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Nuvens,
de Marion Hansel
Nuages, Bélgica,
2001
O título do
filme assusta, ainda mais com a sinopse. Ao sabermos que a diretora sempre
foi fascinada por nuvens e que quis dedicar um longa a esta obsessão,
esperamos o pior. Mas o filme tem um subtítulo que alivia um pouco
o medo, e dá um norte mais claro quanto ao desenvolvimento narrativo:
"Cartas a meu filho". E é neste delicado equilíbrio que
o filme vai tentar se encontrar: na contemplação do fenômeno
da natureza que o título antecipa e as imagens exploram, com a
emoção do que seja "ser mãe", que está no
discurso falado.
Não se pode
dizer que o filme seja bem sucedido nesta união, que parece bastante
arbitrária em inúmeros momentos. Mas, por outro lado existe
sim inegável poesia, e principalmente, crença da diretora
na importância, ou seria melhor, na transcendência do que
ela deseja dizer e mostrar. Isso é uma coisa essencial no cinema,
e que muitas vezes falta aos diretores: acreditar que o que eles têm
para mostrar e dizer é importante, urgente, necessário.
Se não por mais nada, por isso este filme já teria interesse
garantido.
Além disso,
o filme tem um trabalho de edição de som esplendoroso, que
constrói sutilmente os estados de espírito do espectador.
E, na montagem, está também escondida a construção
de uma geografia imaginária que funciona sempre, dando continuidade
a uma série de planos que pode facilmente dar a volta ao mundo
pelos continentes, sem que isso seja percebido ou sequer um dado importante.
Que se elogie ainda a pesquisa de locações e a busca destas
imagens e sons, porque são inegavelmente belos, e de fato quase
épicos. Completam inegavelmente a definição de qualquer
um de "espetáculo audiovisual" e possuem força em si mesmas.
O espectador fica
livre para interpretar como bem quiser a lógica "narrativa" do
filme, que une as emoções de ser mãe com a de presenciar
fenômenos da natureza. Pode identificar passagens com "nuvens" produzidas
pelo Homem, outras com opostos (a fumaça do fogo, as nuvens de
água), até o final belo com as nuvens representadas em pinturas,
tiradas de seu movimento e eternizadas pelas fotos, tentando torná-las
paisagem quando são movimento sempre. Fora isso, o espectador sentirá
muitas vezes estar testemunhando um espetáculo aleatório
do belo pelo belo.
Mas, só uma
coisa é inegável: deve ser interessante querer mandar um
recado, uma declaração de amor ao filho, e ao invés
de fazer um vídeo caseiro ou comprara um presente ou cartão,
poder viajar o mundo inteiro realizando um longa-metragem sobre as nuvens,
para depois mostrar pelo mundo. Certamente, privilégio de poucos.
Eduardo Valente
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