Para bom entendedor, chega de legendas, basta!


Como os nem tão mais velhos assim lembram perfeitamente, mostras como a de São Paulo ou a antiga Banco Nacional no Rio eram a garantia da segregação daqueles menos fluentes em inglês. Sim, porque a imensa maioria dos filmes chegavam sem qualquer legenda em português, e vindo de lugares que variavam do Tibet à Bulgária, as legendas em inglês eram a única salvação para os que queriam entender vários destes filmes. Lentamente, a legendagem eletrônica foi se espalhando e ganhando força, mas demorou alguns anos para atingir o número de filmes que consegue hoje em dia. No Rio, nunca tantos filmes que não serão lançados receberam legendas em português, e em São Paulo até mesmo as retrospectivas (até pouco tempo ainda refúgio dos filmes sem tradução) estão sendo brindadas com o recurso.

Mas, quem diria que daríamos esta volta toda para dizer o seguinte: POR FAVOR, CHEGA DE LEGENDA ELETRÔNICA!!

Estamos querendo uma volta aos tempos elitistas de outrora, onde os filmes ficavam restritos aos falantes de uma segunda ou até terceira língua? Estamos querendo diminuir o apelo de público das mostras para que menos pessoas possam ver estas obras raras? Nem um nem outro. Apenas queremos que os filmes sejam vistos e entendidos como seus criadores os idealizaram. E na Mostra de São Paulo deste ano, as legendas eletrônicas têm sido mais inimigas do que aliadas deste objetivo. O mecanismo todo precisa ser repensado com urgência, porque o que não pode é algo pensado para facilitar começar a distorcer a experiência de ver um filme.

Trata-se de um trabalho difícil, acompanhar um filme lançando legendas. Algumas vezes quase impossível como lembram os presentes em sessões clássicas de filmes como Festa de Família, 17 Anos ou Chunyang, nas quais lançadores desesperados tentavam acompanhar palavrórios em dinamarquês, chinês ou coreano, sem qualquer rastro de legenda em inglês para guiá-los. Este ano a mostra de Emir Kusturica providenciou momentos como estes, assim como alguns outros filmes (como Vício e Beleza ou Don's Plum). É um problema grave, porque todo o clima do filme vai por água abaixo na tensão da sala com qualquer atraso de tradução. Mas são circunstâncias especiais, embora pudesse haver um treinamento mais próximo do pessoal com fitas de vídeo dos filmes, ao invés dos lançadores serem apresentados ao material junto com o público. Mas, como dissemos, chega a ser compreensível.

O que é incompreensível mesmo, e motivo deste texto, são as traduções que seriam hilárias não fossem trágicas às quais alguns filmes têm sido sujeitados. São erros tão primários, tão porcos, que às vezes parece brincadeira. Só são justificados em dois cenários: tradutores com tempo tão escasso para fazer seu trabalho que acabam fazendo-o de qualquer jeito, optando pelas primeiras soluções sem checar as várias possibilidades de significado de uma expressão, sem terem acesso a uma fita de vídeo para tirar dúvidas. A outra, mais grave e torçamos para que mais paranóica, é a utilização de mão de obra pouquíssimo qualificada e barata para fazer o trabalho. De qualquer jeito, o fenômeno tem sido tão impressionante que é caso para séria reflexão na Mostra se precisa reformular o planejamento em termos de prazos, de quantidade de pessoal contratado, ou o quê. Os filmes têm sido assassinados pelas legendas eletrônicas de uma forma desrespeitosa. Sentidos e tramas têm sido alterados, novas interpretações criadas a partir de frases jamais pronunciadas. As legendas em inglês nas telas apenas têm evidenciado este espetáculo patético.

Mas, não podemos apenas fazer esta acusação, precisamos de um mínimo de evidências. Claro que não podemos ter tantas quantas gostaríamos porque na maior parte das vezes estamos prestando atenção nos filmes (e, no meu caso, tentando só ler as legendas em inglês, sempre que há), e não anotando erros de tradução. Mas a profusão deles é tão grande, dos mais folclóricos aos mais graves, que não nos faltam exemplos. Como o início de Sob a Luz do Luar, quando um grupo de torcedores vai atrás de um jogo do "Iran national team" que nada mais é que a seleção de futebol do Irã, mas segundo as legendas é um misterioso "Grupo nacional do Irã", seria uma insinuação terrorista??

Mais graves são os erros em Atanarjuat - O Corredor Mais Veloz, depois que o personagem-título recebe um banho de mijo do seu rival, ele afirma para outro personagem que "Oki pissed on me" ("Oki mijou em mim"), ao que a legenda em português nos informa que "Oki está bravo comigo". Um erro banal talvez, mas mostra o nível de engano das traduções. Que ficam mais graves quando mais na frente o marido vira-se para a esposa, amoroso, e se oferece dizendo "Now, you'll be warmer" ("Agora, você ficará mais aquecida"), enquanto o tradutor brincalhão manda um "Agora você será o meu aquecedor" (!?!?). Mas nenhum supera o tipo de erro que citamos, que muda o sentido do filme e torna aos que não falem inglês a assistência dos filmes num processo de hermetismo involuntário. Quando uma personagem admite sua culpa dizendo "I'm the one!!", numa cena vital para entendermos o jogo de relações do filme, surge a tradução: "Eu sou o tal!!" (sendo que além do erro de sentido, é de concordância também, por ser uma mulher que fala). Ou seja, não é brincadeira, e claramente são erros de traduções ao pé da letra, feitas com pressa e sem acesso ao original em fita. Todos erros gravíssimos.

Os erros destes dois filmes não são exceções confirmando uma regra de qualidade, mas o contrário, como qualquer exame exclusivamente atento das legendas vai mostrar. Como explicamos era impossível criticar os filmes e anotar tais equívocos. Por isso, escolhemos um filme para fazer este tipo de anotação mais a fundo, depois que ele havia provado limitado interesse cinematográfico, o exemplar belga Não Chore Germaine. Mais uma vez os erros aqui variaram de grau de gravidade. Alguns ficam apenas folclóricos, como traduzir-se "They were my father's socks" ("eram as meias de meu pai") por "Eles estavam com as meias de meu pai" (eles quem???); ou quando alguém diz que "They looked happy" ("eles pareciam felizes"), e lemos que "eles olharam felizes", um erro que parece uma tradução de Miltinho, o baterista monoglota de Jô Soares. Mas, há outros erros gravíssimos, em momentos-chave do filme, mudando sentidos e personalidade de personagens. O filho revela num dos mais pungentes momentos que sabia do possível assassino de sua irmã, porque "I was tipped off" ("me deram um aviso"), quando lhe disseram que "I can take you to your sister's killer" ("posso te levar ao assassino de sua irmã"). Não é com surpresa, mas com revolta que lemos que ao invés de ser avisado, aparece a tradução do personagem dizendo "Eu avisei", uma mentira completa. Pior, ao invés da proposta de ver o assassino da irmã, surge que "Posso te levar para matar sua irmã" (!!!!). Meu Deus, é muito desrespeito com o que está sendo exibido, com o trabalho sério do cineasta e equipe. Mais preocupante ainda porque o pai diz ao irmão "You let the chance slip" ("você deixou a chance escapar"), uma observação vital naquele momento, mas que foi traduzida como "você podia escapar" (???). Um diálogo dos mais importantes e reveladores do filme vira uma surreal troca de desinformações que não fazem o menor sentido.

Estes são exemplos de pouco mais do que cinco minutos de projeção de um filme menor, sendo assassinado pela legenda eletrônica. Daí o nosso pedido para acabar com ela, se for esta a qualidade possível com os prazos necessários. Melhor os filmes sendo bem entendidos por um número menor de pessoas, respeitando suas realizações, do que esta suposta democratização da completa desinformação, da confusão, da tensão nas sessões. Isso não pode, de forma nenhuma, continuar. Porque temos certeza que não pode ser do desejo de ninguém que as obras tão importantes que são trazidas até aqui sejam constante e diariamente estupradas nos seus sentidos por um processo final corrido e errado. O que fica aqui não é nem um protesto nem um aviso, e sim um pedido de socorro pelos filmes. Eles não merecem isso.

Eduardo Valente