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Mundos
Paralelos,
de Petr Václav
Paralelní svety,
República Tcheca, 2000
Quando o filme começa,
a história de amor que vamos acompanhar por quase duas horas já
acabou. Só que os personagens ainda não sabem disso. Ou
melhor, sabem, mas as duas horas que se seguirão são justamente
o retrato daquele momento tão doloroso em que o final latente de
uma relação torna-se o final de fato. E o que há
de mais belo neste delicadíssimo poema em prosa sobre o fim de
um relacionamento amoroso é a capacidade do seu diretor de nos
levar com ele numa viagem subcutânea ao amor que uniu (e agora separa)
estas duas pessoas. Esta é uma relação tão
comum no que ao final pode ser percebido como sua falta de razões
para terminar. Ou mesmo para começar. Mas quem um dia irá
dizer que existem estas razões, como dizia o poeta? Existem apenas
as pessoas, os atos do dia a dia e os sentimentos, e homens e mulheres
se esbarrando mais e mais e tentando da melhor forma saírem vivos
disso tudo.
Nada mais difícil,
e poucos desafios tão válidos, quanto tentar mostrar sem
qualquer flashback os porquês deste tipo de amor. Nada mais
difícil do que se eximir das imagens e palavras óbvias.
Nem os personagens nem nós merecemos apenas isso, apenas mais um
filme sobre os clichês das relações. Václav
está interessado em ir muito mais fundo, em mostrar em cada silêncio,
em cada ato, em cada plano, um nível de profundidade e empatia
com os seus personagens a partir do qual possamos fazer como apenas fazem
aqueles que se conhecem demais: ver aquilo tudo que está invisível,
ler aquilo tudo que não está dito. É nesta tristíssima
aventura que nos faz embarcar o diretor, e os que se disponham a isso
vão terminar o filme com um buraco no coração, mas
acima de tudo, com a sensação clara do sublime que o cinema
pode alcançar no retrato do ser humano pelo que ele tenha de mais
comovente: a sua falibilidade.
Os momentos belos
são inúmeros, inútil de tentar relembrá-los
pois são tão pequenos quanto pequenas são as emoções
e ações. Mas é na sutileza do filmar que se percebe
a mão de um cineasta tão certo do que faz, ainda tão
jovem. Com elipses corajosas onde as ações mais óbvias
são apagadas, com inserção de sonhos pouco "psicologizantes"
e muito bonitos, com personagens muito pouco certos do que fazem, à
beira da troca de linha de ação sempre. Alguém disse
que o filme vai do nada ao lugar algum. É verdade, não se
pode traçar uma linha de trama clara nele. Mas aqueles que saibam
traçar as linhas claras de "tramas" de suas vidas enquanto elas
acontecem, que atirem a pedra. Porque a grande beleza neste filme de Václav
está nisso: os personagens não parecem a serviço
de um Deus maior (o roteiro) previamente disposto a levá-los a
algum lugar. Parecem sim personagens completos, prontos a reagir inesperadamente
a qualquer momento, vivendo esta história no presente, e não
num passado seguro, distante e asséptico. Um cinema vivo para seres
vivos.
Eduardo Valente
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