Nómadas,
de Gonzalo López-Gallego


Nómadas, Espanha, 2000

Talvez o maior mérito deste filme seja tornar necessária de novo a velha pergunta: afinal, a estética pode existir desvinculada de um objetivo, de um conteúdo? É difícil ser favorável à tal hipótese, da mesma forma que é difícil assistir ao filme inteiro sem perguntar: "Por quê?"

O filme lembra um pouco o recente Sombras, filme francês exibido há dois anos na Mostra, que causou polêmica pela estética radical e a opção por um tema difícil como o retrato da mente de um assassino. Ainda que questionável, no entanto, conseguíamos entender as razões estéticas do diretor, concordando ou não com elas. Aqui o que assusta é o completo vazio que se segue aos planos extremamente belos, usos de câmera lenta, um trabalho de edição de som na fronteira do experimentalismo. Não se propõe nada de fato, um retrato de geração, uma crônica da atualidade, contar uma história, penetrar num mundo. Nada. Tão somente filmar o mais bela e desconcertantemente possível uma série de situações envolvendo quatro personagens-limite. Trabalha-se sim no limite do clichê de um certo desequilíbrio mental, marginalidade, solidão. No entanto, não chegam a ser temas tanto quanto são motifs para as sequências coreografadas de cortes, sons, encenações.

Assistir Nômadas torna-se incômodo, é certo, mas não creio que pelas razões ambicionadas pelo diretor de um retrato violento ou desconcertante. Torna-se incômodo tão somente pela completa gratuidade do formato ou do tema escolhido, pela vontade ser artístico apesar da vida. O filme não transcende nada, apenas embeleza, para enfeiar. Talvez a comparação mais pertinente seja mesmo com o último filme de Claire Denis, apresentado no Festival do Rio, Trouble Every Day. Enquanto neste trabalho nós temos um retrato audiovisual completo de um desvio de conduta, tornado humano pela capacidade de filmar o mundo de forma nova, de tornar-nos cúmplices de algo pela identificação sensorial com o que assistimos, aqui no filme espanhol o que temos é uma câmera fria e inumana como sua ambientação, tornando distante e freak show o que vemos. Esta postura de distanciamento do espectador para apreciar o show estético, ao contrário de nos aproximar para nos tornar um com o que vemos, faz toda a diferença entre uma obra relevante e um exercício estéril de cinema. E, infelizmente, Nómadas não passa disso, nunca.

Eduardo Valente