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Milha
Zero,
de Andrew Currie
Mile zero, Canadá,
2001
Com um certo esforço,
pode-se até gostar de Milha Zero, longa de estréia
do diretor canadense Andrew Currie. Percebe-se a sinceridade por trás
de cada plano, a sensibilidade nas interpretações dos atores,
a bem sucedida tentativa de se evitar o maniqueísmo. Mas, infelizmente,
o filme não convence.
O próprio diretor
apresentou o filme. Disse que a história do pai separado que planeja
levar o filho para uma nova vida nas montanhas tentando, assim, recuperar
parte da felicidade do passado não é autobiográfica.
Mesmo porque seria confessar um rapto, que é o que faz o pai do
filme. Ele teve essa idéia motivado pela saudade que sente do filho,
distante por causa da separação conjugal.
O filme tem qualidades:
bons atores, que enriquecem os personagens (no caso do pai e do filho,
já que a mãe é inexpressiva). A música é
bonita e nunca piegas, cabendo perfeitamente nos momentos intimistas.
O bom uso dos flashbacks não deve ser esquecido. O diretor abandona
o didatismo, tão freqüente na mostra, e os introduz ao longo
do filme, dando fluência à narrativa. Vamos conhecendo os
personagens aos poucos.
No entanto, o diretor
compromete o resultado deste seu trabalho ao abusar de clichês,
como o tradicional e desnecessário plano em que o pai se fere fazendo
a barba. O plano seguinte é ainda mais batido: vemos as gotas de
sangue caindo na pia. Plano totalmente inútil, que não apresenta
nada de novo ao espectador nem dá gancho ao que vem a seguir. O
pior é que cenas como essa se repetem durante todo o filme. Nem
mesmo o chavão do pai nervoso quebrando tudo que vê pela
frente na sala é esquecido. Andrew Currie sentiu que a cena mostraria
um outro lado do pai, que ele pode ser violento. Mas já havia indícios
suficientes para que o público chegasse a essa conclusão.
Clichê mais do que inútil, nocivo.
Infelizmente, os diretores
estreantes vêm demonstrando insegurança quando passam suas
idéias para o público. Dão a impressão de
que sentem que as imagens nunca expressam o significado pretendido, que
é sempre necessária uma outra imagem, explicativa.
O poder das imagens
e, principalmente, a idéia de que o público de cinema, por
mais ingênuo que possa ser, cresceu com uma noção
de encadeamento das imagens, presente em qualquer telenovela, são
ignorados. O resultado são inúmeros filmes bem intencionados,
mas quadrados, como este.
Sérgio Alpendre
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