da Inocência, de Atom Egoyan (RJ e SP, a ser lançado comercialmente); A História Real, de David Lynch (idem, embora o lançamento comercial já tenha atingido ano e meio de promessa); Gata Preta, Gato Branco, de Emir Kusturica (só em SP); e A Bacia de John Wayne, de João César Monteiro (só em SP, e nem na Mostra, num evento do CCBB - o que importa é que foi exibido em cinema no Brasil).

O fato é que hoje, no atual estágio do Festival do Rio e da Mostra de SP, o cinéfilo mais dedicado tem acesso a um dos cardápios mais variados do mundo. Chega a ser preciosismo pedir outros títulos, não? Não exatamente. Porque não representa uma ingratidão com o que nos é mostrado a cada ano (gratidão esta mostrada com a nossa cobertura e entusiasmo pelas mostras). Não seria de qualquer jeito uma impossibilidade pedir mais filmes, já que as mostras já mal comportam os que trazem? Não exatamente, porque alguns destes títulos são os considerados essenciais, o que não se pode dizer de boa parte do que vemos (embora deva se reconhecido que é da peneiragem que deve sair a qualidade). E também porque, preciosistas ou amantes do impossível, não importa, a paixão pelos filmes é maior.

Mas, passemos aos filmes em si. Começamos pelo termômetro anual do cinema mundial, inegavelmente, que é o Festival de Cannes. Ainda mais em 2001, quando sua seleção foi estupenda e muito superior aos supostos competidores (Veneza e Berlim), tão superior que estes pareceram torneios de segunda divisão. Pois bem, Cannes representa um Festival interessante, porque boa parte do que é exibido lá acaba chegando ao Brasil, mas não necessariamente no mesmo ano. Por exemplo, na nossa lista de essenciais perdidos após os festivais do ano passado havia 7 filmes exibidos em Cannes. Destes, só um continua inédito no Brasil um ano depois (para matar a curiosidade: Les Destinés Sentimentales de Olivier Assayas). Os outros foram exibidos em circuito ou nos festivais este ano. Assim, não é caso ainda de desesperança de ver estes títulos de Cannes 2001 exibidos ano que vem.

Da competição, ainda nos são inéditos os seguintes filmes (a ordem é de nossa preferência mesmo):

Taurus, de Alexander Sokurov (prometido em SP este ano, não veio)
The Man who Wasn't There, dos irmãos Coen
The Pledge, de Sean Penn
Distance, de Hirozaku Kore-eda
Roberto Succo, de Cedric Khan

E, entre os exibidos fora de competição:
Operai, Contadini, de Daniele Huillet e Jean-Marie Starub
Les Ames Fortes, de Raoul Ruiz
H-Story, de Nobuhiro Suwa

Não é uma lista grande, mas é uma lista de promessas enormes. Ainda mais se consideramos que não estão na lista os chamados títulos-apostas, ou seja, os vários outros não exibidos aqui entre trabalhos de diretores menos conhecidos ou mesmo iniciantes. Para comparação, porém, vale dizer que foram exibidos no Brasil de Cannes 2001: 14 dos filmes em competição (ficando 8 inéditos) e 25 das mostras paralelas, com número igual a este de filmes ainda não exibidos. Vários dos quais neste caso continuarão assim, claro.

De Cannes 2000 e 1999 devemos lembrar ainda de Esther Kahn, de Arnaud Desplechin, eleito melhor filme de 2000 pela Cahiers du Cinema; Les Glaneurs et la Glaneuse, de Agnés Varda; e Contos de Kish, filme iraniano em episódios, sendo um deles dirigido por Mohsen Makhmalbaf.

Se em termos de Cannes a situação é esta, em termos de Veneza (segundo mais importante festival do mundo), fica um pouco mais complicado pela extrema proximidade do festival dos eventos brasileiros. Assim, tradicionalmente os mais importantes são trazidos, mas ficam faltando alguns que acabam esquecidos. Para se ter uma idéia, entre os anos de 99 e 2000 os seguintes filmes de Veneza ficaram inéditos no Brasil, e assim continuam:

Le vent de la nuit, de Philipe Garrel
Pas de scancale, de Benoit Jaquot
The man who cried, de Sally Potter
Liulian Piao Piao, de Fruit Chan
Denti, de Gabriele Salvatore
Otesanek, de Jan Svankmajer
Possible worlds, de Robert Lepage
Merci pour le chocolat, de Claude Chabrol (exibido aqui em TV a cabo, mas não no cinema)

A lista parece menos imponente do que a de Cannes, é fato, mas não devemos esquecer que há possíveis pérolas escondidas aí, pelo currículo de alguns destes realizadores. Também é fato que o grosso dos filmes principais e em competição foram exibidos aqui, com maior ou menor atraso.

Quanto ao Festival de 2001, nos chegaram 11 dos 20 filmes que disputaram o Leão de Ouro. Entre os outros 9, é verdade que um é certo de passar aqui, afinal é brasileiro, Abril Despedaçado de Walter Salles. Quanto aos outros, alguns são mais prováveis do que outros, mas destacamos as principais omissões:

Sauvage Innocence, de Philippe Garrel
Hollywood, Hong Kong, de Fruit Chan (segundo filme em 3 anos dos dois)
L'aprés-midi d'un tortionnaire, de Lucian Pintilie
The Navigators, de Ken Loach (estranha omissão, já que o Festival do Rio costuma exibir seus filmes, o que leva a crer que deva passar aqui ainda)

Nas mostras paralelas, Veneza tem uma forte tradição documental, que ainda conta com o É Tudo Verdade de 2002 para suprir os filmes, e tem a competição de diretores mais novos, que pode esconder pérolas desconhecidas que nem citaremos aqui (embora desta mesma competição nos tenham vindo filmes tão fracos quanto Maior que a Vida das Filpinas, Um Homem a Mais da Itália, Sábado da Argentina ou mesmo Água e Sal de Teresa Villaverde, Portugal, é fato que veio também um filme importante como Time Out de Laurent Cantet, ganhador desta competição paralela em Veneza - todos estes aliás vieram só para São Paulo, provavelmente porque Veneza acontece menos de 20 dias antes do Festival do Rio). Entre estes destaques paralelos, aguardamos ainda chance de ver os seguintes filmes:

Zuotian, de Zhang Yang
Haixian, de Zhu Wen (ganhador do prêmio do júri)
Invincible, de Werner Herzog
Le Souffle, de Damien Odoul (ganhador de outro prêmio do júri)
La fiebre del loco, de Andrés Wood (elogiado filme latino)
Rasganço, de Raquel Branco (nova geração portuguesa sempre pede atenção)

Além dos mais consagrados, exibidos hors concours:
Dust, de Milcho Manchevksi (diretor de Antes da Chuva)
Pistol Opera, de Seijun Suzuki
Silence... On Tourne, de Youssef Chahine

E, entre os documentários, destaque para
Domestic Violence USA, novo "épico" de 3 horas de Frederick Wiseman
Danielle Huillet e Jean-Marie Starub, cineastes, de Pedro Costa (documentário da série Cinema de notre temps, do diretor de No Quarto da Vanda)

Fechando o ciclo dos festivais principais, temos Berlim, que acaba sendo o que mais filmes tem exibidos ao longo do ano, até por seu caráter mais comercial (podemos citar como filme exibidos na competição de Berlim este ano Chocolate, O Alfaiate do Panamá e Traffic). E também, pela data em fevereiro, já municiou o É Tudo Verdade de 2001, e foi bem estudado para os festivais de fim de ano e distribuição comercial. Da competição foram exibidos aqui 17 filmes, e não exibidos apenas 7. Destes, apenas dois ou três merecem destaque, já que um deles foi feito originalmente para a TV e já exibido aqui no formato, Wit de Mike Nichols. Entre os poucos ausentes, estão:

Felix et Lola, de Patrice Leconte
The Claim, de Michael Winterbottom
You're the One (Una Historia de Entonces) de José Luis Garci

Todos são diretores irregulares, para se dizer o mínimo, mas capazes de despertar interesse. Das mostras paralelas não se pode dizer que haja uma grande omissão, pois são títulos no geral desconhecidos, de diretores idem. Mas vale destacar que no total 27 títulos destas mostras passaram no Brasil, portanto um panorama (sem trocadilhos com a mostra de lá) bastante grande foi traçado, indo de destaques como Hedwig ou Southern Comfort a baboseiras como O Sobrevivente, Transferência Mortal, Fluffer, Segredos de Família ou Berlim Babilônia, mostrando quão irregular é o festival.

Esta talvez seja a peneira mais fácil de se fazer, passando pelos 3 principais festivais do mundo, mas é claro que ela está longe de dar conta da produção mundial, sobre a qual em muitos países, a informação é escassa. Por isso mesmo, esta lista de filmes não vistos é altamente parcial e incompleta. Mas existe uma série de outros títulos que passam pelos nossos ouvidos e pesquisas que estão ausentes também. Não se pode dizer que possuam uma lógica na apresentação ou não aqui, mas que tão somente são filmes que nos pareçam (seja por realizadores ou comentários) importantes de serem lembrados. Fazendo uma lista rápida, passamos pelos seguintes nomes:

The Lord's Lantern in Budapest, de Miklos Jancsó, um dos nomes essenciais do cinema húngaro, já teve até retrospectiva em SP, mas este filme de 2000 segue inédito
Werckmeister Harmoniák, de Bela Tarr, prometido mas ausente da lista final em São Paulo, este novo trabalho do realizador de Satantango
Terminus Paradis, de Lucian Pintilie (realizador romeno cujo novo filme já foi citado na parte de Veneza)
Life as a Sexually Transmitted Disease, de Krzystof Zanussi (Polônia)

Além do clássico entre os filmes recentes não exibidos no Brasil, Keep Cool de Zhang Yimou, que dividia com Gata Preta Gato Branco de Kusturica o título do mais comentado e nunca visto entre os cinéfilos. Quem sabe ele e alguns destes outros não têm a sorte final de Kusturica e chegam até nós? No ano passado em texto semelhante citamos 41 filmes inéditos, dos quais 19 chegaram ao Brasil em 12 meses. Este ano listamos mais 42 títulos (isso não é norma, mas coincidência mesmo), alguns deles reincidentes. Tomara que ano que vem não possamos incluir vários deles de novo na lista. Mas, claro, é impossível satisfazer plenamente o cinéfilo-total, sempre será. O sentido da vida sempre estará escondido naquele um plano não visto daquele filme inatingível. Ainda bem.

Eduardo Valente