Martha... Martha,
de Sandryne Veisset


Martha... Martha, França, 2000

Há uma característica incômoda em inúmeros filmes da 25ª Mostra de SP: a incerteza de seus diretores na qualidade de suas imagens. É muito comum em filmes da nova safra - e não só nos de diretores estreantes - a redundância das imagens. Assim, freqüentemente, vemos planos desnecessários, que procuram ratificar o que o espectador já havia entendido. A insegurança é espantosa, principalmente se levarmos em conta que ela está presente em cinematografias não tão ingênuas como a da China e do Irã. E se lembrarmos que Francesco Rosi realizou recentemente um filme inteiro de imagens redundantes, o pavoroso A Trégua, poderíamos ficar com a impressão de que a linguagem cinematográfica pouco avançou desde Griffith. As exceções que confirmam a regra ainda estão por aí: Sokurov, Zurlini, Kusturica, Oliveira, pra ficar só nesta mostra. Mas é assustador o número de novos cineastas que desprezam a inteligência do espectador. Tomados, talvez, pelo medo de perder parte de seu público, devidamente brutalizado pela banalização das imagens.

É na contramão dessa tendência que surge o terceiro filme de Sandrine Veysset, Martha... Martha (seus filmes anteriores, Y'Aura-t-il de la Neige à Noel? e Victor...Pendant qu'il est trop tard, permanecem inéditos no Brasil). Trata-se de um delicado colírio aos que se submetem à maratona que é acompanhar a mostra. Neste filme nada é redundante, tudo é sutileza. Não é à toa que encantou Agnès Varda, a grande dama do cinema francófono.

Acompanhamos Martha, Reymond e a pequena Lise, que lembra uma Ponette crescidinha. Eles vivem harmoniosamente no sul da França. Martha insiste numa viagem de reencontro com sua irmã distante. Percebe-se, no entanto, que há algo errado. Os fantasmas do passado, já apresentados na abertura do filme, ainda não estão superados.

A história pode parecer banal. Já vimos esse drama inúmeras vezes. Mas Sandrine trata seus personagens com um carinho exemplar, evitando as habituais chantagens emocionais do gênero. O filme está impregnado do melhor Saura, o de Cria Cuervos. E por isso mesmo, não é acidental o uso da canção "Porque te vas" de Jeanette, que já embalava o drama das garotinhas do clássico espanhol. Assim como Martha, a menina de Cria Cuervos, vivida por Ana Torrent, também estava às voltas com fantasmas, se bem que de uma maneira bem mais complexa, beirando o hermetismo. Em Martha...Martha, assim como no clássico de Saura, tudo é narrado da maneira mais rica, sem imagens mastigadas para fácil deglutição.

Tomemos como exemplo da maestria da direção a cena em que Martha, recém-saída de uma clínica de repouso, acompanha Lise em um passeio. Percebemos, sem que qualquer artifício banal seja necessário, o medo de Reymond. Ele quer confiar sua filha à mãe perturbada, mas sente que não pode. Seu olhar demonstra isso, sem a necessidade de um plano mais aproximado. As cenas em que mãe e filha jogam Monopólio, ou brincam de fazer careta, são dignas de quem conhece a fronteira entre o tocante e o piegas. O espectador atento percebe que não há possibilidade de final conciliador, ao mesmo tempo em que um desfecho de impacto poderia abalar o filme, pela mudança de tom. Sandrine encerra sua delicada história da melhor maneira possível, que não convém comentar aqui. Basta saber que é um filme com qualidades raras e de uma beleza por vezes intrigante, por vezes singela, mas nunca vulgar. O cinema francês recente está vivo.

Sérgio Alpendre